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De 2020 a 2022, a multidão de famintos que habitam o Brasil somou 14 milhões de pessoas. Enquanto eram produzidos os 700.000 mortos pela covid-19, crescia o número dos que não se alimentavam. Dentre eles, adultos e crianças Yanomami integrantes do quadro dantesco que as televisões e redes de internet fizeram entrar porta a dentro de nossas casas. Não terá entrado, porém, no coração de todos os moradores. Alguns deles, solidários ao negacionismo oficial então vigente, preocupavam-se mais com o porte e uso de armas. Desconhecido como fenômeno social por esses grupos, a fome também pode ser exterminada, porque ao extermínio é que se dedicam esses seres que sequer merecem a classificação de humanos. Muito por isso, a CNBB se vê forçada a dedicar, pela terceira vez em menos de 40 anos, sua Campanha da Fraternidade a essa que é cabal revelação do egoísmo que tem caracterizado nossa tão desigual sociedade. Em 1975 e em 1985, não foi outra a bandeira da Campanha. De tal modo regredimos, que 38 anos depois os bispos brasileiros, a grande maioria fiel a Francisco, decidem trazer de volta o tema. É impossível a qualquer ser humano merecedor do qualificativo, admitir a reinclusão do Brasil no mapa da fome. Pior, com a expansão dessa mancha vergonhosa, hoje estimada em 33 milhões de famintos. Não obstante, o Brasil registra sucessivo e expressivo crescimento na exportação de proteína animal e vegetal, com a superação anual de seus próprios recordes. Dos primeiros países, no ranque de produção e exportação de proteínas, juntamos a esse marco o da fome crescente a afligir boa parte da população. Mais que um gesto fundado apenas na fé, a decisão dos bispos brasileiros funda-se na fidelidade àquele que, crucificado, entregou seu sangue para que outros, seus contemporâneos e pósteros, pudessem tê-lo percorrendo suas vias e artérias.

 
 
 

Oportunas e fundamentadas, as advertências do cientista Philip Fearnside (do INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), publicadas em A Crítica, edição de 18/19 deste mês, têm que ser observadas pelas autoridades de toda a Região. O integrante do grupo de cientistas premiados com o Nobel da Paz (2007) acumula vasta e profunda experiência como pesquisador e jamais se negou a pôr a nu a realidade de levar às autoridades suas posições. Nenhuma delas embalada por interesse pessoal ou vínculo ideológico. Além de produzir conhecimento sobre a região e os que a habitam, Fearnside não se descuida dos riscos que a Amazônia sempre correu e ainda corre. Por isso, ele não vê com bons olhos a pretensão de reconstruir a BR-319, sobretudo pelas alternativas viáveis, onde a rede fluvial se revela propícia ao transporte de bens e pessoas. Isso, ele acentua, já foi reconhecido por parte do empresariado local ou dos que mantêm negócios produtivos, mesmo no Polo Industrial de Manaus. O cientista do INPA não foge ao tratamento dos problemas da mineração, opondo-se fortemente à simples legalização da atividade, como se se tratasse apenas de um problema jurídico. Especificamente quanto à pretendida exploração do potássio e seu aproveitamento industrial, Philip Fearnside resume a questão a um comentário que parece não frequentar a cabeça dos que têm discutido o tema. Diz ele: "a mineração não é o caminho para o Amazonas se desenvolver. Primeiro, porque tem essa maldição dos recursos naturais (como fonte inesgotável) e porque tem muitos impactos ambientais. O cientista foi além, informando ser a mesma empresa canadense que constrói a hidrelétrica de Belo Suan, no Pará, fazendo uma enorme catástrofe - diz Philip na entrevista. A tragédia dos Yanomami também foi tratada na entrevista, dando a oportunidade de o entrevistado aplaudir as primeiras medidas tomadas pelo governo, como as ações do IBAMA e outros órgãos ligados às questões ambientais e(infelizmente) o vêm revelando. Se desejássemos resumir as sempre ponderadas e firmes considerações do cientista do INPA, poderíamos dizer que representam um alerta. Mais que isso, um apelo a que os responsáveis pelos setores oficiais ou não dedicados às questões da Amazônia tratem de estudar a região, compreender suas peculiaridades e sua riqueza, sem perder de vista quanto essas riquezas informam o conceito de maldição dos recursos naturais. Ou seja, porque a Amazônia é rica e diversa, ela desperta todo tipo de cobiça e se vê constantemente ameaçada. Mais que todos, os Yanomami e nossos irmãos de outras etnias sofrem permanente ameaças, não faltando brasileiros alheios a essa realidade. Convoquemos Philip Fearnside e muitos outros de seus colegas da academia (INPA, UEA, FIOCRUZ, UFAM etc.), sempre que quisermos falar ou saber da Amazônia - como ela é, o que dela podemos extrair, sem atentar contra os direitos das populações que a habitam nos lugares mais remotos. Também o que desejamos que ela seja.

 
 
 

Luís Inácio Lula da Silva conhece mais do que todos os brasileiros as nossas elites. Tal conhecimento resulta da riqueza que tem sido sua vida, desde menino. O resto, a boa e interessada leitura de livros e o exercício de dois mandatos presidenciais acrescentaram. Um dos milhões de nordestinos afetados pela seca transformada em boa fonte do enriquecimento de poucos, o menino Luis Inácio pode ver e viver no Estado mais rico do País em uma de suas fases mais produtivas. Sua percepção ganhou em acurácia, quando foi feito líder de uma das categorias profissionais mais ligadas ao desenvolvimento industrial, os metalúrgicos. Nessa etapa de sua vida, o fugitivo da seca não fez outra coisa, se não buscar a inserção de seus liderados no processo capitalista em plena expansão. Não foram poucas as oportunidades de, face-a-face com os grandes capitães da indústria, observar-lhes os costumes, os valores, as práticas e os sonhos. O migrante nordestino acabou concluindo que sem um partido político sua vida perderia o alcance que seus sonhos projetavam. Entregou-se, então, à tarefa de construir o Partido dos Trabalhadores. Depois, passando à atividade parlamentar, pode constatar in loco o provérbio popular uma (e algumas outras, acrescento) andorinha sozinha não faz o verão. Era preciso mais. Por três vezes postulou o posto de Chefe do Poder Executivo. Em todas elas foi derrotado, sem perder as esperanças, nem abandonar os compromissos que alimentam até hoje as utopias que ele sabe - mais que ninguém - realizáveis. No meio, a perseguição dos beleguins da ditadura, o impedimento de chorar a morte de um irmão e um neto e, ocasionalmente, prisões e detenções. Tudo, pela tentativa persistente de inserir o País que o forçou a abandonar o torrão natal dentre as mais importantes nações do Planeta. Fez-se Presidente por duas vezes, quando o Brasil conquistou corações e mentes em todos os continentes. Projetou a imagem do País como antes nenhum dos seus antecessores o fez. As nações mais avançadas fizeram-no acumular títulos acadêmicos - logo ele, cujo diploma escolar é apenas o que lhe conferiu o SENAI. Um operário no poder. Isso, porém, não lhe bastava. Até que a pedra apareceu em seu caminho, envolta no papel da maldade, da desonestidade e do propósito de tirá-lo de nova disputa presidencial. Posto na cadeia ao arrepio de todo o ordenamento jurídico e institucional do País, recusou-se a desfrutar da liberdade. Ao seu feitio, era preciso provar-se inocente, não fugir ao confronto com as elites que conhece tão bem, e a cada dia conhece mais. Sessenta milhões de seus compatriotas levaram-no de novo à posição de Chefe do Poder Executivo. A resposta às tentativas de impedir sua chegada triunfal ao Planalto, em 2022, mais a de 8 de janeiro de 2023, quando lá já se havia instalado, dão a medida de sua tenacidade e do compromisso quase missionário que tem alimentado sua vida. Mesmo se para isso é forçado a arrombar portas, como nenhum de seus antecessores fizera. Se desejam o capitalismo, como ele mesmo, que o tornem, pelo menos, coisa de gente honesta. Nem que para isso tenham que ser arrombadas portas, desafiados preconceitos, vencido o medo. É isso o que ele está fazendo, como o revelam suas considerações sobre a soberania do Banco Central, mecanismo até agora usado como aparelho gestor a serviço das elites, financeiras especialmente. As mesmas que, encurtando a lua--de--mel de cem dias concedida a qualquer outro Presidente, aqui e alhures, tentam engodar e engabelar, por eles mesmos ou por seus porta-vozes, os beneficiários das medidas que Lula temperou e pôs no forno. O aumento do salário mínimo, a partir de abril ou maio e anualmente maior que a inflação, depois; a majoração dos valores das bolsas para pesquisa; o reajuste gradativo dos vencimentos dos servidores públicos, até alcançarem as perdas de quase uma década; o desarmamento da população e o desmonte das milícias que infernizam a vida dos mais pobres; a repressão dos genocidas que pretendem eliminar os povos indígenas; o combate ao tráfico de drogas; enfim - a reposição do Brasil no lugar que a comunidade internacional lhe reservou. Lula sabe que está arrombando portas. Sua arma é seu amor ao povo brasileiro e o sentido de que o medo será vencido pela esperança. Pois os endinheirados, seja qual for a forma com amealharam riqueza, sabem que a reforma tributária responderá pela exequibilidade de tudo quanto foi prometido e virá, até que 2026 chegue ao final. Coragem e discernimento não têm faltado ao Tripresidente. Os números relacionados a como seu atual governo é visto acompanham os ventos que tornam airosa a trajetória de Lula. A reforma tributária, assim, será a bala de prata de sua gestão. Qual das lideranças da elite se oporá ao risco de desmoralização e descrédito, se negar apoio às medidas que - sem um tiro - revolucionarão o País? Qual deputado ou senador gostará de passar à História como carrasco de seus eleitores?


 
 
 
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