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Por mais que tentem esconder, as autoridades não o conseguem. Falam de crescimento da economia e da absorção de mão-de-obra, no vão esforço de autovangloriar-se do que lhes parece triunfo, mas é tragédia para os outros. Os números o desmentem, a cada nova divulgação. Reduziram a rede de proteção social que ainda restava, tornando cada dia mais precária a sobrevivência dos trabalhadores, mera peça na engrenagem de sua máquina de enriquecimento seletivo. Propositalmente, confundem e promovem a confusão entre emprego e ocupação. Esquecidos de que nem todos são distraídos, sequer dão importância para os números. É a sequência bem seguida da recusa a ver fome e miséria diante de contêineres de lixo espalhados pela rua, onde os moradores do lugar tentam buscar o alimento(?)que lhes falta à mesa. É a comemoração de algum décimo de crescimento no volume produzido ou, melhor ainda, no faturamento alcançado. Fake-news como tantas outras, cujo único, perverso e exclusivo préstimo é aumentar a desigualdade, afastar ainda mais os que tudo têm dos que a nada têm sequer acesso. Só assim lhes é possível financiar atividades criminosas; agredir os divergentes; explorar a fome por aqueles mesmos produzida; desdenhar dos que batem à porta dos hospitais onde até o oxigênio lhes é negado; ver a miséria como produto da preguiça, do ócio, da desvontade. Isso tudo, quando proclamam, alto e em bom som, ser necessário empreender. Mesmo se os números do SEBRAE indicam enorme taxa de mortalidade precoce das pequenas e microempresas tocadas pelos incautos e ingênuos, sob o som fúnebre dos tais planos de demissão voluntária. Neste caso, para obedecer à vontade dos que veem no desemprego do outro a oportunidade de lucrar ainda mais. De falácia em falácia, vai-se vivendo e matando, antes que o corpo morra, a esperança de qualquer ser humano. Aqui está a dificuldade, para muitos dos que operam nesse trágico e perverso sentido - ser humanos, mesmo!

 
 
 

Leio que pelo menos cinco dos mais prestigiados generais do Exército estão sendo ofendidos pelos delinquentes que pedem a volta da ditadura. Os membros do pequeno grupo de militares vêm sendo acusados de serem melancias - o eufemismo para dizê-los comprometidos com o comunismo, que a surrada e desatualizada frase verdes por fora, vermelhos por dentro sintetizaria. Do ponto de vista dos que acusam, nada diferente se poderia esperar. Já são bem conhecidos seus propósitos, os valores que os orientam (se é que eles os têm) e a que lideranças cegamente rendem obediência. Preocupa, todavia, a gravidade da ofensa, menos pela suposta posição pessoal dos oficiais superiores. Há, porém, certo sentido de advertência, mesmo se fora das intenções dos acusadores. Neste caso, os generais ofendidos hão de refletir sobre o efeito que pode ter no conceito das forças a que pertencem a aparente leniência das guarnições, quanto ao crime continuado de que seus caluniadores são agentes. Os rumores indicam a irritação dos suspeitos de serem melancias, exatamente porque isso faria reduzir o prestígio de que gozam (até que ponto, nunca mais se aferiu) as forças armadas brasileiras. Se há algum fundamento pelo menos nesta parte dos rumores, quem sabe seria de bom aviso a simples e cabal remoção dos manifestantes fora-da-lei, para o mais longe que puder dos quartéis. Ou há alguma dúvida sobre eventual resistência dos apoiadores castrenses a obedecer a hierarquia? Desde criança ouço dizer que cuspir para cima tem seus riscos, o maior deles o que cuspiu ser atingido pelo cuspe. Algo muito parecido com o feiticeiro que vê o feitiço operar contra ele mesmo. Ponho em dúvida o desejo dos cinco generais de fazerem jus à acusação dos delinquentes que nem mesmo o general Humberto de Alencar Castelo Branco chamaria de vivandeiras. Talvez preferisse chamá-lo de bandidos. É o que são, não mais, nem menos. As leis, mais que qualquer observador, o dizem.

 
 
 

Coube a Luís Nassif, faz poucos dias, desfazer a teia de mentiras tecida pelos adoradores dos bezerros de ouro. O atento e experimentado analista trouxe à luz conceito e práticas atribuídas ao deus em cujo altar é cultuada a entidade que São Basílio, o bispo da Antióquia da Antiguidade chamava o esterco do Mundo. Trocando para linguagem mais atualizada, o dinheiro. Esse que constitui a base das relações mantidas naquele ambiente pouco ou nada asséptico a que os fiéis chamam mercado. Nassif aborda a reação dos que controlam as finanças mundiais, diante do importante pronunciamento de Lula, ocasião em que prometeu governar para todos os brasileiros, hábito que, nem por ser obrigatório, deixou de ser praticado no País. Cada grei deseja ter como seu o cocho que todos sustentam. Pois a esse grupo que decide e faz onda nos lucrativos negócios internacionais, o jornalista chama de clube de operadores. Vem deles o intenso tráfego de moedas, que dorme em um lugar do Planeta, em poucas horas exaure as reservas e o sangue do povo dali, para dormir (como se houvesse sono na jogada) a sesta mais adiante e continuar em sôfrega e ávida transferência, não importa a distância de um para outro ponto da Terra. Basta que haja a menor condição de amealhar parte da riqueza por todos os nativos produzida, sua insônia será sempre bem-vinda. Forçam oscilações no câmbio dos países, provocam inflação, sacrificam a alimentação e o emprego de multidões, e continuam por aí, ao som da marcha - fúnebre para a maioria, lúgubre para os membros do clube. Terá sido a primeira manifestação do acerto de Lula, pôr no mais alto de suas preocupações a devolução da comida à mesa dos mais pobres, a prestação honesta e generalizada de bons serviços de saúde e educação a todos, a igualdade salarial das mulheres, em relação ao que ganham os homens. O clube reage como se a redução da pobreza nada trouxesse de vantagens a eles. Mais que todos, o clube dos operadores do dinheiro do Mundo sabe ser absolutamente compatível a redução da pobreza (sem precisar matar um só dos pobres, como se percebe nas necropolíticas em vigor) com a manutenção de atrativos ao capital. Desde que este se contenha nos limites da decência e da humanidade. Quem sabe o pagamento pontual e justo de tributos razoáveis (sem dúvida maiores dos que hoje são pagos - quando o são) evitaria eventuais exageros na tributação de grandes fortunas e na transmissão causa-mortis de bens e valores? Em todo caso, estas são duas das providências que Lula não poderá esquecer ou abandonar. Então, será desmentida outra inverdade propagada e multiplicada segundo a máxima de Göebells: a mentira dita mil vezes assume ares de verdade. Aos poucos caem as máscaras. Menos as que protegeriam a saúde dos mais vulneráveis. Os números da covid-19 o atestam.

 
 
 
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