top of page

Por maior que seja a indulgência, é impossível admitir distância entre o diálogo do zero-hum-à-esquerda e Daniel Vorcaro e o pálido e desenxabido desmentido do senador do PL. Já não pesaria sobre o futuro ex-candidato à Presidência apenas seu currículum vitae, que qualquer policial teria como suspeito. Coisa, aliás, também impossível de ignorar. Seria tarefa das mais fáceis relacionar os atos praticados ao longo de suas vidas e o ambiente que catapultou vários dos membros de sua família a uma posição de destaque. Sim, o frustrado pre-candidato chega a um ponto imprevisto apenas pelos que se mantêm absolutamente desligados do cotidiano. Brasileiro e, em especial, das atividades e negócios da famiglia. Os círculos que cercam pai e filhos não serviriam para obter um pequeno empréstimo bancário, menos, ainda, dizer da (falta de)lisura com que todos eles agem. Não sendo isso passível de marcar o DNA de qualquer pessoa, no caso deles tem enorme probabilidade de contaminar o caldo da cultura em que vieram ao mundo, cresceram e prosperaram. Financeira e economicamente, e só nisso. Milicianos, mandantes de assassinatos, agressores de mulheres, estupradores, assassinos de aluguel e outros tipos repulsivos parecem constituir o entorno desse grupo familiar, e não é de hoje. Quem lembra da patética reunião presidida pelo Presidente da República, em 22 de abril de 2019 não tem o direito de mostrar-se surpreendido. Menos, ainda, os que acompanham a vida de famiglia cujo chefe escapou da prisão por leniência e cumplicidade de seus camaradas, todos empenhados em provocar o retrocesso, afinal experimentado no período 2020-2023. Como escrevi, recentemente, em livro intitulado Há Poesia em Tudo, o título se vê confirmado. A rima para Vorcaro consuma, resume e ratifica o nome do livro. Mesmo nas coisas mais sujas e abjetas podemos encontrar um quê de poético. Talvez alguns acrescentem: de mau e nauseabundo gosto.

 
 
 

Melhor dizem os números oficiais, do que poderiam dizer os observadores mais isentos e indignados. Manaus, a capital do PIM, ostenta posição escandalosa, quando se trata da desigualdade. Periodicamente, os resultados da criminosa acumulação de riqueza são divulgados, daí o motivo para o júbilo e as comemorações dos beneficiários das vantagens auferidas. Ao mesmo tempo, divulgam-se informações sobre o endividamento das famílias, igualmente apuradas por órgãos oficiais. Chega ao absurdo de 84% a quantidade de famílias residentes no Estado incapazes de satisfazer a voracidade usurária dos credores. Para os que têm olhos de ver, nada que surpreenda. Além das redes e sítios da internet, outras formas de oferecer produto tão farto quanto nocivo vêm sendo usadas para aumentar a velocidade e o montante dos lucros retidos em pequeníssimo percentual dos que os obtêm. Dentre esses inovadores meios de oferecer dinheiro, destacam-se volantes distribuídos em locais públicos e cartazes afixados em muros, paredes e postes, em lugares estratégicos da cidade. Torna-se, então, transparente a situação produtora dos dois fenômenos - a criminosa distribuição da riqueza e o endividamento das famílias. Verifica-se, sem a necessidade de sofisticar as análises, quanto dinheiro é detido em tão poucas mais, enquanto a falta dele, em 84% das famílias. Nunca será demais lembrar, uma contradição ao dogma da mais férrea lei do sistema capitalista. Nesse caso, a abundância do dinheiro ofertado não impede a prática da mais abjeta e desumana exploração de que são vítimas os que exaurem suas forças no processo que produz a riqueza. Se é justificada a indignação dos cidadãos de bem, o único benefício que eles obtêm é permitir que também se identifiquem os verdadeiros inimigos da zona franca de Manaus. Sem exercícios de malabarismo mental ou sofisticados - e falsos - raciocínios.


 
 
 

Longe de mim a intenção de impor a outrem os mesmos critérios de escolha. Deixasse-me tentar por isso, não poderia responder a um dos meus inquiridores, em 1964, da forma como o fiz. Depois de algumas perguntas sobre meus laços de amizade com pessoas odiadas pelos golpistas, calmo como jamais imaginaria possível, respondi: coronel, meus amigos, quem escolhe sou eu. Parece que o inquisidor me testava. Assim entendi a mudança no rumo do interrogatório. Agora, as relações de amizade (quem sabe, de identidade ideológica) de um magistrado leva-o a incluir no rol de seus convidados, pessoas investigadas, denunciadas, julgadas e, concluído o devido processo legal, condenadas. Impossível não comparar as duas situações. Os amigos que o maior beneficiário do golpe militar-empresarial queria ver traídos, com os convidados a assistir à posse na Presidência do TSE. Neste caso, o critério não é nocivo e ofensivo, apenas porque um dos beneficiários do convite cumpre pena resultante do caráter delituoso de atos praticados pelo que o órgão integrado pelo magistrado chamou organização criminosa. Sendo outros os crimes do segundo, ambos os convivas da preferência do novo Presidente do TSE têm um ponto em comum: foram submetidos ao devido processo legal. Algo muito diferente de todos os que o militar queria excluir do meu rol de amigos. A gravidade do convite vai mais longe. Afronta o próprio Supremo Tribunal Federal, que condenou os deslustrados convidados.

 
 
 
bottom of page