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Oportuna e educativa, é o mínimo que se poderá dizer a propósito da proposta do vereador Diego Afonso. O edil propõe a criação de um memorial público alusivo à covid-19, como ela chegou a Manaus e seus efeitos sobre a vida da população. Na capital do Amazonas registraram-se fatos da maior gravidade, de que se ocuparam, à época, quase todos órgãos de comunicação, aqui e alhures. Houve momento em que Manaus atraiu a atenção de todos, pela constatação da forma desumana com que a pandemia foi enfrentada. Desde a aquisição de equipamentos hospitalares em adegas, até o desvio de oxigênio necessário aos que agonizavam nos hospitais - muito mais foi testemunhado, sempre sob o gargalhar das hienas com aparência humana e o desprezo pela vida das pessoas. O memorial defendido e proposto pelo vereador, portanto, poderá constituir importante instrumento de educação, evitando que fatos semelhantes se repitam. Para tanto, basta colher e reunir tudo quanto foi noticiado e ilustrado naquele trágico período, quando a capital da zona franca foi considerada o epicentro da pandemia. A fila de caminhões frigoríficos, contendo cadáveres à espera de sepultamento, por exemplo, bem que poderia ser o símbolo do memorial, pelo impacto causado na opinião pública, e pelos traumas impostos aos familiares e amigos dos que sequer puderam despedir-se de seus mortos. Cenas como as que percorreram o País e o mundo, mostrando autoridades que zombavam da dor alheia e contribuiram, por ação ou omissão, por isso responsáveis pela morte de mais de 700.000 vítimas da pandemia, certamente constituirão parte do acervo do memorial. Lá, também, deverão estar, em programação devidamente organizada, estudantes de todas as escolas e todos os níveis de ensino, para que lhes fique na memória uma das mais importantes lições da democracia: cada um de nós tem um certo grau de culpa, eleitores que somos, sempre que pressionamos as teclas das urnas eletrônicas. No memorial estará, assim, mais que um local de visitação turística, um livro aberto de humanidade, cidadania e democracia.

 
 
 

Peça confeccionada em balata, mesmo material usado na confecção da imagem postada em 01 de fevereiro de 2020. Foi comprada do autor da outra e, como sua companheira, venceram-na o calor e a umidade. Restam, portanto, os frangalhos dos que expressavam o cavaleiro por ambas representado. Seu Montesinos terá sido a galeria do colecionador. Nem por isso foram tratados como despejo. Permanecem, cada qual dentro de seu túmulo, nestes tempos em que os valores e sonhos do cavaleiro da Mancha parecem fenecer.

 
 
 


A alma não campeia solitária na arte de poemar e o corpo se tornou fonte de inspiração para as mais profundas divagações do espírito poético.


As prisões que submetem o corpo à útil docilidade encontraram na poesia uma forma de fuga e resistência . Vigiar e punir para dominar não inspirou o poeta. Foi na beleza do ser que ele galgou montanhas e passeou entre jardins para expressar os movimentos que encantam.


"Teu corpo claro e perfeito,

– Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha...


Teu corpo é tudo o que cheira...

Rosa... flor de laranjeira..."


Nos presenteou Manuel Bandeira.


Mas o poeta também encontrou no corpo as palavras para sua fina ironia.


Quintana ironizou, brincou, filosofou...


"O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...

Nem mudar água pura em vinho tinto...

Milagre é acreditarem nisso tudo!"


O corpo está presente na história, nas imolações cruéis da opressão religiosa, nas modelagens das fábricas de montagem, no jugo misógino, mas a poesia foi sua redentora.


Drummond foi profundo e entrelaçou o corpo a alma.


"A metafísica do corpo se entremostra

nas imagens. A alma do corpo

modula em cada fragmento sua música

de esferas e de essências

além da simples carne e simples unhas.

Em cada silêncio do corpo identifica-se

a linha do sentido universal

que à forma breve e transitiva imprime

a solene marca dos deuses

e do sonho."


Cabelos, mãos, bocas, olhos, movimentos, o andar, a respiração, os mais sensíveis gestos de amor, o poeta observou e fez do corpo uma constelação inspiradora.


Escreveu Fernando Pessoa


"As tuas mãos terminam em segredo.

Os teus olhos são negros e macios

Cristo na cruz os teus seios (?) engulos

E o teu perfil princesa no degredo..."


E foi Arnaldo Antunes que perambulou pela breve anatomia do corpo.


"O corpo existe e pode ser pego.

É suficientemente opaco para que se possa vê-lo.

Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.

O corpo existe porque foi feito.

Por isso tem um buraco no meio.

O corpo existe, dado que exala cheiro.

E em cada extremidade existe um dedo.

O corpo se cortado espirra um líquido vermelho.

O corpo tem alguém como recheio."


E o corpo feminino deixou de ser objeto e a poesia o descobriu na sua plenitude, sem o desejo que vulgariza, apenas como valor de quem ama e pode ser amada.


Neruda:


"Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,

pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.

O meu corpo de camponês selvagem te escava

e faz com que do fundo salte o filho da terra."


O poeta libertou o corpo ao lhe dar alma, espírito e vida, sem a docilização amarga que pune e oprime.


O corpo se fez liberdade na poesia.


Lúcio Carril

Sociólogo.

 
 
 
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