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Conheci Salinas, já adulto. Levou-me lá o amigo Antônio Jorge Abelém. Integrante da banca de advogados por ele patrocinada - Paes Loureiro, Ronaldo Barata, Leonildes Gomes da Silva e, menos assíduos, José Gorayeb e Gabriel Leal completavam o time. Acompanhei ao balneário um dos seres humanos mais generosos e cordatos que conheci. Quatro horas de ida, outras quatro de volta, depois de breve permanência na cidade. O lugar rival da ilha do Mosqueiro, alcançável em 1 hora pelos passageiros do navio Presidente Vargas, uma das embarcações da chamada frota branca. Para aquele pedaço da costa atlântica, iam as famílias mais abastadas da cidade, além de outras, bafejadas por favores oficiais e - quem sabe de que outros tipos - oportunidades de ganhar dinheiro. Mosqueiro enchia-se de gente da classe média e das famílias mais tradicionais de Belém. Assim acontecia, desde o início das férias escolares. Salinenses e mosqueirenses deixavam Belém quase às moscas. Poucos os que viajavam para outros estados ou países estrangeiros, sendo quase certo que a maioria deles ia de avião experimentar as maravilhas do Rio de Janeiro. A praia tão linda, cheia de luz, com suas sereias, a areia fina, o mar azul tão lindo que sorria para todos parecia acolher todas as gentes do Norte, já não mais a bordo de um Ita, como o celebrou Caymmi. Copacabana, princesinha do mar, reinava, sobretudo na imaginação dos paraenses. As informações que O Cruzeiro divulgava sobre o crime do tenente Bandeira e a curra praticada por Cássio Murilo e Ronaldo contra Ayda Cury não intimidavam os viajantes. Talvez porque a sofisticação da curra tenha-o transformado em crime corriqueiro, talvez porque aos homens armados se tenham dispensado terrível autoridade. David Nasser fazia a cabeça dos brasileiros. Todo período de férias escolares ensejava aos pequenos comerciantes da litorânea Salinópolis (que muito poucos chamavam assim) e da ilha, uma das mais conhecidas do arquipélago, a oportunidade escassa nos outros meses do ano. Agora, quase 20 anos, desde que visitei pela segunda vez a cidade atlanticana, vejo-a modernizada, esperançosa, sobretudo. Condomínios residenciais e hoteleiros, uns construídos e ocupados; outros, em febril atividade de operários, foram Salinas de reais oportunidades de ter no turismo grande fonte de recursos. Não é só isso, porém, que renova a esperança dos salinopolitanos Das fartas águas em cuja margem a cidade foi criada, há a promessa de novos ganhos. O pré-sal terá ali uma das plataformas de prospecção.

Chamou-me a atenção, à véspera de deixar Salinas, o conjunto de lojinhas posto à proximidade da praia do Atalaia. Chapéus e roupas artesanais trazem em sua maioria, o selo made in China.

 
 
 

Do alto do 11° andar, a vista pode lançar-se sobre o infinito que tem fim. Onde - quem o sabe? Ele, no entanto, está lá. A convidar os que o vêem, tirem ou não proveito de sua existência e de sua permanência, à contemplação inevitável. Sua grandeza sugere quase tudo quanto pode passar pela imaginação humana. Esta, sempre maior que o tamanho das águas contempladas. Aquelas que passam diante de nós e jamais voltam, como Heráclito lembrou. Mas também aquelas, empoçadas nas cidades ou contidas por limites claros e definidos. Como nos açudes e lagos. Nenhuma dessas capaz de trazer à mente do veranista, do navegador, do mergulhador ou do artista, as sensações experimentadas por Caymmi, que o fizeram dizer: o mar/quando quebra na praia/é bonito, é bonito...Pobres mortais, a que Clio e Calíope negam intimidade, escasseia o talento do sábio baiano. O que não impede os olhos postos no horizonte distante de verem o que a visão não alcança. Aquele sentimento simultâneo, mas não excludente, entre o deslumbramento e o pavor. Logo a arte feita de versos e sons remete à de Munch, registrada em tela e tinta, que O grito suscita. Enquanto as águas permitem conjeturar sobre a superfície líquida onde se esconde a vida de tantos seres conhecidos e desconhecidos; enquanto sobre elas trafegam grandes embarcações cheias de promessas e riscos; lá, onde os mergulhadores, cientistas e bombeiros resgatam vidas, recolhem alimentos, produzem Ciência, lá também se escondem os adamastores de que Camões se ocupou. Cá, o homem contempla o mar e faz dele a razão do mergulho dentro de si mesmo. À margem das águas, ele delas não se sente excluído. O benefício resultante de vê-las, como o quadro de Munch, a canção de Caymmi e o poema de Camões, não tem tamanho! Como o amor ..

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*Da varanda de um 11° andar, o editor contempla o Atlântico. Salinas, Pará. 21-06-2026.

 
 
 

Os conservadores devem esfregar as mãos, diante do inenarrável acontecimento. As investigações da Polícia Federal são o motivo do júbilo que os produtores e beneficiários da desigualdade experimentam. Quando se ia consolidando a quase inevitável reeleição de Lula, eis que explodem minas instaladas no espaço político do Presidente da República. Um caso típico de fogo amigo, capaz de forçar a busca do tão sonhado candidato alternativo às duas hipóteses postas na mesa do jogo eleitoral. Não que Lula desagrade a todos os que desejam conservar a desigualdade, tanto eles se têm beneficiado. Imaginar que a Faria Lima espouca champanhe e solta foguetes não é ir longe demais. A captura do estado pelos acumuladores de sempre tem poucas chances de ser substancialmente alterada, mas com Lula a velocidade da acumulação e a voracidade dos que só fazem acumular tornaram-se menores. Mais gente passou a consumir, é desprezível o índice de desemprego, a Polícia Federal voltou às suas funções de Estado. Ou seja, os requisitos de uma verdadeira democracia vêm sendo cumpridos. Isso, manda a História observar, desagrada aos acumuladores e aos que lhes prestam serviço. Está-se portanto, diante de outra oportunidade que bem poderia ser sintetizada pela imagem da letra Y. O caminho bifurca-se, seguindo a polarização tantas vezes mencionada, mas raramente entendida. Ou aproveitamos para reeleger Lula e dar a ele a oportunidade de avançar na redução da desigualdade ou as elites encontram seu delegado, quem sabe até dentro da turma que Vorcaro mantém ao seu redor. De resto, a certeza de que ao eleitor sempre caberá escolher entre o sonho e a cumplicidade. Colocar no Planalto seus próprios algozes e respectivos cúmplices, ou manter Lula e lhe oferecer a maioria parlamentar constitui o dilema. Que só aoeleitor cabe desfazer.

 
 
 
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