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Prevista para hoje, a conversa de Lula com Trump tem motivado especulações nem sempre razoáveis. Ou, no mínimo, fundadas mais no desejo dos comentaristas que nas circunstâncias. Por enquanto, grande número dos comentários concentra-se menos no conteúdo que na forma como os dois levarão reciprocamente suas reivindicações. Exemplo disso é a previsão de que a química azedará, quando Lula mencionar a Venezuela ou assumir explicitamente a defesa de Maduro. Não vi uma só linha sobre a hipótese de o tema ser tratado na generalidade. Nesse caso, o Presidente brasileiro lembraria a autodeterminação dos povos. Afinal, as agressões e ameaças de Trump têm sido dirigidas ao México, ao Canadá, ao Panamá, a Cuba, à Venezuela, ao Brasil e, mais recentemente, à Colômbia. Ora, é indiscutível o papel de liderança desempenhado pelo Brasil na América Latina. Por isso, a preferência de Lula pode muito bem levar em conta essa peculiaridade e adotar conduta e linguajar usuais no ambiente diplomático. A mesma coisa, em relação ao problema criado com a aplicação da Lei Magnistyc a autoridades brasileiras. Trata-se, mais uma vez, de exigir respeito à soberania dos países. As negociações sobre o tarifaço, comerciais em sua essência, se restringirão às quatro operações matemáticas. Nesse ponto particular, de um lado estará o defensor de uma nação soberana ou um líder continental; do outro, um homem de negócios, cuja liderança experimenta rápido declínio. Quase ninguém tem levado em conta que alguns dos produtos importados pelos Estados Unidos da América do Norte, estratégicos (as terras raras, por exemplo), são abundantes no Brasil. Resume-se ao poder bélico, portanto, o cacife de Trump. Nunca é demais lembrar que partiu de Washington a ordem para destruir Nagasaki e Hiroshima. Nem que é das melhores a imagem dos que passaram pelo Instituto Rio Branco.

 
 
 

Parece brincadeira, mas os parlamentares brasileiros esforçam-se por restaurar a sociedade do passado. Uma espécie dos tempos em que havia bruxas e fogueiras que as queimavam. Incapazes sequer de ver-se como produto do avanço civilizacional, deputados (e, quem sabe, senadores?) têm escassa compreensão do fenômeno político, realidade da qual tiram todo o proveito pessoal possível. Tenham o tamanho que tiverem as fortunas que muitos deles se empenham em conquistar. Seja qual for o custo social dessa conquista, medida em moeda, vidas humanas, hábitos, direitos e costumes. A pretensão de levar às ultimas consequências a existência de bancadas como as do boi, da Bíblia e da bala, desemboca no desejo de revogar a separação entre Estado e Igreja. Nossos aiatolás, desprovidos de informações fundamentais à compreensão do papel representativo que deveria fazer seu cotidiano,  operam em via anti-republicana, desprezando conquistas políticas e sociais seculares. Os patriotas de fancaria, mais que os outros, ao mesmo tempo em que clamam por ordem e determinam que bandido (qual?)bom é bandido morto, são os mesmos que trocam a palavra, na bandeira já substituída pela de outro estado soberano. Ordem e regresso, portanto, passa a ser o lema desses republicidas. O slogan que logo se verá proclamado em praça pública não pode ser outro: abaixo a república! 

 
 
 

Dentre os mais sábios ou lúcidos, comenta-se a importância da pergunta, mais que da resposta. As respostas, aparentemente mais difíceis, tornam-se supérfluas, inúteis, desprezíveis, se oferecidas a perguntas erradas. No mínimo, o esquecimento dessa peculiaridade acaba por comprometer o próprio juízo que se faz do objeto e de sua natureza. Pergunta que se impõe é trazida à baila, quando o Conselho de Ética da Câmara livra um colega e renuncia ao dever, mais que direito, de puni-lo. Nesse caso, a pergunta é: o que esperar de um grupo que propõe acobertar crimes atribuídos a seus integrantes, só não o fazendo por motivos nada elogiáveis? Ou seja, impossível imaginar que apoiadores da PEC da Bandidagem desmentiriam seu compromisso com os valores expressos nessa proposta, ao apreciar as denúncias contra um declarado traidor do País. Mais uma vez, corremos o risco de ver consagrada a impunidade de delinquentes, não pela inexistência de provas, mas pela abundância delas. Enfim, essa é a ética processada pela maioria dos parlamentares, sabedores antes de todos os demais brasileiros, do grau de comprometimento com atos ilícitos.

 
 
 
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