top of page

Tão nojenta quanto nos campos de batalha, a guerra da informação produz mortes. No chamado teatro de operações onde as tropas se deslocam com seus mortíferos artefatos, restam corpos insepultos e escombros de instalações destruídas. O futuro dos países afetados é comprometido, muitas vezes levado a consequências sociais, econômicas e humanitárias por décadas. A guerra atual, mais que em qualquer outro período da História, traz novo componente ao conflito, porque também se trava entre a informação e a contrainformacão. Este o quadro ilustrativo do que foi dito a respeito da primeira perda de qualquer conflito bélico - a verdade. Embora o genocídio que vítima os Yanomami não corresponda exatamente a um conflito bélico nos termos convencionais, em torno do pretendido extermínio já se divulgam interpretações nada menos que reprodutoras da da rejeição do Holocausto como fato histórico inconteste. Se não há seis milhões de seres humanos a sacrificar, isso se deve a uma espécie de extermínio permanente, de que a comparação da população indígena de 1500 com a atual é ilustrativa. O avanço da tecnologia pôs à disposição dos exterminadores de hoje instrumentos de que seus antecessores não dispunham. E, como se sabe, a mentira divulgada nestes tempos de estranho progresso se tem pernas curtas, as tem aceleradas. Tamanha é a rapidez com que se propaga, tanto o que traz embutida na mensagem de um tipo insidioso de "verdade", na tentativa de contraditar o que imagens e sons têm de ofensivos ao sentimento do ser dito humano.

 
 
 

Por duas vezes o Tripresidente reuniu-se com todos os governadores dos Estados e do Distrito Federal. Na primeira vez, ainda estavam quentes os atos terroristas que tentavam dar o golpe projetado e anunciado desde 2019. Governantes tradicionalmente adversários de Lula e aliados antigos e recentes dele parecem ter entendido os riscos de o País voltar ao inferno, mesmo se alguns ainda não haviam nascido em 1964. Bons e maus motivos todos tinham para rejeitar a preferência pela imposição de governadores e Presidente da República à revelia do processo eleitoral. Dentre os bons motivos, realça a opção pela forma do Estado Democrático de Direito, objeto da intolerância dos que optam pela solução de força. Outra razão diz respeito à ameaça de cada um deles perder o mandato, se o voto popular - que os guindou ao poder - for revogado. É isso que as ditaduras, como a pretendida pelo golpe frustrado logo acham jeito de efetivar. De qualquer maneira, as reações internas e internacionais asseguraram a permanência da democracia, em horizonte de tempo que não se tem condições exatas de quanto durará. Isso parece ter sido perfeitamente compreendido pelos governadores, de que dão prova manifestações de diversos deles, mesmo se sabidamente alinhados com o ex-capitão que se intitula patriota e, mal enxotado do País pelas urnas, foi viver fora daqui. A mais clara manifestação pode ser atribuída ao governador de Mato Grosso, Ronaldo Caiado, como se viu e ouviu em rede de televisão. As investigações policiais e judiciais, em que pese alto grau de cumplicidade que o golpe despertou em instâncias oficiais, mistura gente de toda espécie. Desde agentes públicos lotados em unidades de forças do Estado, até pessoas condenadas pela prática de variados crimes, hoje podem ser encontradas nos presídios da Papuda e Colmeia, em Brasília. Todos com a vida preservada, infensos à cadeira-do-dragão e ao pau-de-arara, tão louvados quanto seus operadores, e seguros de que não lhes será dado o destino (qual? - para muitos dos que ainda não se sabe sequer quando e por quem foram mortos?) experimentado por tantos brasileiros, nos 21 anos de ditadura. É certo que a velocidade com que corre o devido processo legal a que muitos respondem não é a mesma, dependendo da avaliação política mais que jurídica dos atos delinquentes. Membros da forças, segundo observado pelos analistas, têm-no menos célere que os dos outros terroristas. Em meio a isso tudo, os governadores voltaram a reunir-se com o Presidente. Finda a reunião, foi divulgada nova nota, na qual todos os presentes reafirmavam seu compromisso com a manutenção da democracia. Aparentemente, há uma reiteração desse compromisso, o que é desejável. Pode-se também admitir que a ameaça contra a democracia ainda persiste e preocupa os governadores, todos eleitos pelo voto popular. O pretexto dos terroristas tem sido a suposta insegurança das urnas eletrônicas. As mesmas onde foram depositados os votos que levaram governadores, deputados federais e estaduais e senadores aos postos dos Poderes Executivo e Legislativo. Se é só a defesa de causa própria, a democracia, então, passaria a ser o pretexto usado pelo outro lado.

 
 
 

Exceção, não regra, o sigilo é admissível apenas quando a informação traz riscos à democracia, à segurança individual de agentes do Estado, seus familiares ou à paz social. Porque nada disso estava em jogo, nas numerosas oportunidades em que o (des)governo anterior lançou mão desse abjeto expediente, se há de perguntar o que justifica o segredo relativo aos custos, menus e convivas da recepção de posse do Tripresidente. Os riscos assumidos pelos participantes, as próprias autoridades brasileiras e estrangeiras e seus respectivos acompanhantes e convidados, ao que podemos presumir, não iriam além de um desarranjo intestinal ou a coma alcoólica. A não ser a hipótese sempre presente do superfaturamento ou, não sendo isso, do preço extorsivo cobrado por algum fornecedor do banquete servido. Esta, uma prática tão ao gosto da maioria dos empresários brasileiros. Os mesmos que se consideram gente de bem, desde que se os deixe permanecer agindo como meros ganhadores de dinheiro, não empresários comprometidos com o bem-estar da sociedade a quem vendem seus produtos e serviços. É preciso que todo dia fiquem bem marcadas as diferenças entre Lula e seu antecessor. Sobretudo se a maioria dos brasileiros exige - e disso não deve abrir mão - a revogação dos decretos que condenaram à escuridão muitos dos crimes cometidos a partir do Palácio do Planalto, nos últimos quatro anos. Se isso não ocorrer, pelo menos nesse campo teremos mais do mesmo.

 
 
 
bottom of page