As ruas falam

O cronista João do Rio, cujo centenário de morte transcorre este ano, tem em A alma encantadora das ruas (Paris, Editora Garnier, 1908) sua mais conhecida obra. Nela encontramos retrato preciso da paisagem da então capital do País, no momento em que o Prefeito Passos seguia a trajetória praticada por Hausmann em Paris. Depois, às vezes até em concomitância, outras capitais de Estados brasileiros passavam por semelhante experiência. Em Manaus, Eduardo Ribeiro; em Belém, Antônio Lemos, tratavam de modernizar as cidades por eles administradas, os olhos postos na capital francesa. Pretendiam ter, abaixo da linha do equador, a Paris tropical. Em 1968, aqui mesmo, repetiu-se – como em quase todo o Mundo – a mobilização que tornou conhecido o ativista Daniel Cohn-Bandit, na capital e em outras cidades francesas. Da pátria que dividiu a História Universal, o movimento partiu e ganhou mundo. Nada precisa ser acrescentado quanto à repercussão daquele fenômeno sobre a História Contemporânea. As barricadas construídas pelos estudantes, logo depois ocupadas por todos os segmentos da população, sem exagero terão sido as sementes dos frutos que vêm sendo colhidos desde então. A partir dali, entendo ter-se revelado, além do encanto percebido por João Paulo Emílio Cristóvão (Alberto para alguns autores) dos Santos Coelho Barreto, esse o nome completo de João do Rio, a força das ruas. Hoje, e especialmente no Brasil, o vigor da sociedade e sua resistência à aventura autoritária voltam a manifestar-se. Crescente multidão tem comparecido às reuniões convocadas pelos resistentes, mais gente se espera continue a afluir aos locais em que se reúnem, uma versão atualizada da ágora grega. Cheguei ao ponto: à custa do sacrifício de mais de meio milhão de vidas, o Presidente deixará um legado positivo, do qual nunca nos deveremos afastar. Por sua omissão criminosa e sua ação nefasta, as ruas voltaram a ser o palco principal do cenário político. As ruas passam a ser o tabernáculo e os mortos a oferenda desnecessária à restauração da caminhada que nos levará à trilha democrática. Isso ficaremos devendo ao ex-capitão, seja qual for seu melancólico, patético e desejável destino. Sua exclusão do cenário político, por força de um impeachment ou derrota nas urnas, não trará de volta os mais de 500 mil seres humanos mortos por sua ação e omissão. Nem inaugura a dispensa de sua presença diante de alguma organização da sociedade, em especial as que tentam ressocializar os delinquentes. Tampouco diminuirá a dor e a saudade de tantos pais, mães, filhos, netos, sobrinhos, familiares e amigos das vítimas. Trará, contudo, a sensação de alívio aos que restaram, na esperança de que nenhum dos algozes será poupado da Justiça terrena. O encanto contido na alma das ruas dará nas ruas a resposta aos desalmados.

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