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Desde criança, aprendemos que o peixe morre pela boca. Bastava ouvirmos isso dos mais velhos, para sabermos que as bobagens ditas incomodavam e às vezes interrompiam conversas de adultos. Isso é uma coisa, bastante diferente de bobagens e palavrões serem ditas por adultos que se dão importância maior que a que pensam ter. Em geral, os bravateiros e de cérebro (quando acontece de o terem) vazio avaliam ganhar prestígio e poder, quando fogem às mínimas regras de educação e civilidade. Pensam-se acima do bem e do mal e de todas as demais pessoas que os circundam. Daí às grosserias, nem um passo é necessário. Mesmo quando essas grosserias e a linguagem de bordel extravasa de um celular descuidadamente deixado ligado. Como aconteceu, mal começado o desgoverno em vésperas de finar-se, com nada menos que o Chefe do Gabinete da dita Segurança Institucional. Sem o ser, de fato, porque instituições não costumam preocupar ou merecer a atenção de gente desse tipo. Eis que as más qualidades justamente reconhecidas no mesmo protagonista autor dos palavrões anteriores manifesta-se de novo. Desta vez, para lamentar a boa saúde de que goza o vencedor do segundo turno das eleições presidenciais, cuja estrela o leva pela terceira vez ao posto de Presidente da República. A mesma estrela que o fez uma das maiores lideranças mundiais, a despeito de ser um migrante nordestino, operário de profissão e sem outra qualquer estrela que não aquela tecida com a solidariedade e o amor dedicado aos mais pobres, desgalonados de toda estirpe, que se somam aos milhões. Os mesmos, e mais alguns outros, que foram tirados do circuito dos sem-comida, para logo a ele serem devolvidos, nos últimos quatro anos por completar. Infelizmente - disse a ave de mau agouro - Lula não está doente. Não estará, pelo menos dentro da perspectiva temporal (não estará, mesmo?)dos que o detratam, fazendo companhia às 700.000 almas que a pandemia levou. Que a saúde alheia incomoda aos de boca suja, ninguém teria qualquer dúvida. A falta de oxigênio em Manaus e a charlatanice vigente no momento mais trágico da covid-19 o dizem. Ainda mais quando o mesmo desprezo pela Vida é a única resposta encontrada pelos que foram punidos por obra da Natureza. Obra que torna coerentes o ambiente mais íntimo e interno da pessoa com as manifestações que de sua boca - sabe-se lá de onde mais - saem.

 
 
 

Dos mais conhecidos, o discurso com que Getúlio Vargas se despediu - do governo e da vida - marcou os que viviam em 1954 pela frase "deixo a vida para entrar na História". O fazendeiro e caudilho gaúcho mostrou enorme diferença em relação aos pretensos líderes destes tempos tão travosos e trevosos que vivemos. Ao longo do período que vem desde 25 de agosto daquele ano, outros políticos tiveram a oportunidade de escolher a porta por onde sairiam. Nenhum deles, porém, desembocando no espaço errado. Jânio, soube-se depois, escolheu Londres, onde se diz ter gastado a fortuna que sua honorabilidade discutível permitiu amealhar. Depois de Juscelino não ter tido a oportunidade da escolha. Matou-o um acidente até hoje por ser explicado. Nem por isso é desconfortável para sua memória o sentimento que ficou. Ele lutava então pela redemocratização do País. Mais tarde, alcançado o objetivo inicial da luta de que haviam participado outros (Lacerda mesmo, Brizola, Ulysses Guimarães dentre eles), João Batista de Figueiredo saiu pela porta dos fundos. Antes do último dos autocratas levado ao poder, Ernesto Geisel se fez respeitado mais pelo cenho sempre cerrado que pela excelsitude de seus pensamentos e sentimentos. Adversário da tortura, segundo dizia, admitia-a, quando necessário. Uma espécie de tortura seletiva. Isso é mais destacado nos anais da História que o esforço por promover investimentos pesados em setores estratégicos, hoje absolutamente olvidados. Sobretudo pelos que o têm por austero em demasia. Discreto, José Sarney entendeu seu papel secundário no processo que a morte de Tancredo Neves interrompeu, e permaneceu discreto. O que ainda resta de energia e discrição ele tem usado para de alguma forma se constatar ter-lhe valido a pena continuar vivo. Outros, mais novos, se foram antes dele, sem chegar à imortalidade que a Academia Brasileira de Letras lhe confere. É o caso, por exemplo do autor de "Terra Encharcada", que muitos pensam tratar-se de autobiografia, não pelos protagonistas da trama, mas pela configuração do local em que se passa - o charco. Porque Jarbas Passarinho é mais conhecido por outra frase, em nada parecida com a proferida por Getúlio. "Às favas os escrúpulos" disse o condestável do golpe de 1964, ao votar favoravelmente ao ato inaugural do período mais terrível do autoritarismo brasileiro, o AI-5, que meu advogado Alarico Barata chamava Ato Prostitucional. Estamos prestes a ver outra saída, cuja porta parece abrir-se para a cloaca que Lívio tão bem descreveu. Cada qual tem suas escolhas. Convenhamos, sempre correspondendo ao ambiente em que se acostumaram a viver. Lá onde a convivência lhes era mais fácil, agradável e gratificante.

 
 
 

Atualizado: 9 de nov. de 2022

Dezembro trará, antes de Papai Noel, mais um livro do editor deste blog. Trata-se de mais uma coletânea de textos, originalmente publicados em vários veículos de comunicação - os jornais diários A Crítica, de Manaus; O Liberal, Diário do Pará, de Belém; os boletins Gazeta Fazendária, SIFAM; A Voz do Advogado-OAB-AM; Jornal da Ciência, SBPC; e o blog carlosbranco.com br/Observador Participante. O conjunto é parte dos milhares de textos produzidos pelo autor, ao longo de quase 60 anos de ininterrupto exercício intelectual. Desta vez, o volume editado pela Scortecci traz comentários sobre politica, Direito, educação e administração e será entregue ao público no mês de dezembro, em Manaus. A capa da obra, também produzida pela Editora Scortecci, é agora apresentada.


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Oportunamente, serão informados aos interessados dia, hora e local do lançamento, com sessão de autógrafos.

 
 
 
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