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Em tese, o corporativismo não é em si simples manifestação de más intenções. Como em quase todos os grupos humanos, a sensação do que os especialistas chamam pertencimento responde pela solidariedade que mantém a coesão e fortalece o grupo social. Uma igreja, uma força armada, instituições coletivas sempre apresentam algum grau de corporativismo. Resta avaliar, no entanto, qual o ponto até onde essa solidariedade pode ser eticamente defendida. Não está em jogo, portanto, o caráter gregário próprio aos sucessores do chimpanzé. Se somos capazes de admirar e louvar certas condutas dos outros animais, se protegem sua prole ou membros de seu grupo, quando se trata de apreciar a conduta humana, há fortes razões (e aqui a palavra parece a mais adequada) para admitir igual tratamento, se estamos tratando de seres humanos. Neste caso, à condição natural se somam outras condições, como se sabe pela pena de Hannah Arenddt. Porque ultrapassamos essa condição original e o cérebro e suas funções nos fazem diferentes (superiores, de fato?) aos de outras espécies, à razão deve ser dada a importância inevitável. Admitir restrições éticas ao comportamento de um cachorro, um gato ou um macaco seria. no mínimo, ridículo. Exigir do homem tais restrições, e impô-las a si mesmos - parece-me não apenas razoável, mas indispensável. Então, sempre que o corporativismo não atentar para essa - chamemos assim - peculiaridade, corremos o risco de assemelhar-nos aos outros seres vivos que chamamos inferiores. A reflexão me ocorre, ao saber que é grande (ainda bem!) a probabilidade de os oficiais superiores condenados pela tentativa de golpe militar serem destituídos de suas respectivas patentes. Prerrogativa e dever do STM, a decisão terá como consequência a decretação da morte ficta. Os condenados feitos presidiários depois do devido processo legal, perderão a patente, mas suas sucessoras terão direito a receber os proventos dos falsos mortos. Herdeiras de zumbis. Enquanto essa manifestação de corporativismo malsão viger, pouco será o avanço de nossa sempre ameaçada democracia.

 
 
 

Dentre os muitos itens e assuntos que entretêm a elite em suas horas de ócio improdutivo, a gastronomia tem lugar garantido. Aos atuais chefs (chamá-los cozinheiros soa a ofensa), atribuem-se qualidades muito além da tatuagem e da aparência de mágicos capazes de inventar uma poção da imortalidade. Graças a isso, esses novos feiticeiros amealham fortuna e concedem a honra de trocar palavras com alguns dos comensais que os prestigiam. Enquanto nas melhores casas de repasto ingredientes amazônicos e de outras origens, estrangeiros às vezes, são incluídos nas receitas, ornamentais em relação aos cardápios (que os neofeiticeiros preferem chamar menus, dito com biquinho e tudo), há outras cozinhas em operação. Sem que, por isso, se estabeleça qualquer competição, ou concorrência, expressão mais adequada, como adiante se verá. Nessas cozinhas, o cardápio a ninguém surpreende. Nem nas novidades que o fazem cuidadosamente construído, nem pelo sabor conhecido quando as iguarias (como são iguais!) conseguem chegar ao estômago do comensal. Outro ponto importante, nessas cozinhas sem fogões ou fornos tradicionais, é a exclusividade: todas dedicam-se à produção de pizza. Embora de marcas diferentes, porque nesse ponto o mercado é muito bem provido, o sabor é o mesmo. Os temperos quase nunca variam. Os rótulos, assim, exercem fundamental importância. Também há quase unanimidade na receita, pelo menos no que diz respeito aos ingredientes indispensáveis. Daí a sugestão de itens que se revelam essenciais a uma receita perfeita. Aqui, apenas uma rima, não uma solução. Os leitores acrescentem, segundo sua própria percepção e seu paladar, os ingredientes que acham mais saborosos. Eis a sugestão que nenhum chef teve a coragem de editar: dois (ou mais) patriotas que ostentem e reverenciem a bandeira dos Estados Unidos da América do Norte; dois (ou, ao gosto do confeccionista) políticos habituais no desvio de verbas; três (podem ser quatro ou cinco - ou, ainda, seis) magistrados, de instância que o chef preferir. Neste caso, o mix é problema exclusivo dele. Alguns policiais infiéis e avessos ao devido processo legal dão boa liga à mistura. O prato fica mais digerível, se enfeitado com meia dúzia de jornalistas favorecidos com presença em saraus com mulheres estrangeiras, às vezes no exterior. Os demais ingredientes também podem ter passado por bons

ventos, porque o espaço aéreo do exterior conserva melhor o produto. E o prato, afinal, continuará conservado. Ad aeternum. Pizza, por isso, é o alimento preferido dos conservadores.

 
 
 

Como toda instituição humana, não se espere ter um dia uma alta corte de Justiça constituída apenas por pessoas puras, cópias dos anjos em sua mais alta hierarquia. Por isso, podem chegar no STF luminares do saber jurídico, tanto quanto semi-alfabetizados em Justiça e Direito. Alguns, haveremos de reconhecer, ainda pensam que a lei é a única fonte de Direito. Os mesmos que admitem chamarem-se operadores do Direito. Não raros, dando ao conceito de operação o sentido de cirurgia. Vem daí a frequência com que criam, aplaudem e estimulam a criação de verdadeiros frankensteins. Não faltarão, também, os que se pensam isentos de seguir a legislação vigente, ignorantes do que se conceitua como um fora-da-Lei. Ainda agora, foi necessário esmiuçar as relações que poderemos chamar incestuosas, porque os pais de todas as partes envolvidas são os mesmos - a República e a Democracia. Pois os filhos destas, abrigados sob as asas do casal, empenham-se em tresloucada porfia, cada qual usando a sabedoria popular - como sempre, em prejuízo dos que deveriam ser os beneficiários: comida pouca, meu pirão primeiro. Judiciário, Legislativo e Executivo são esses filhos, pródigos todos os três na busca de benesses negadas ao resto da população. Eis que um dos membros do STF vê chegada a hora de exigir de seus pares a observância de princípios e conduta ética a eles subordinada. Outro, com experiência trazida dos ambientes onde se produzem leis e as põem em execução, acrescenta item essencial à própria dignidade do Judiciário. Os que, integrando esse poder, cometem delitos, mais que aos outros, deveria ser aplicada punição exemplar. Ou seja, Flávio Dino mexe num vespeiro, mas tudo indica que o ministro sabe do que trata. E com quem trata. Não se espere que a tarefa de Fachin (que pretende reintroduzir a Ética no Judiciário) e Dino alcancem a unanimidade dos aplausos. Nem que a banda podre dos meios de comunicação (ou alguém duvida de sua existência?) cesse de procurar os defeitos e vícios que um dos dois ou algum de seus colegas poderá ostentar. Quem não tem virtudes, busca sempre lançar sobre os ombros de terceiros seus próprios vícios. Quando surge alguém diferente, eventual e não costumeiro delinquente, logo será condenado à fogueira. Não acreditar em brujas pode ser sábio, mas que elas existem, nosso cotidiano deixa ver com clareza.

 
 
 
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