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Sempre fui dos que negam a possibilidade de coincidência completa entre a realidade e a exata percepção individual a respeito dela. Considero pequeno o raciocínio que leva à qualificação de realista a pessoas que falam da percepção que têm das coisas, das gentes e de suas relações. Prefiro considerar duas visões de mundo, uma orientada pelos valores da Vida; outra, oposta, que põe como valor mais alto a certeza da morte. Os primeiros são chamados otimistas. Acreditam no sentimento de Esperança e orientam suas decisões e ações pelo propósito de serviço às melhores causas humanas. Geralmente estão de bem com a Vida, a deles mesmos e a dos outros. Não confundem seriedade com carranca, nem acumulam frustrações não resolvidas. Por isso, são poupados do constrangimento com o o êxito alheio e o sentimento de inveja. Nos pessimistas é frequente ver-se o indivíduo inseguro, invejoso, quando não vítima de preconceitos e complexos, o de inferioridade sobretudo. As decisões e ações deles, orientadas pelos piores sentimentos de que um ser dito (nem sempre com propriedade e justiça) humano é portador, sempre expressam ódio, vingança e desamor à vida - a dos outros em primeiro lugar; depois, a deles próprios. Insatisfeitos com a Vida que levam, pretendem uma igualdade que a todos atinja. Desejam igualar os outros, os que têm visão de mundo positiva, resultando disso o culto a tudo quanto se aproxime da dor, do sofrimento e da morte. Desta tornam-se cultores reverentes e submissos. Chegam ao ponto de ignorar e desdenhar do conhecimento e da Ciência; odiar os que pensam ou agem diferente; humilhar os que consideram otimistas ou utópicos; perseguir os que propõem visão de mundo diversa em relação à sua própria. Em boa e antiquada linguagem, o que era chamado espírito de porco. Mesmo se esta expressão não combina e se oponha às descobertas científicas mais recentes que dão aos suínos a qualidade de animais mais próximos do homem, no quesito inteligência. Hoje, pelo que essencialmente são, e pelas condutas malignas que gratificam seu ego, chamamo-los negacionistas. Destituídos de esperança, são cegos à evidência e intolerantes com a alegria. Todo e qualquer que sintam diferente deles mesmos será sempre objeto do ódio que trazem consigo e sequer sabem como lutar com os demônios que habitam sua mente e coração. Uns pobres coitados - diria meu inesquecível pai.

 
 
 

Atualizado: 3 de jan. de 2023

Esgotados os apertados limites da redemocratização representada pela Nova República, as conquistas da Constituição dita cidadã não bastaram. A riqueza natural do País, as enormes potencialidades econômicas nela inseridas, o aprofundamento das desigualdades e o exacerbado egoísmo das elites empurraram-nos para a tragédia. País devastado, minorias reprimidas e perseguidas, tornados párias da sociedade mundial, os brasileiros tivemos que superar a um só tempo valores incompatíveis com a civilização, projeto político negacionista, a mentira fazendo-se expediente rotineiro nos gabinetes oficiais. A mais importante e simbólica decisão do fujão do Planalto terá sido a de não comparecer à posse de seu sucessor na Presidência da República. Durante os quatro últimos anos firmou-se a impressão agora cabalmente confirmada de que sua ausência a cerimônias e atos dignos dizia mais do que sua aversão a qualquer gesto civilizado ou civilizatório. Simplesmente porque os atores desses atos fundamentais à vida social e política contrastam com o desdém e a brutalidade com que o antecessor do Tripresidente caracterizou não sua trágica e deletéria gestão, mas toda sua vida. Não são os odiados adversários do nojento que o dizem, mas a grande maioria dos brasileiros, alguns dos quais deixaram os porões e esgotos por obra e desgraça do abjeto ser que hoje criticam. Mas assim é feita a História. Desta vez, mostrando que o pós-22 chega tocado por novos ventos e novos cantos - os da Esperança e da Refundação.

 
 
 

A percepção imperfeita da democracia altera esse regime que Churchill considerava o pior, salvo todos os demais, e amplia as possibilidades de seu uso. Quase sempre, sem considerar os ingredientes essenciais à sua formulação e aplicação. O resultado é que a retórica parece estabelecer os limites do próprio regime. Daí vêm as múltiplas razões para o uso generalizado da palavra, sem o menor cuidado com propostas que, pretextando desejá-la ou mantê-la, produzem flagrante contradição em termos. Ao absurdo chegamos, quando a supressão do adversário tenta escudar-se em razões que de democráticas nada têm. Ou quando é desafiada a ordem jurídica em que assenta o Estado de Direito, a rigor o único.a caracterizar a verdadeira democracia. Tome-se Direito, aqui, não como obediente a normas constitucionais e produzidas pelo Poder Legislativo. Exemplo contundente desse conceito viciado foram os diplomas ditos constitucionais que vieram pós-1964 no Brasil. O paroxismo ocorreu em 1968, com o AI-5, que o advogado Alarico Barata chamava Ato Prostitucional. Modernamente, as tentativas de substituir a manifestação dos eleitores pela imposição de regimes de força, alegando uma suposta causa democrática, não fosse a tragédia social e civilizacional, dá dimensão trágica e patética à conduta de seus defensores. Vários outros atentados contra a democracia têm sido apresentados como evidência de apego a esse regime, dos quais ameaçar a segurança dos quartéis é o exemplo mais atual entre nós.

 
 
 
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