Capitalismo, socialismo e burocracia: é possível romper a jaula de ferro sem o método da luta de classes?
- Professor Seráfico

- há 5 horas
- 4 min de leitura
Marcelo Seráfico e José Alcimar*
Nós pedimos com insistência: Não digam nunca: isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia.
Numa época em que reina a confusão,
Em que corre sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbítrio tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza, Não digam nunca: isso é natural! (Bertolt Brecht).
Não é incomum que interpretações da realidade feitas a partir de perspectivas teóricas distintas, cheguem a conclusões muito semelhantes, sobretudo quando estamos diante de inteligências que se movem por caminhos dialéticos e pensam o mundo e suas contradições cientes de que a produção de conceitos jamais pode ser presidida pelo ideal positivista de reduplicação mecânica dos objetos, sejam estes oriundos do mundo objetivo das coisas, do mundo subjetivo dos indivíduos ou do mundo das relações sociais. Um desses casos é o problema que levou as geniais inteligências de Karl Marx e Max Weber a entender a “gênese do capitalismo”, isto é, a explicação e compreensão do modo pelo qual se generalizaram as relações sociais de produção capitalistas e a ação social racional com relação ao fim de lucrar, respectivamente.
Pretendemos, aqui, chamar a atenção apenas para um aspecto das conclusões decorrentes da complexa interpretação proposta por esses intelectuais, aquele atinente ao que poderíamos qualificar como “extravio da ação consciente do indivíduo”, processo através do qual a racionalidade de toda a ação se desvia de qualquer sentido subjetivo e se converte em mera realização de um fim objetivo – a geração de lucros – alheio aos interesses e às possibilidades reais de o indivíduo se realizar nele. Hegel, guiado pela ideia de que a história é, em última instância, conduzida pelo espírito absoluto, e que razão e revolução inerentemente se implicam – o que concorreria para levar a humanidade ao patamar de uma sociedade civil forjada pela eticidade do Estado – jamais imaginaria que sob as relações sociais capitalistas é a contrarrevolução que passa a definir a teleologia da razão. Por vias distintas, Marx e Weber mostram que o espírito absoluto da racionalidade hegeliana foi devidamente enjaulado pela ordem da razão instrumental e pela burocracia produzidas pelo sistema do capital.
A partir de diferentes modos de objetivação da produção capitalista Marx e Weber jogam luzes, críticas e dialéticas, sobre a dominação (objetiva e subjetiva) inaugurada pela racionalidade do valor de troca. Assim é que Marx falava da alienação dos indivíduos como um processo de duplo sentido, material e espiritual. Para ele, a exploração cujo resultado era a apropriação pelos proprietários dos meios de produção da mais-valia produzida pelos trabalhadores, tinha como contraponto uma falsa consciência dos explorados sobre as causas de sua condição social. Privados dos meios para a reflexão crítica e bombardeados pela ideologia da classe dominante, os trabalhadores não podiam entender racionalmente as relações sociais que produziam o mundo em que viviam e a particularidade de sua própria condição nele.
Isso que para Marx aparece como alienação, em Weber é visto como racionalização, como uma lógica de organização da vida social encerrada na métrica da eficiência atrelada a um fim. Quando o sentido da ação social, isto é, da ação de uns indivíduos em relação aos outros, se guia pelo fim da lucratividade, que é o que predomina nas sociedades capitalistas, um mesmo "espírito" guia todos, convertendo todos em capitalistas, ainda que poucos sejam os proprietários dos meios de produção. Esse espírito se converte em uma jaula de ferro! expressão do próprio Weber. Os indivíduos e grupos vivem e organizam suas vidas de acordo com uma lógica formalmente adequada ao fim da economia capitalista, de acordo com a dinâmica da oferta e da procura no mercado, mas substantivamente desconectada dos outros fins norteadores de nossa ação.
Daí que, das duas uma, modifica-se o fim econômico ou modificam-se os fins das outras esferas da vida (afetiva, religiosa, acadêmica, artística etc.). A opção B predomina... e se revela inadequada, como revelam todos, absolutamente todos os indicadores que se queira considerar, para promover uma sociedade assentada nos ideais burgueses da igualdade, da liberdade e da fraternidade. Weber chamou de burocracia ao tipo de dominação típico das relações sociais capitalistas.
Ocupados de decifrar as vias pelas quais da revolução seria parida uma nova ordem, Lenin e Trotsky tinham plena consciência de que a dominação burocrática não era um fenômeno estritamente capitalista. Com suas hierarquias, formas de distribuição de status e poder, portanto, a burocracia, juntamente com a propriedade feudal, era um entrave a qualquer projeto de democratização e de socialismo democrático.
Daí se porem o problema de como organizar democraticamente uma sociedade pós-revolucionária que herdara um Estado constituído em bases feudais. Passado o período revolucionário, Stálin deu as cartas e burocratizou o partido por dentro do Estado. Quando Orwell escreveu 1984, fez uma crítica à burocracia que serve, até hoje, como referência para pensar o socialismo real e o capitalismo real, quisesse ele ou não. Cabe perguntar: mantida a dominação burocrática é possível vivermos numa sociedade democrática? É possível fazer com que a burocracia aja com fins democráticos? Como? É possível haver democracia em sociedades capitalistas? É possível haver democracia em sociedades socialistas, tais quais as conhecemos?
Quando autores dos séculos XVIII e XIX falavam de socialismo, faziam-no pensando em mudar as formas de dominação e exploração do trabalho; uma mudança que incluía a vida material e espiritual dos indivíduos, considerando as conquistas passadas. Ou seja, como a nova sociedade, a síntese entre o passado e o presente poderia ser traduzida num futuro que rompia com as travas à existência de uma sociedade igualitária, livre e fraterna?
Esse problema permanece, mas ainda não fomos capazes de, entendendo o passado e o presente, semear o futuro. Continuamos a nos guiar por métodos anacrônicos. Mas se temos clareza do problema, já temos meio caminho andado para a resposta. O hábito, segundo Hegel, é um agir sem oposição. Presos à jaula de ferro da crítica weberiana, submetidos à vida calculada e ao poder abrangente da burocracia, os indivíduos tendem a naturalizar a dominação e sucumbir à ordem do existente. Não haverá saída da jaula weberiana sem o método marxiano da luta de classes. O risco de não dar materialidade à resposta que nos cabe pensar e organizar é o de não haver mais tempo. Afinal, que futuro espreita pessoas adoecidas, entorpecidas, cansadas ou mortas?
* Professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Em Manaus, AM, março de 2026.

Comentários