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Antes que seja tarde

Oportunas e fundamentadas, as advertências do cientista Philip Fearnside (do INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), publicadas em A Crítica, edição de 18/19 deste mês, têm que ser observadas pelas autoridades de toda a Região. O integrante do grupo de cientistas premiados com o Nobel da Paz (2007) acumula vasta e profunda experiência como pesquisador e jamais se negou a pôr a nu a realidade de levar às autoridades suas posições. Nenhuma delas embalada por interesse pessoal ou vínculo ideológico. Além de produzir conhecimento sobre a região e os que a habitam, Fearnside não se descuida dos riscos que a Amazônia sempre correu e ainda corre. Por isso, ele não vê com bons olhos a pretensão de reconstruir a BR-319, sobretudo pelas alternativas viáveis, onde a rede fluvial se revela propícia ao transporte de bens e pessoas. Isso, ele acentua, já foi reconhecido por parte do empresariado local ou dos que mantêm negócios produtivos, mesmo no Polo Industrial de Manaus. O cientista do INPA não foge ao tratamento dos problemas da mineração, opondo-se fortemente à simples legalização da atividade, como se se tratasse apenas de um problema jurídico. Especificamente quanto à pretendida exploração do potássio e seu aproveitamento industrial, Philip Fearnside resume a questão a um comentário que parece não frequentar a cabeça dos que têm discutido o tema. Diz ele: "a mineração não é o caminho para o Amazonas se desenvolver. Primeiro, porque tem essa maldição dos recursos naturais (como fonte inesgotável) e porque tem muitos impactos ambientais. O cientista foi além, informando ser a mesma empresa canadense que constrói a hidrelétrica de Belo Suan, no Pará, fazendo uma enorme catástrofe - diz Philip na entrevista. A tragédia dos Yanomami também foi tratada na entrevista, dando a oportunidade de o entrevistado aplaudir as primeiras medidas tomadas pelo governo, como as ações do IBAMA e outros órgãos ligados às questões ambientais e(infelizmente) o vêm revelando. Se desejássemos resumir as sempre ponderadas e firmes considerações do cientista do INPA, poderíamos dizer que representam um alerta. Mais que isso, um apelo a que os responsáveis pelos setores oficiais ou não dedicados às questões da Amazônia tratem de estudar a região, compreender suas peculiaridades e sua riqueza, sem perder de vista quanto essas riquezas informam o conceito de maldição dos recursos naturais. Ou seja, porque a Amazônia é rica e diversa, ela desperta todo tipo de cobiça e se vê constantemente ameaçada. Mais que todos, os Yanomami e nossos irmãos de outras etnias sofrem permanente ameaças, não faltando brasileiros alheios a essa realidade. Convoquemos Philip Fearnside e muitos outros de seus colegas da academia (INPA, UEA, FIOCRUZ, UFAM etc.), sempre que quisermos falar ou saber da Amazônia - como ela é, o que dela podemos extrair, sem atentar contra os direitos das populações que a habitam nos lugares mais remotos. Também o que desejamos que ela seja.

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