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Arrombando portas

Luís Inácio Lula da Silva conhece mais do que todos os brasileiros as nossas elites. Tal conhecimento resulta da riqueza que tem sido sua vida, desde menino. O resto, a boa e interessada leitura de livros e o exercício de dois mandatos presidenciais acrescentaram. Um dos milhões de nordestinos afetados pela seca transformada em boa fonte do enriquecimento de poucos, o menino Luis Inácio pode ver e viver no Estado mais rico do País em uma de suas fases mais produtivas. Sua percepção ganhou em acurácia, quando foi feito líder de uma das categorias profissionais mais ligadas ao desenvolvimento industrial, os metalúrgicos. Nessa etapa de sua vida, o fugitivo da seca não fez outra coisa, se não buscar a inserção de seus liderados no processo capitalista em plena expansão. Não foram poucas as oportunidades de, face-a-face com os grandes capitães da indústria, observar-lhes os costumes, os valores, as práticas e os sonhos. O migrante nordestino acabou concluindo que sem um partido político sua vida perderia o alcance que seus sonhos projetavam. Entregou-se, então, à tarefa de construir o Partido dos Trabalhadores. Depois, passando à atividade parlamentar, pode constatar in loco o provérbio popular uma (e algumas outras, acrescento) andorinha sozinha não faz o verão. Era preciso mais. Por três vezes postulou o posto de Chefe do Poder Executivo. Em todas elas foi derrotado, sem perder as esperanças, nem abandonar os compromissos que alimentam até hoje as utopias que ele sabe - mais que ninguém - realizáveis. No meio, a perseguição dos beleguins da ditadura, o impedimento de chorar a morte de um irmão e um neto e, ocasionalmente, prisões e detenções. Tudo, pela tentativa persistente de inserir o País que o forçou a abandonar o torrão natal dentre as mais importantes nações do Planeta. Fez-se Presidente por duas vezes, quando o Brasil conquistou corações e mentes em todos os continentes. Projetou a imagem do País como antes nenhum dos seus antecessores o fez. As nações mais avançadas fizeram-no acumular títulos acadêmicos - logo ele, cujo diploma escolar é apenas o que lhe conferiu o SENAI. Um operário no poder. Isso, porém, não lhe bastava. Até que a pedra apareceu em seu caminho, envolta no papel da maldade, da desonestidade e do propósito de tirá-lo de nova disputa presidencial. Posto na cadeia ao arrepio de todo o ordenamento jurídico e institucional do País, recusou-se a desfrutar da liberdade. Ao seu feitio, era preciso provar-se inocente, não fugir ao confronto com as elites que conhece tão bem, e a cada dia conhece mais. Sessenta milhões de seus compatriotas levaram-no de novo à posição de Chefe do Poder Executivo. A resposta às tentativas de impedir sua chegada triunfal ao Planalto, em 2022, mais a de 8 de janeiro de 2023, quando lá já se havia instalado, dão a medida de sua tenacidade e do compromisso quase missionário que tem alimentado sua vida. Mesmo se para isso é forçado a arrombar portas, como nenhum de seus antecessores fizera. Se desejam o capitalismo, como ele mesmo, que o tornem, pelo menos, coisa de gente honesta. Nem que para isso tenham que ser arrombadas portas, desafiados preconceitos, vencido o medo. É isso o que ele está fazendo, como o revelam suas considerações sobre a soberania do Banco Central, mecanismo até agora usado como aparelho gestor a serviço das elites, financeiras especialmente. As mesmas que, encurtando a lua--de--mel de cem dias concedida a qualquer outro Presidente, aqui e alhures, tentam engodar e engabelar, por eles mesmos ou por seus porta-vozes, os beneficiários das medidas que Lula temperou e pôs no forno. O aumento do salário mínimo, a partir de abril ou maio e anualmente maior que a inflação, depois; a majoração dos valores das bolsas para pesquisa; o reajuste gradativo dos vencimentos dos servidores públicos, até alcançarem as perdas de quase uma década; o desarmamento da população e o desmonte das milícias que infernizam a vida dos mais pobres; a repressão dos genocidas que pretendem eliminar os povos indígenas; o combate ao tráfico de drogas; enfim - a reposição do Brasil no lugar que a comunidade internacional lhe reservou. Lula sabe que está arrombando portas. Sua arma é seu amor ao povo brasileiro e o sentido de que o medo será vencido pela esperança. Pois os endinheirados, seja qual for a forma com amealharam riqueza, sabem que a reforma tributária responderá pela exequibilidade de tudo quanto foi prometido e virá, até que 2026 chegue ao final. Coragem e discernimento não têm faltado ao Tripresidente. Os números relacionados a como seu atual governo é visto acompanham os ventos que tornam airosa a trajetória de Lula. A reforma tributária, assim, será a bala de prata de sua gestão. Qual das lideranças da elite se oporá ao risco de desmoralização e descrédito, se negar apoio às medidas que - sem um tiro - revolucionarão o País? Qual deputado ou senador gostará de passar à História como carrasco de seus eleitores?


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