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  Vitória Seráfico*


Muitas vezes, lamento ter nascido em 1943. Minha natureza remonta a um século antes. Sou consciente de que nasci atrasada. Eu gostaria de ter aberto os olhos pro mundo em 1843. Ou antes, até. Ter vivido na Belle Époque. Começada em Paris.

Não me tomem por snob. Não sou, nem poderia ser, até porque nasci em berço pobre, filha de pais pobres, e continuo pobre. Considerem-me, isto sim, uma pobre-besta; sou mesmo. Reconheço. Mas não posso negar o fascínio que coisas daquela época, daquele século exercem sobre mim. Também me sinto, às vezes, rococó. Adoro o estilo. E me dou este direito.

Minhas preferências pessoais, em quase tudo, me levam ao século XIX (e um pouco atrás). Nas artes em geral, incluindo pintura, arquitetura, moda, peças decorativas etc. Será isto complexo de museu? Quem sabe?

Os astrólogos diriam que sou assim porque sou canceriana. Chego a me achar uma canceriana-padrão. O fato é que gosto de passado. De História. De tradições. De coisas antigas.

  Porém, não me encaixo como pessoa saudosista. Não sou. Não costumo dizer “ah, a melhor época da vida é a infância!”. Minha infância foi muito feliz, mas acho que hoje é melhor que ontem, e amanhã será melhor que hoje. Sempre aposto no amanhã. É paradoxal, mas sou assim mesmo. Na infância, não temos consciência do que nos cerca. Adultos, maduros (ainda mais com oitentinha na costa), nos sentimos mais seguros pra levar o barco em frente... Deciframos melhor esta coisa chamada mundo. Com todos os seus encantos e desencantos. Sabemos o que queremos. E o que não desejamos – pra nós nem pros outros.

   Não tenho muita aptidão pra lidar com   máquinas, mas adoro apertar o botão, e ver a coisa acontecer. Nisso, sou moderníssima! 

O mundo avança, as pessoas mudam, os costumes se transformam, os valores são revistos, e assim devemos caminhar. Estagnação, jamais! 

Nesta revolução por que passamos a cada momento, neste turbilhão de mudanças, temos que admitir que nem tudo é totalmente positivo ou totalmente negativo. Se fizermos um paralelo entre o modo de viver de hoje, 2023, e de algumas décadas passadas, fica muito claro que tudo mudou. Em todos os aspectos. O mais surpreendente é que somos protagonistas, agentes dessas mudanças e, ao mesmo tempo, pacientes do processo. Mas nem sempre tomamos consciência disso.

Felizmente, entre o leque amplo dessas mudanças, umas chegaram para o bem de toda a Humanidade. Um bom exemplo é o avanço tecnológico que, por sua vez, ajuda a Medicina a dar passos mais largos, favorecendo estudos mais aprofundados e pesquisas mais precisas. Sem dúvida, traz a esperança de dias melhores pra todos nós. Principalmente, com a possibilidade de cura de muitas doenças.

Também graças à tecnologia, vem a facilidade e rapidez na comunicação entre as pessoas, além de outros inúmeros benefícios que nos são oferecidos. Não existe mais distância.

Tudo isso tem valor inestimável.

Porém, peço licença pra falar dos meus gostos pessoais. Lá vem o Século XIX! Lá vem rococó! Lá vem passado!

Gosto, sim, do que é contemporâneo, nas artes em geral. Música, Literatura, Arquitetura, Pintura e outras manifestações artísticas. Quando digo que tenho a cara de séculos passados, de forma alguma estou desprezando ou deixando de reconhecer o valor, a importância, a beleza deste século XX (ainda estamos no começo do XXI).

Quanto à Música, aprecio quase todos os gêneros. Todos os movimentos musicais. Tropicália, Jovem Guarda, anos 60 e outros.  Samba, fado, tango, tarantela, chorinho, seresta, carimbó, forró, enfim. Até porque gosto muito de cantar. E de dançar. Sou apaixonada pelos Beatles. Pra mim, são inigualáveis, incomparáveis, insubstituíveis. (Mas nunca morri de amores pelo Elvis Presley). Lembro-me bem, eu tinha 15 anos quando ele surgiu. Tenho algumas restrições à bossa-nova. Mas não ignoro a sua importância histórica, o contexto em que ela surgiu, o seu objetivo e, principalmente, os grandes compositores que, através das suas criações, clamavam por um país mais justo. Faziam tremular a bandeira da igualdade social. Como fato histórico, a bossa-nova merece os maiores louvores.

  Gosto também de Chopin, Bethoven e de outros clássicos.

Aos 12 anos, comecei a estudar piano, instrumento preferido pelos pais que queriam ver seus filhos envolvidos com música de qualidade. Hoje, piano, pra alguns, é coisa de velho. Digo isto com base no que vou contar: há algum tempo, aguardando o sinal abrir, aproxima-se de mim uma conhecida, e me pergunta:

- Vitória, sabes me dizer se o Carlos Gomes é gratuito?

- É sim; é Fundação estadual.

Então ela disse que iria matricular a filha, na época com 8 anos. Perguntei que instrumento a criança iria estudar. Entortando a boca, num gesto de profundo desdém, desprezo total, respondeu:

- imagina, quer piano!

- Ah, lindo! Que beleza!

E a mãezinha, decepcionada com a escolha da garota, falou:

- ah, não! Eu quero que ela aprenda guitarra.

Nem esperei o sinal abrir; atravessei assim mesmo. Não dava pra continuar a conversa. 

Quando o assunto é cinema, adoro cenário de salões, candelabros, valsas, mulheres de roupas longas, chapéus e luvas, homens de fraque, casaca etc.  Também gosto de filmes bíblicos, épicos etc, que retratem fatos históricos. Na infância, eu, José e a prima Irene assistíamos muito aos filmes da Atlântida, musicais maravilhosos, divertidos que – naquela época – estavam ao nível da nossa compreensão. Hoje, o cinema brasileiro é outra coisa, trata de assuntos mais sérios e mais direcionados aos problemas de nossa gente.

Na Pintura, reverencio os grandes nomes deste século (XX), como Portinari, Di Cavalcanti, Djanira, Tarsila do Amaral e outros, brasileiros ou não. Mas confesso que as telas de Renoir, Claude Monet, Louis Marie de Schryver e outros impressionistas falam mais diretamente à minha sensibilidade. Também gosto dos quadros de Jean Honorè  Fragonard e outros, estilo rococó. Afinal, obra-de-arte é pra ser sentida, não explicada. Com base nisso, faço uma confissão que pode deixar muita gente estarrecida: acho horrível a Monalisa! Ainda que alguém queira me dizer que o quadro representa isto ou aquilo, a técnica é genial e inovadora, tudo bem. Que Da Vinci foi um grande artista, não há dúvida. Mas repito: independente da técnica ou de outros fatores, obra-de-arte é pra ser sentida. A emoção estética que desperta no espectador é o que conta. Portanto ... 

Durante a nossa infância, morando de aluguel, papai sempre optava por casas grandes, amplas, que nos oferecessem conforto e bem-estar. E que estivessem ao alcance de seu bolso, claro. Embora tenham sido casas mais modestas, o fato é que sempre gostei de casarões, escadarias, gradis, sacadas, tetos e paredes trabalhados, em alto relevo, detalhes típicos de construções antigas e requintadas. Que, hoje, são até derrubadas, dando lugar a modernos edifícios. Um belíssimo exemplo é a escadaria da loja Paris N’América. Será que ainda existe?

Quando nos mudamos para o casarão da Avenida Nazaré, em 1964, tínhamos defronte o palacete residencial da família Moreli. Três andares. Lindo! A demolição daquela casa doía dentro de mim. Tanto quanto a de outros palacetes que havia em Belém. O Grande Hotel, entre eles. Hoje, o   espaço dos Moreli abriga um bonito e luxuoso prédio, o Santa Lúcia. Esteticamente, não se compara à beleza da edificação anterior. Felizmente, aproveitaram o portão e o lindo gradil que circundava a casa. 

Gosto imensamente deste estilo arquitetônico. Embora no Brasil haja muitos exemplares, inclusive em Belém, como os Palacetes Bolonha (trabalhei lá), Pinho, Faciola e outros, não posso esquecer tudo o que vi, do pouco que conheço da Europa. Paris, em especial. Eu, que gosto de asfalto e concreto, digo (numa crônica) que o turismo que me atrai é aquele que me deixa de cara pra cima.

Vi coisas maravilhosas (da arquitetura) em Portugal e em algumas cidades portuguesas – mosaicos inesquecíveis - em Madri, em Roma. Mas não posso negar que Paris é um espetáculo pros olhos. Estive por lá em 2007 e 2018. Tudo ali é arte, beleza, bom-gosto, requinte, luxo, enfim, coisas que encheram os olhos desta caipira made in Belém em 1943. Na verdade, nós, brasileiros, deveríamos nos envergonhar, constatando que o nosso rico e majestoso patrimônio arquitetônico é tão desvalorizado, tão abandonado.

Embora tenha estado por duas vezes na Capital francesa, ainda não me foi possível visitar o Museu do Louvre. Falta de oportunidade. Daí eu me sentir devedora desta visita. Caso satisfaça este desejo, sabe que ala escolherei? O Renascimento. O estilo também me agrada muito, tanto na Pintura como na Escultura. Quero ver de perto a Pietá e outras esculturas de Michelangelo. E dos outros grandes artistas do período. Também quero ver de perto a Monalisa - e, quem sabe, mudar de opinião?

O mesmo encanto me despertam peças decorativas de épocas passadas: vasos, bandejas, colunas, louças, biscuits, esculturas etc. Lindas de morrer! 

Agora, falemos de moda. Ah, as roupas do século XIX!...

Adoro minhas pantalonas, saias, calças legs, blusões, casacos, jeans etc. Mas, sinceramente, tiro o chapéu (ou ponho o chapéu) pros costureiros daquele tempo. Pano, muito pano! Adoro!

Durante a pandemia, pra disfarçar minha aflição, pesquisei e colecionei clichês da moda feminina Paris século XIX. Tenho um belo material a respeito.

Enfim, depois desta crônica, meus leitores vão chegar à seguinte conclusão: que Século XIX, que nada! A Vitória devia era ter nascido junto com o Raul Seixas: dez mil anos atrás!

 
 
 

José Ribamar Bessa Freire


Japus e rizomorfos
Japus e rizomorfos

aves e fios tecem

a vida na floresta. 

(Haikai de Joaquim Lopes e Noemia K. Ishikawa. 2024)

Carta aberta ao Japu “Fura Banana”

Niterói, 17 de março de 2025


Menino, nem te conto! Não vou mentir. Nunca te vi mais gordo, mas já simpatizo contigo. Te conheci há duas semanas, quando li a dissertação de mestrado do Joaquim da Silva Lopes sobre ninhos de aves da Amazônia defendida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Lá me deslumbrei com a foto do teu ninho, uma obra prima digna de figurar na Bienal de Veneza. Foi amor e leitura à primeira vista, o que me fez entrevistar o novo mestre sobre as aves e seus ninhos.

Aliás, uma dessas aves é o João-de-barba-grisalha, que conheço desde 2007. Da família do João-de-barro, ele constrói seus ninhos com “erva-de-passarinho” e esconde a entrada com gravetos para impedir que as cobras devorem os ovos e seus filhotes. O acesso é por um túnel. A arquitetura sofisticada lembra uma fogueira de São-João. Muito bonito, mas aqui pra nós, sem a exuberância do teu ninho. Eu disse pra ele: - João, o Japu é um artista. Sabe o que ele me respondeu?

- Quem é o Japu? Quem é esse tal de Joaquim? Não os conheço.

O biógrafo do Japu

Dei detalhes:

- Rapaz, deixa de comer mosquito. Tu conheces sim. O nome Baniwa do Joaquim é Malimaaka. Ele é filho do seu Antônio, do clã Waliperedakenai e da dona Inésia, do clã Hohodeeni lá da aldeia Koitysiali Inomanaa, na foz do igarapé Mutum, hoje Comunidade Canadá, no rio Ayari, São Gabriel da Cachoeira (AM). Começou a estudar aos 12 anos e aprendeu a falar a língua portuguesa aos 15 anos. Na década de 90 cursou Licenciatura Indígena na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Agora é mestre em Biologia.

Foi aí que caiu a ficha. O Barba-Grisalha, alisando com o bico os fios do queixo, reconheceu:

- Ah, já sei quem é.  Por que você não revelou logo, de saída, o nome que o pai dele lhe deu rejeitado pelo Cartório?  Lembro muito bem do Malimaaka. Eu costumava fazer voos rasantes sobre sua aldeia. Ele tem cinco irmãos e três irmãs. Era o melhor aluno da Escola Bilingue Eeno Hiepole, que significa Umbigo do Céu. Antes a prefeitura havia dado o nome de Escola Tiradentes, mas trocou de nome por pressão dos Baniwa. Agora sei quem é o Joaquim. Mas, e o Japu? Quem é esse tal de Japu?

- Se eu disser o nome dele em língua Baniwa, você vai saber quem é. O Japu é o Towiri.

- Quem? O Towiri? Qual deles? Existem várias espécies dessa ave do gênero Psarocolius. Todos são meus amigos, incluindo o Fura-banana, de grande porte, três vezes maior do que eu. Ele tem cor preta, bico alaranjado, olhos azuis e cauda amarela. Gosta de se exibir para as fêmeas, cantando e dançando, se inclinando para a frente, num movimento gracioso. O som do seu canto parece o de um piano - disse o Barba-Grisalha, confirmando o que me disse o Joaquim na entrevista via zapp.

O Barba-Grisalha despediu-se, então, de mim e saiu voando para a sua morada mais ao norte. Posto que mais vale um pássaro na mão do que dois voando, fico contigo, amigo Japu, para te apresentar aqui o resumo da dissertação “Uso de rizomorfos em ninhos de aves da Amazônia e conhecimento Indígena do povo Baniwa na bacia do rio Ayari” defendida sexta-feira (28/02), na qual você é o personagem principal.

As penas do Japu

Te digo que o Joaquim, teu biógrafo, estabeleceu um diálogo intercultural entre o conhecimento Baniwa e o saber da academia. Com ajuda da Noemia e da Camila, suas orientadoras, buscou autores nacionais e estrangeiros que te estudaram. Passou um pente fino em publicações ligadas ao tema editadas em diferentes línguas, inclusive em Nheengatu e em diversos países: Argentina, Paraguai, Costa Rica, Colômbia, Venezuela, Malásia, Tailândia e na Europa, que indicam o uso de vegetais e de fungos na construção de ninhos.

Um desses autores, o zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917), que foi diretor do Museu Paraense, estudou as aves da Amazônia e anunciou para o mundo da ciência, em 1897, que o teu ninho, amigo Japu, era construído com uma “substância peluda preta, muito parecida com as crinas de cavalo”, conhecida como cordão micelial e denominada pelos micólogos de rizomorfo, que é uma formação semelhante a uma raiz. Confere?

O outro é o botânico Jacques Huber (1867-1914), também suíço, que no Museu Paraense estudou as plantas da Amazônia e identificou, em 1902, um dos rizomorfos com o qual a família Japu fabrica o seu ninho – o rizomorfo de Marasmius - uma espécie de fungo marrom-avermelhado que produz pequenos cogumelos. Efetivamente, essas macroestruturas pretas ou marrom-escuras semelhantes a fios de cabelos são produzidas por alguns macrofungos.

Foi aí que o Joaquim Malimaaka e sua orientadora encontraram num pé de angelim no terreno do Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus, um ninho cheio de rizomorfos. Observaram que havia uma interrelação entre aves e fungos, que revelavam a interdependência das espécies. Ele decidiu procurar ninhos dos teus parentes em duas localidades de Manaus e em São Gabriel da Cachoeira.

O estranho no ninho

Como é que ele fez seu trabalho de campo? O pesquisador acadêmico Joaquim da Silva Lopes vestiu-se com a pintura corporal do Baniwa Malimaaka, acostumado desde sua infância a observar o voo do Japu no entorno de sua aldeia. Ele já conhecia sua plumagem linda e chamativa, seus cantos maviosos e seus ninhos pendulares. Mas em junho de 2024, acompanhado de seu pai, foi até o igarapé Miriti e lá os dois encontraram 19 ninhos caídos nas folhas de uma bacabeira de sete metros, ao lado de um ninho de vespas.

O danado do Joaquim Malimaaka voltou em janeiro de 2025 para uma segunda coleta e viu uma colônia nova de japuguaçu, no momento em que as fêmeas tricotavam com amor seus ninhos enormes em formato de bolso. Era um espetáculo belíssimo: a árvore altíssima estava toda ocupada por ninhos do japu e as bolsas longas de 1 metro de comprimento balançavam ao vento. Na tardinha, outro show: o bando, chefiado por um guia, voou para o seu dormitório. Diante daquilo, até o agnóstico mais empedernido se ajoelharia.

É uma pena – diz Malimaaka – que o desmatamento e as queimadas estraguem esse espetáculo. Observou na área urbana de Manaus material artificial usados nos ninhos como os fios de pipa. E sobre o tema, trocou ideias com colegas indígenas de mestrado: Yuri Kuikuro, Diogo Cinta Larga, Alírio Afaba, Alexandre Tyson.

O estudo do Joaquim conquistou pesquisadores indígenas e não indígenas que, em um puxirum científico, chegaram na espécie do rizomorpho. O DNA de um pedacinho foi examinado e descobriram que a espécie é Marasmius neocris-equi.

O barulho da vida

No trabalho de campo, seu Antônio, o pai de Joaquim Malimaaka, foi semeando pelo caminho narrativas, que caíram em terreno fértil e foram registradas no 1º capítulo da dissertação. Na cosmologia e na história oral do povo Baniwa, ele destacou a importância simbólica e espiritual do Japu, cuja origem está ligada às narrativas de transformação e à relação entre humanos, espíritos e natureza.

- As narrativas sobre a origem das aves são conhecidas de acordo com os clãs. Sou do clã Waliperedakenai (Constelação de Sete Estrelas) e sigo as histórias de acordo com minha linhagem ancestral. É possível que outros clãs Baniwa tenham versões diferentes – escreve Joaquim Malimaaka, para quem o japu é mensageiro e intermediário entre o mundo físico e o espiritual, além de fornecer penas amarelas para as cangataras (cocares) e outros adornos.

Ele explica que ninguém mata o japu, que não é comestível, além de ser muito respeitado pelos Baniwa. Suas penas são coletadas de forma natural, algumas vezes caídas do céu e das árvores, outras retiradas para uso ritual daquelas aves criadas em cativeiro. Isso é feito de forma cuidadosa, amorosa, por meio de técnicas que não machucam o japu domesticado. 

- Nos rituais de benzimento o espírito de aves de bom comportamento é invocado para abençoar crianças em sua passagem para a maturidade. O benzedor transmite às crianças valores como independência e capacidade de produzir seus próprios bens, preparando-as para se tornarem futuras lideranças. Esse ritual serve para afastar pensamentos egoístas, promovendo exemplos de autossuficiência e colaboração – conclui Joaquim.

Com essa pesquisa, Joaquim Malimaaka obteve o diploma de mestre. Mas todo mundo ganhou com esse momento histórico, no qual “indígenas se tornam agentes sociais que refletem, questionam e produzem conhecimentos”, como sinaliza Ana Carla Bruno, antropóloga do INPA, instituição cujo diretor, o ecólogo Henrique Pereira, reconhece “a importância da aproximação da academia ocidental com as ciências indígenas amazônicas e a relevância da política de inclusão e de diversidade social”.

Consciente de que o formato dos editais ao mestrado dificultava o ingresso de indígenas, Noemia Kazue Ishikawa, então coordenadora do PPG-Eco, propôs a substituição da prova de língua inglesa para a de língua portuguesa, que é a segunda língua para muitos indígenas: Joaquim, o primeiro a defender sua dissertação, “trouxe uma imensurável bagagem de conhecimentos biológicos e ecológicos de sua vivência cotidiana” – disse Noemia.

Trouxe também poesia. Noemia poetizou em parceria com seu orientando sobre a vida na floresta tecida pelo japu, que ocupa lugar especial na narrativa oral Baniwa. O agora merecidamente mestre em Biologia sabe que o Japu ocupa lugar especial na narrativa oral Baniwa. Por isso, registrou o lugar dessa ave nas tradições do seu povo, consciente de que “a oralidade é o barulho da vida que temos dentro de nós”, como nos ensina o pajé guarani Wherá Tupã.


P.S. Na quinta-feira (13) foi inaugurada no Campus do INPA a Sala de Intercâmbio Científico e Cultural Indígena, espaço dedicado à promoção da troca de conhecimentos e experiências entre diferentes culturas e áreas do saber científico. Esperamos que a vida faça muito barulho lá dentro.

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Fotos: Michael Dantas

Referências:

Joaquim da Silva Lopes: Uso de rizomorfos em ninhos de aves da Amazônia e conhecimento Indígena do povo Baniwa na bacia do rio Ayari. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ecologia. Manaus. INPA. 2025. Banca: Noemia Kazue Ishikawa. (orientadora), Camila Cherem Ribas (coorientadora), Henrique Pereira dos Santos (ecólogo), Mario Cohn-Haft (Ornitólogo) e Rogério Hanada (Micólogo).

José R. Bessa Freire. Resiste, João. Carta ao João-de-Barba-Grisalha. Taquiprati. 04 de novembro de 2007. Manaus. Diário do Amazonas.  https://www.taquiprati.com.br/cronica/113-resiste-joao



 
 
 

João Scortecci*


Prova de vida eu sei o que é. Sou aposentado e uma vez por ano, no mês de agosto, vou até uma agencia do banco do Brasil, onde tenho conta e faço a comprovação de vida mostrando documento com foto e olhando amorosamente nos olhos do servidor atendente. Constrangedor, sempre. Sei das fraudes. E também da importância. Hoje lendo sobre “Avanço da inteligência artificial exige forma de verificação humana anônima e segura” descobri que logo vamos precisar também de “Prova de humanidade”. E que até já existe um APP que cuida do assunto. Assustador! O tal protocolo visa criar infraestrutura que permite diferenciar humanos de robôs em interações e operações digitais. Sabemos – não é novidade pra ninguém – que robôs comentam posts nas redes sociais, atendem clientes desavisados, desafiam adversários em jogos online e até respondem cartas de amor em blogs de relacionamentos. Tem de tudo. A atividade deles é intensa que chega a dominar mais da metade do fluxo da internet. O cenário é devastador. O tal APP atesta por meio da biometria da íris, prova de humanidade: segura, anônima e privada, que você é um ser humano único. Sem cópias ou fraudes. Aqui com os meus neurais: Operei de catarata, dos dois olhos, perdi as minhas íris? Dr. Google diz que não. Na cabeça imagens do filme Blade Runner - O Caçador de Androides (1982), trama de ficção científica que acontece no século 21 - já estamos nele - onde uma corporação desenvolve clones humanos - identificados como Replicantes - para serem usados como escravos em colônias fora da Terra. Um grupo de Replicantes foge e passam a viver, disfarçados, na cidade de Los Angeles. Isso tudo no futuro ano de 2019. Detalhe: Já estamos no ano de 2025. Um ex-policial cruel e desumano é então contratado para caçar os simpáticos e eficientes robôs Replicantes. Não baixei ainda o APP. Estou ainda na fase de ficar indignado com a necessidade anual de provar que ainda estou vivo. Implicância tem limite. Problema meu!   

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*João Ricardo Scortecci de Paula é o Diretor Presidente do Grupo Editorial Scortecci., criado por ele há mais de 40 anos. Membro da Câmara Brasileira do Livro e de outras instituições da indústria gráfica, tendo presidido a ABIGRAF; é escritor, editor e autor premiado em vários concursos literários.

 
 
 
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