top of page

Anuncia-se para breve a exibição do filme Anatomia do Caos. Da cineasta Dandara Ferreira, a obra cinematográfica será lançada dia 02 de julho próximo.  Depois,  o filme será projetado em telas de todos os estados brasileiros. São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza serão as primeiras cidades onde os espectadores reverão cenas do cotidiano dos brasileiros, originalmente visitados através das telas de televisão, enquanto a covid-19 dizimava suas vítimas, Estas, ao final da pandemia, contavam-se às centenas de milhares. Setecentas mil, nas contas finais, que alguns ainda dizem cifra sub-registrada! Novamente serão vistas cenas que poderiam ser chamadas de grotescas e realmente incríveis (no sentido de não merecerem uma só gota de crédito), porque criminosas e atentatórias à dignidade das pessoas. Veremos desde galhofa e desprezo pelos infectados, como reação quase comemorativa das mortes, enquanto caminhões-frigoríficos estacionavam à porta dos cemitérios, para deles ser tirada a trágica safra com que se divertiam os governantes do País. Certamente não faltarão menções ao desvio de oxigênio que viria para Manaus, cujo destino final acabou sendo o Amapá. Um equívoco no estabelecimento do plano de logística poderia ser alegado, não fosse obra de um especialista na matéria, empurrado para a primeira cadeira do Ministério da Saúde. Também é certo que a relação da pandemia com a prática de crimes contra o patrimônio público será mostrada, tantos os registros de ilícitos que o próprio governo central tratou de estimular. As proclamações em desfavor da Ciência e a quase imposição do uso de medicamentos absolutamente inócuos também voltarão aos olhos e ouvidos dos brasileiros, ainda que não se imagine ver tudo quanto de assombroso e indigno foi praticado no Brasil, naquele momento de tanta dor. Seria necessário um filme de duração demasiado longa, se tal fosse o objetivo dos que o dirigiram e produziram. De qualquer maneira, esse aparente recuo no tempo pode repercutir muito na mente e no coração dos brasileiros. Pelo menos, dos brasileiros bem-intencionados. Para isso podem servir as eleições periódicas, desde que a Vida humana seja valorizada e a ignorância não gere a brutalidade tão comum naquele período de nossa História.

 
 
 

A patética situação a que chegou Ciro Gomes fez-me lembrar a bem-sucedida peça teatral Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá. Do dramaturgo

Fernando Mello, foi encenada pela primeira vez em 1973. Em 1974, Raul Cortez, Eduardo Moscovis e Arlette Salles foram dirigidos por Wolff Maia. No palco, era contada a história de Pedro, enfermeiro deslumbrado com a atriz sueca. A tal ponto, que tentou imitar a vida daquela estrela. Até que encontrou Renato e levou-o para casa. Estabeleceu-se, então, uma relação afetiva entre os dois. O que não impediu Renato de apaixonar-se por Mary, uma prostituta frequentadora dos prostíbulos daquele bairro do Rio de Janeiro. Volto a Ciro Gomes, ex-ministro no primeiro governo Lula (2003-2005). Membro do Conselhão - Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, testemunhei a firmeza e a segurança com que o ex-governador do Ceará discorria sobre a realidade brasileira. Sempre dispondo de números e de informações atualizadas, Ciro revelava-se como uma promissora liderança política, transbordando seu talento de Sobral e do estado nordestino. Não sei quando a vida do ex-ministro de Lula foi visitada pelo seu Renato. Sei, porém, que pouco a pouco o antigo aliado de Tasso Jereissati trocou o charme de Greta Garbo e o vínculo com Pedro pela boemia do subúrbio fluminense. Só sei que Ciro Gomes não desperta mais o interesse dos que pretendem dar rumos mais dignos a esta nação que espera por um projeto à altura do talento da ex-mulher de Roberto Rosselini. Rejeita, portanto, a vida periférica de Mary. E deplora a decadência política (só?) do antes respeitável paulista que se fez nordestino.




 
 
 

Se ainda não houvessem números suficientes para mostrar quanto o capitalismo é nocivo à sociedade humana, recentes registros estudados por cientistas japoneses suprem a suposta carência estatística. Mesmo sabendo-se quanto doenças adquiridas por causa do trabalho ocorrem em todos os países, o Japão parece mais afetado pelo fenômeno. As justificativas de ordem cultural, que atribuem o fenômeno ao amor ao trabalho, levando ao lá chamado karaoshi, não explicam tudo. Servem, porém, para acender a luz de alerta que deve preocupar todos os governantes, mundo afora. Do ponto de vista ideológico, nada influi nos graus de ocorrência do fenômeno, conhecido no Brasil como em todos os demais países. Até porque, em lugar nenhum do mundo as relações sociais fogem ao neoliberalismo, de que a China mostra a intenção de afastar-se. Em região onde o trabalho nos canaviais causa males e mortes em índices expressivos, de que Araçuí (MG) é o exemplo, chama-se a isso binole. Lá e cá, e em todos os continentes, a exploração do trabalho humano tem sido a marca mais visível dos valores fundamentais do capitalismo. Nada a surpreender, sempre que o egoísmo e a competição reinam soberanos. Mesmo – e até mais por isso - se a tecnologia vem anunciada da poupança do esforço dos trabalhadores, a consequência mais provável (a experiência assim o diz) é o desemprego. Se a introdução das inovações tecnológicas promove acumulação em escala excepcional, ela também gera novas e maiores necessidades no principal agente da produção – o trabalhador. No país onde o capitalismo mais avançou, é expressivo o número de pessoas que morrem à porta dos hospitais, apenas porque não têm como pagar os serviços negados pelo estado norte-americano. Pequenos avanços, como experimentados durante a gestão de Barack Obama, têm sido reduzidos ou eliminados. E nada indica que essa tendência será interrompida, pelo menos enquanto o soba atual permanecer no poder. Marx, se vivo fosse, enfrentaria problema de que só os filósofos (os quixotescos, também) têm consciência – previsões desagradáveis a quem as faz, sempre lhes trazem dores, quando se confirmam.

 
 
 
bottom of page