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A extrema direita se divide em dois segmentos fundamentais. Tem uma massa de ignorantes, que não sabe o que é uma ditadura, e uma turba de malfeitores, que sabe o que foi a ditadura militar e vê nela possibilidade de eliminação do outro e de ganhos desonestos sem punição.

Vejamos os indicadores que mostram a tragédia política, social e econômica da ditadura militar.

Em 1984, a inflação era de 223%.

A dívida externa saltou de 3,6 bilhões em 1964 para 93 bilhões em 1984.

O analfabetismo entre pessoas de 10 a 14 anos era de 19% em 1983.

A educação e a cultura eram engessadas pela famigerada Lei de Segurança Nacional, levando o ensino a um processo cruel de distanciamento da realidade e as escolas ao sucateamento.

A corrupção aumentou e escândalos como da Coroa/Brastel e da Transamazônica se tornaram conhecidos da população, mesmo com a imprensa censurada.

Não menos escandalosos foram os atentados terroristas no Riocentro e na sede da OAB, matando dona Lídia, servidora da Ordem, e os militares terroristas.

Centenas de brasileiros foram torturados, mortos e sequelados nos porões da ditadura. Figura como Brilhante Ustra, herói do traste inelegível, empregava os métodos mais cruéis de tortura, massacrando mulheres e até mesmo crianças.

Em resumo: só uma mente perversa, que odeia o Brasil e a democracia, é capaz de defender um período tão trágico e desumano.

Aproveito para dizer que nada justifica o apoio ou a defesa da ditadura militar. Nem mesmo os ignorantes de plantão têm esse direito.

Negar a tortura e os crimes militares é tão nefasto quanto os atos em si. Ignorância não pode ser sinônimo de perversidade.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

Hossam Shabat morava no norte de Gaza, tinha 23 anos e estava em lista de alvos de Israel. Deu a vida por seu jornalismo corajoso

O jornalista estava em uma lista de alvos dos militares israelenses, juntamente com outros cinco jornalistas palestinos, e recebia regularmente ameaças de morte, por telefone e por mensagens.

Embora fosse muito jovem, Hossam entendia bem o imenso risco que corria, e deixou uma Carta de Despedida, que foi publicada nas redes sociais por sua equipe:


"Se você está lendo isso, significa que fui morto — provavelmente, perseguido — pelas forças de ocupação israelenses.

Quando tudo isso começou, eu tinha apenas 21 anos — um estudante universitário com sonhos como os de qualquer pessoa.

Nos últimos 18 meses, dediquei cada momento da minha vida ao meu povo. Documentei os horrores no norte de Gaza minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que eles tentaram enterrar. Dormi em calçadas, em escolas, em barracas, qualquer lugar onde eu pudesse. Cada dia foi uma batalha pela sobrevivência. Suportei a fome durante meses, mas nunca deixei de lado o meu povo.

Por Deus, cumpri meu dever como jornalista. Arrisquei tudo para relatar a verdade, e agora, finalmente descansei — o que não pude fazer durante os últimos 18 meses.

Fiz tudo isso porque acredito na causa palestina. Acredito que esta terra é nossa, e foi a maior honra da minha vida morrer em sua defesa e a serviço de seu povo.

Peço a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem o mundo desviar os olhos.

Continuem lutando, continuem contando nossas histórias — até que a Palestina esteja livre.

— Pela última vez, Hossam Shabat, do Norte de Gaza



 
 
 

José Alcimar de Oliveira*


De um lado, os inimigos de sempre, alojados em instâncias do Estado e das redes antissociais, atacam

de frente a Universidade e a Escola, porque sua mera existência é uma ameaça ao ressentimento e ao

ódio de que se locupletam em estado de parasitismo e inanição intelectual. Eles, sim, os grandes

ideólogos do nada, tão ruidosos em sua vacuidade de mente e alma. Simples pregoeiros do mercado da morte (Francisco Foot Hardman).

01. Em acréscimo à celebre observação de Marx sobre Hegel, de

que é como farsa que fatos e grandes personagens da história costumam se

repetir, permito-me dizer que é sob forma de escárnio que o repetível pode

ocorrer pela terceira e muitas vezes mais. Afinal, mais do que o bom senso

e a crença no poder emancipatório do iluminismo, a razão no século XXI,

presidida pelo capitalismo em sua atual fase (derradeira? muito

provavelmente) de colapso ambiental e barbárie social, opera por cinismo e

estupidez. A estupidez, aliada ao medo, ao ódio e à ignorância,

converteram-se em instrumentos de dominação e armas de destruição sob o

férreo controle da necrocracia capitalista.

02. Há método e racionalidade na estupidez como cinismo e

escárnio. E apostar na estupidez é hoje um programa ideológico, que

requer e mobiliza elevado aporte técnico e científico, e sua execução não

está nas mãos de curiosos ou amadores. Diferentemente da sociedade

disciplinar, sob o capitalismo digital, do cada um por si e ninguém por

todos, a repressão, mesmo a mais heteronômica, é assumida como cultivo

reificado de si mesmo. É o reino da meritocracia, do indivíduo

empreendedor de si mesmo, como forma de autonomia reversa. E nada é

barato. Para pensar com o educador brasileiro Anísio Teixeira, assim como

não é possível uma guerra barata, menos ainda é barata a manutenção de

um projeto racional de difusão da estupidez. Se a ditadura mata, mata

muito mais a ditadura da estupidez.

03. A grande diferença, mais perversa e cruel, é que hoje a

extrema direita (contida até então pela direita, dita democrática ou menos

incivilizada) desinibiu-se de vez, converteu a estupidez em arma de guerra

contra o conhecimento e o bom senso, passou a engajar corações e mentes

de forma miliciana e a fidelizar seguidores com a força de uma seita

religiosa. O regime da razão iluminista cedeu lugar ao poder da crença. O

que em tese diferencia a crença do procedimento da filosofia e da ciência é

que nessas o sujeito elabora um processo de apropriação do objeto,

enquanto naquela, é o objeto (da crença) que se apossa do sujeito. Trata-se

de um sujeito possuído. O que pode o bom senso diante da força e do êxito

do ridículo quando o conhecimento se torna o alvo preferido da

ridicularização?

04. O pensamento, a consciência ou espírito não conhecem vácuo

ou vazio cognitivo. Os ideólogos da extrema direita sabem como tirar

proveito dessa condição humana, mobilizando preconceito e mentira de

forma programática e monolítica, o que deixa a esquerda, por ser muito

analítica (e pouco dialética) sempre acuada, imobilizada, sem condições de

conter ou neutralizar o poder maquínico da estupidez. Na guerra contra a

estupidez já não basta ao materialismo ser histórico e dialético, deve ser

bélico e armar a classe trabalhadora com as armas da crítica. Não confundir

com a crítica das armas promovida pelo sistema do capital. O belicismo

dialético se faz com o método da organização, da consciência e da luta de

classes.  

05. Armada com eficientes dispositivos digitais, a estupidez cínica

da grande burguesia produz e fideliza verdadeiras milícias de estúpidos

digitais e utilmente inocentes. Meu santo de profana devoção, Walter

Benjamin, haverá de concordar comigo que a barbárie da civilização

industrial se torna primitiva quando comparada à produzida pelo

capitalismo digital. Sem as armas teóricas do belicismo dialético o

chamado pobre de direita nunca se reconhecerá como pobre de direitos,

nem fará a transição epistêmica da alienação cognitiva para a consciência

de classe.

06. O que pode a razão analítica ou dialética, conceitual, diante da

ignorância e da estupidez promovidas pela magna didática capitalista, a

verdadeira escola de tempo integral, sempre online, maximamente

inclusiva e reconhecidamente exitosa em seu projeto de manter sob o

regime da alienação o trabalho e a consciência da classe trabalhadora? Se

para o sábio materialismo de Epicuro a filosofia é uma espécie de saúde da

alma, para o materialismo histórico e dialético (por que não bélico?) a

filosofia deve ser antes de tudo luta de classes, compreendida essa como

fato social, como categoria epistêmica de objetivação social, como chave

de leitura da história e, não menos importante, como estratégia de

organização política da classe trabalhadora.  

07. Estamos diante da derrota da educação, do pensamento, da

formação. Falar em pensamento dialético quando pontificam a ignorância e

a estupidez pode configurar crime cognitivo. Em reversa referência a

Wittgenstein, nesses tempos regressivos, de ódio ao conhecimento, de

afronta à cultura, de falsificação da história, de destruição da memória, os

limites da sensação passam a demarcar os limites da verdade. É a epiderme

que define, por toques digitais, o trabalho de cognição. Há cerca de três

décadas, antes do atual poder da estupidez digital, Darcy Ribeiro

afirmava que o fracasso da educação brasileira produzido por nossa elite

(do atraso, diga-se) já se afigurava como um projeto com método, hoje

potencializado em intensidade e extensão pela extrema direita, no Brasil e

no mundo. A tragédia política do processo educacional brasileiro, sempre

refratário à práxis, é também não reconhecer as consequências políticas e

sociais dessa tragédia. Há mais de dois mil anos o profeta Oseias

denunciava: meu povo perece por falta de conhecimento.

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*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado e doutorado. É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA, Seção Sindical, e filho orgulhoso do cruzamento dos rios Solimões (Manacapuru – AM) e Jaguaribe (Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, aos 30 de março de 2025.

 
 
 
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