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O Mundo não acabará, quando conhecermos - as autoridades policiais e judiciárias, inclusive - o rol dos envolvidos nas falcatruas do aventureiro Daniel Vorcaro. Para não fugir ao hábito, os suspeitos se valem de chantagem conhecidíssima, sempre que vislumbram a hipótese de perder algo, mínimo que seja. Foi assim, quando a escravidão foi formalmente abolida. As elites encontraram um jeito de mantê-la, a Lei Áurea mandada às favas. Tanto, que ainda hoje os pretensos salvadores da pátria ainda admitem o trabalho do escravizado e dele se valem para enriquecer. Quando Getúlio Vargas decretou o salário mínimo, não foi diferente. Notável é constatar que a necessidade de contar com o suor alheio para fazer fortuna foi embalada numa expressão falsamente generosa e benemérita - a criação de empregos. Ou seja, a inversão da verdade. Diga-o a crescente substituição do homem nos postos de trabalho. Robôs e máquinas não têm sentimentos, nem lhes é peculiar a dignidade que só os seres humanos apresentam. Nem todos, mas a exceção sempre há de confirmar a regra. O mesmo aconteceu com a criação do FGTS. Ou seja, sempre que se apresenta alguma dificuldade, os que sempre ganham revelam sua perversidade intrínseca. E sem limites. Pois o anúncio de que Vorcaro porá a boca no trombone começa a incomodar e a desafinar os outros, instrumentos postos a serviço do Master e do seu mestre. Mais uma vez o mundo seguirá sua trajetória, tanto mais digna, quanto mais se desvendar a rede que manteve, até agora, o bom sono do banqueiro desbancado. Logo, logo, ele sentará o banco que, por mérito próprio lhe cabe - o banco dos réus. Que tenha farta e justa companhia. Haja bancos...! E o mundo terá adiado mais uma vez o seu fim,. A não ser que a bomba atômica em que Trump aposta chegue antes.

 
 
 

...o dia já vem raiando, meu bem/e eu tenho que ir embora. Esse é trecho da interessante letra de uma canção criada pelo mexicano Quirino Mendoza y Cortés, em 1882, e popularizada por seu compatrício Pedro Infante. Chama-se Cielito Lindo e se torna sugestiva, mais uma vez. Já não apenas cantando a despedida de um casal de enamorados, como tantas outras que conhecemos, neste país de tantos e belos ritmos e canções. O Trem das Onze, de Adoniran Barbosa trata da mesma desventura, a do abandono e da ausência. Agora, os brasileiros parecemos mais próximos de conhecer a hipocrisia condutora de nossa política. Tudo indica que o aventureiro Daniel Vorcaro, devidamente posto na prisão, onde se espera passe muitos anos mais, concluído o devido processo legal, dará nome aos bois, vacas e assemelhados com os quais se acumpliciou. Não ficarão de fora - espera-se - os que patrocinaram sua entrada nos caminhos da delinquência, estimularam suas atividades criminosas, tentaram ou conseguiam proteger seus sujos negócios, tanto quanto aqueles que dele receberam os benefícios ainda por apurar em toda a sua extensão. E valor, óbvio! No passado recente, ainda não se havia completado o juízo que acompanha a prática dos banqueiros (os verdadeiros e os presumidos), os únicos profissionais dos quais se dispensa um centavo próprio, para montar seu negócio. Quando a atividade depende das autoridades públicas, dos meios de comunicação e da cobertura parlamentar, esses usurários não medem esforços. De seus bem abarrotados cofres provém a dinheirama que leva os aventureiros à vida nababesca e perdulária, além de agressiva e marginal. Tudo aquilo que Deus, pátria e família, deveriam condenar e coibir. No entanto, o lema é aplicado no sentido inverso ao que pretende incutir na mente dos desavisados. Se as galinhas mencionadas por Teori Zavasky já não vêm em seguida a mais uma pena arrancada, nem mesmo os avestruzes são capazes de dar a dimensão dos crimes. Talvez pterodáctilos passem a ser vistos no Planalto e arredores que podem medir mais de 8.000km quadrados. Jurássicos, podem fazer das penitenciárias seu ambiente quase natural...

 
 
 

Marcelo Seráfico e José Alcimar*

 

  Nós pedimos com insistência: Não digam nunca: isso é natural!

Diante dos acontecimentos de cada dia. 

Numa época em que reina a confusão,

Em que corre sangue,

Em que se ordena a desordem, 

Em que o arbítrio tem força de lei, 

Em que a humanidade se desumaniza,  Não digam nunca: isso é natural! (Bertolt Brecht).

 

               Não é incomum que interpretações da realidade feitas a partir de perspectivas teóricas distintas, cheguem a conclusões muito semelhantes, sobretudo quando estamos diante de inteligências que se movem por caminhos dialéticos e pensam o mundo e suas contradições cientes de que a produção de conceitos jamais pode ser presidida pelo ideal positivista de reduplicação mecânica dos objetos, sejam estes oriundos do mundo objetivo das coisas, do mundo subjetivo dos indivíduos ou do mundo das relações sociais.   Um desses casos é o problema que levou as geniais inteligências de Karl Marx e Max Weber a entender a “gênese do capitalismo”, isto é, a explicação e compreensão do modo pelo qual se generalizaram as relações sociais de produção capitalistas e a ação social racional com relação ao fim de lucrar, respectivamente.   

               Pretendemos, aqui, chamar a atenção apenas para um aspecto das conclusões decorrentes da complexa interpretação proposta por esses intelectuais, aquele atinente ao que poderíamos qualificar como “extravio da ação consciente do indivíduo”, processo através do qual a racionalidade de toda a ação se desvia de qualquer sentido subjetivo e se converte em mera realização de um fim objetivo – a geração de lucros – alheio aos interesses e às possibilidades reais de o indivíduo se realizar nele. Hegel, guiado pela ideia de que a história é, em última instância, conduzida pelo espírito absoluto, e que razão e revolução inerentemente se implicam – o que concorreria para levar a humanidade ao patamar de uma sociedade civil forjada pela eticidade do Estado – jamais imaginaria que sob as relações sociais capitalistas é a contrarrevolução que passa a definir a teleologia da razão. Por vias distintas, Marx e Weber mostram que o espírito absoluto da racionalidade hegeliana foi devidamente enjaulado pela ordem da razão instrumental e pela burocracia produzidas pelo sistema do capital.           

               A partir de diferentes modos de objetivação da produção capitalista Marx e Weber jogam luzes, críticas e dialéticas, sobre a dominação (objetiva e subjetiva) inaugurada pela racionalidade do valor de troca. Assim é que Marx falava da alienação dos indivíduos como um processo de duplo sentido, material e espiritual. Para ele, a exploração cujo resultado era a apropriação pelos proprietários dos meios de produção da mais-valia produzida pelos trabalhadores, tinha como contraponto uma falsa consciência dos explorados sobre as causas de sua condição social. Privados dos meios para a reflexão crítica e bombardeados pela ideologia da classe dominante, os trabalhadores não podiam entender racionalmente as relações sociais que produziam o mundo em que viviam e a particularidade de sua própria condição nele. 

               Isso que para Marx aparece como alienação, em Weber é visto como racionalização, como uma lógica de organização da vida social encerrada na métrica da eficiência atrelada a um fim. Quando o sentido da ação social, isto é, da ação de uns indivíduos em relação aos outros, se guia pelo fim da lucratividade, que é o que predomina nas sociedades capitalistas, um mesmo "espírito" guia todos, convertendo todos em capitalistas, ainda que poucos sejam os proprietários dos meios de produção. Esse espírito se converte em uma jaula de ferro! expressão do próprio Weber. Os indivíduos e grupos vivem e organizam suas vidas de acordo com uma lógica formalmente adequada ao fim da economia capitalista, de acordo com a dinâmica da oferta e da procura no mercado, mas substantivamente desconectada dos outros fins norteadores de nossa ação. 

               Daí que, das duas uma, modifica-se o fim econômico ou modificam-se os fins das outras esferas da vida (afetiva, religiosa, acadêmica, artística etc.). A opção B predomina... e se revela inadequada, como revelam todos, absolutamente todos os indicadores que se queira considerar, para promover uma sociedade assentada nos ideais burgueses da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Weber chamou de burocracia ao tipo de dominação típico das relações sociais capitalistas.  

               Ocupados de decifrar as vias pelas quais da revolução seria parida uma nova ordem, Lenin e Trotsky tinham plena consciência de que a dominação burocrática não era um fenômeno estritamente capitalista. Com suas hierarquias, formas de distribuição de status e poder, portanto, a burocracia, juntamente com a propriedade feudal, era um entrave a qualquer projeto de democratização e de socialismo democrático.

               Daí se porem o problema de como organizar democraticamente uma sociedade pós-revolucionária que herdara um Estado constituído em bases feudais. Passado o período revolucionário, Stálin deu as cartas e burocratizou o partido por dentro do Estado. Quando Orwell escreveu 1984, fez uma crítica à burocracia que serve, até hoje, como referência para pensar o socialismo real e o capitalismo real, quisesse ele ou não. Cabe perguntar: mantida a dominação burocrática é possível vivermos numa sociedade democrática? É possível fazer com que a burocracia aja com fins democráticos? Como? É possível haver democracia em sociedades capitalistas? É possível haver democracia em sociedades socialistas, tais quais as conhecemos?   

               Quando autores dos séculos XVIII e XIX falavam de socialismo, faziam-no pensando em mudar as formas de dominação e exploração do trabalho; uma mudança que incluía a vida material e espiritual dos indivíduos, considerando as conquistas passadas. Ou seja, como a nova sociedade, a síntese entre o passado e o presente poderia ser traduzida num futuro que rompia com as travas à existência de uma sociedade igualitária, livre e fraterna?  

               Esse problema permanece, mas ainda não fomos capazes de, entendendo o passado e o presente, semear o futuro. Continuamos a nos guiar por métodos anacrônicos. Mas se temos clareza do problema, já temos meio caminho andado para a resposta. O hábito, segundo Hegel, é um agir sem oposição. Presos à jaula de ferro da crítica weberiana, submetidos à vida calculada e ao poder abrangente da burocracia, os indivíduos tendem a naturalizar a dominação e sucumbir à ordem do existente. Não haverá saída da jaula weberiana sem o método marxiano da luta de classes. O risco de não dar materialidade à resposta que nos cabe pensar e organizar é o de não haver mais tempo. Afinal, que futuro espreita pessoas adoecidas, entorpecidas, cansadas ou mortas?   

 

* Professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Em Manaus, AM, março de 2026.   

 
 
 
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