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Contra o feiticeiro

Leio que pelo menos cinco dos mais prestigiados generais do Exército estão sendo ofendidos pelos delinquentes que pedem a volta da ditadura. Os membros do pequeno grupo de militares vêm sendo acusados de serem melancias - o eufemismo para dizê-los comprometidos com o comunismo, que a surrada e desatualizada frase verdes por fora, vermelhos por dentro sintetizaria. Do ponto de vista dos que acusam, nada diferente se poderia esperar. Já são bem conhecidos seus propósitos, os valores que os orientam (se é que eles os têm) e a que lideranças cegamente rendem obediência. Preocupa, todavia, a gravidade da ofensa, menos pela suposta posição pessoal dos oficiais superiores. Há, porém, certo sentido de advertência, mesmo se fora das intenções dos acusadores. Neste caso, os generais ofendidos hão de refletir sobre o efeito que pode ter no conceito das forças a que pertencem a aparente leniência das guarnições, quanto ao crime continuado de que seus caluniadores são agentes. Os rumores indicam a irritação dos suspeitos de serem melancias, exatamente porque isso faria reduzir o prestígio de que gozam (até que ponto, nunca mais se aferiu) as forças armadas brasileiras. Se há algum fundamento pelo menos nesta parte dos rumores, quem sabe seria de bom aviso a simples e cabal remoção dos manifestantes fora-da-lei, para o mais longe que puder dos quartéis. Ou há alguma dúvida sobre eventual resistência dos apoiadores castrenses a obedecer a hierarquia? Desde criança ouço dizer que cuspir para cima tem seus riscos, o maior deles o que cuspiu ser atingido pelo cuspe. Algo muito parecido com o feiticeiro que vê o feitiço operar contra ele mesmo. Ponho em dúvida o desejo dos cinco generais de fazerem jus à acusação dos delinquentes que nem mesmo o general Humberto de Alencar Castelo Branco chamaria de vivandeiras. Talvez preferisse chamá-lo de bandidos. É o que são, não mais, nem menos. As leis, mais que qualquer observador, o dizem.

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