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Carta de Paulo S. Pinheiro para a Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional, AUCANI - que abre espaço numa Feira Intercultural Internacional, em 23 de abril para o consulado de Israel.


Prezados Colegas


Tomei conhecimento, por meio de circular da Agência USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional, AUCANI, que a Universidade de São Paulo concederá espaço ao Consulado de Israel na Feira Intercultural Internacional, em 23 de abril.

Considerando que o governo israelense continua a perpetrar um genocídio em Gaza e que sobre seu primeiro-ministro, por “crimes contra a humanidade e crimes de guerra" cometidos por ele em Gaza, e que pesa uma ordem de prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional, essa decisão merece reflexão.

A AUCANI deveria ter levado em conta a decisão da Corte Internacional de Justiça que, no ano passado, reconheceu a plausibilidade da ocorrência de um genocídio em Gaza e determinou que o Estado de Israel suspendesse todas as ações que pudessem contribuir para tal crime. No entanto, desde 1948, Israel tem historicamente desconsiderado resoluções e decisões de todos os órgãos políticos e judiciais da ONU.

Em 2023, Israel chegou ao ponto de declarar o Secretário-Geral da ONU como persona non grata no país.

Enquanto escrevo esta mensagem, Israel segue bombardeando Gaza, forçando deslocamentos internos da população palestina, fazendo limpeza étnica destruindo hospitais e impedindo a chegada de ajuda humanitária. Entre os crimes de guerra mais recentes, conforme noticiado pela Globo e pela BBC em 2 de abril de 2025, está o assassinato de 15 paramédicos e membros de equipes de resgate pelas forças israelenses.

No dia 1º de abril de 2024, Volker Turk, Alto Comissário de Direitos Humanos da ONU – organização com a qual colaboro há três décadas –, condenou veementemente essas mortes. Reproduzo essas notícias ao final desta mensagem.


É profundamente lamentável que a Universidade de São Paulo – instituição historicamente comprometida com os direitos humanos e o direito humanitário internacional – conceda espaço ao consulado do Estado de Israel, cujo governo e políticas de Estado violam, de forma sistemática, os princípios que nossa Universidade promove e difunde.

Diante disso, apelo à AUCANI para que não permita a participação do consulado do Estado de Israel, cujas ações são frontalmente contrárias aos valores da comunidade acadêmica da USP. Esses fatos são pateticamente maquiados por este consulado com atividades na Feira Intercultural como "Shalom & Sugar! Aprenda Hebraico e ganhe um doce!" (sic); e "dança tradicional Israelita Harkada".


Muito cordialmente,

Paulo Sérgio Pinheiro

pesquisador sênior e fundador, em 1987, do Núcleo de Estudos da Violência, NEV/USP;

professor titular de ciência política (aposentado) da FFLCH, USP; presidente da comissão independente internacional da ONU de investigação sobre a República Árabe Síria, Genebra, desde 201; e

ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, governo FHC.

 
 
 

Vitória Seráfico*


Há algum tempo, li uma crônica – não sei onde, nem me

lembro quem era o autor. Achei tão interessante, que resolvi

enviá-la a outros leitores. A íntegra não era absolutamente como a

transmito. Mas a moral da história, sim. Então, decidi incrementar

o conteúdo, e adicionar o meu tempero, antes de repassá-la. Se

você ainda não a tiver lido, vale a pena o esforço. Caso já conheça

o texto, finja que não. Esqueça. Leia mais uma vez.

Um homem ia visitar um amigo de quem não tinha notícias

havia muito tempo. Depois de checar o endereço e, por telefone,

agendar o contato, pôs-se a caminho.

Chegando ao local, percebeu o cachorro que perambulava às

proximidades do portão. Quando entrou, o cachorro entrou

também, enveredando para o interior da casa.

Os amigos se abraçaram, manifestaram a recíproca

felicidade pelo reencontro, e seguiram, relembrando momentos da

vida universitária, os namoros, as colegas bonitas, as nem tanto, os

bons (e maus) professores, e tudo o mais que lhes trouxesse à

memória aquele pedaço de suas vidas.

A conversa fluía normalmente, quando eis que surge, do

fundo da casa, sua majestade, o cachorro. Mal foi chegando, e já

se punha a praticar a cachorrice inerente ao curriculum-vitae de

qualquer canino. O foco era o visitante. Sem a menor cerimônia,

pôs-se a lamber-lhe as pernas, a roer o bico de seus sapatos, a

pousar as patas (sujas) na sua alva calça de linho. Num pinote,

derrubou o cinzeiro posto à disposição da visita. Estraçalhada, no

chão, a peça de vidro espalhava pontas de cigarro por todo o

tapete.

Claro que a situação era bastante desagradável. Mas o pobre

homem não podia demonstrá-lo perante o anfitrião. Além do que a

boa educação prescrevia pelo menos um sorriso – ainda que

amarelo – para dissipar o embaraço. Mas, com seus botões, ele

pensava: “que absurdo! Por que ele não manda prender este bicho


lá no quintal?... A me lamber as pernas ... estragar meus sapatos ...

sujar minha roupa ... e ele não faz nada!”

Até que chegou a vez do anfitrião. De saída, o animal

arrancou-lhe a sandália e, com os dentes, a estraçalhava, num

canto da sala. Depois da sessão lambe-lambe, começou a roer a

palhinha da poltrona. Além de outras diabruras (não chamam ele

de CÃO?...)

O mesmo embaraço o dono da casa vivia, consciente de sua

impotência em tomar qualquer atitude que pusesse fim aos

excessos do cãozinho. Mas, no íntimo, mostrava-se estarrecido

com aquela visita:

“onde já se viu, visitar alguém, trazendo cachorro?... Nem

acredito! Ele, sequer, põe o bicho pra correr, vendo-o me quebrar

tudo, minha sandália, meu cinzeiro ... Credo! Nunca imaginei!...”

Finalmente, o visitante avisa que já vai. Que alívio! Nem

mesmo uma dosagem mínima de hipocrisia lhe permitiu sugerir

que o amigo ficasse mais um pouco. Qual nada! Queria era livrar-

se o mais breve possível daquele indesejável visitante de quatro

patas.

No portão, os amigos se despedem, risonhos, reiterando o

desejo de novos encontros etc etc

Nisso, o dono da casa percebe que o cachorro ficou.

Imediatamente, grita para o amigo:

- ei, Fulano, o cachorro!

- O quê? Que cachorro?

Apontando pra animal, responde:

- este, o teu cachorro!

- Não! Ele não é meu, não! Pensei que fosse teu.

Só aí ambos descobriram o engano que os fez passivos

diante de tantos desatinos. E concluíram que, de fato, todo

cachorro que se preza, encontrando a porta aberta, entra.

(V.S. /2025)

PS: lembrei-me do título da crônica: Cão, Cão, Cão. Quanto à

autoria, parece ser de Carlos Drumond de Andrade. A conferir.

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Vitória Seráfico – 2020


Não existe infância feliz que não tenha passado pela

casa da vovó.

Casa da vovó é nosso segundo lar, nosso segundo

aconchego, extensão do afeto e do carinho que temos em

nossa casa. Pelo menos, no meu (nosso) caso.

Íamos com muita frequência à casa de nossa vovó

Maroquinha, mãe do papai. Sobretudo quando morávamos

em Miramar. Nosso ponto na cidade era, exatamente, a

casa dela, na Domingos Marreiros.

Moravam com ela tio Waldomiro, sua mulher,

Idalina, a filha (do primeiro matrimônio) Irene, a tia

Guiomar e o João, nosso irmão. A casa da vovó era, por

assim dizer, o nosso quartel general em Belém. Tudo era

lá que acontecia: Natal, Ano Novo, Círio etc.

Éramos os netos mais novos – os filhos da tia Yayá já

eram adultos. Tia Guiomar era solteira (naquela época, as

solteiras não tinham filhos); tio Cazuza, viúvo, também só

teve uma filha, já adulta naquele tempo. Então, nós, as

nove maravilhas do mundo do papai e da mamãe, éramos

presenças permanentes na casa do Umarizal.

Mesmo sem motivo especial, vez por outra, dois ou

três de nós íamos passar o dia com a vovó.

Jorge e Fátima eram os mais travessos. Formavam

uma dupla da pesada. Então, quando o carro chegava e

saltavam os dois, tia Guiomar dizia logo:

- não, os dois juntos, não! Fica só um!

E lá um dos dois voltava pro carro.

Convém frisar que esta atitude da tia jamais foi

motivo de briga ou confusão entre mamãe e ela. Pelo

contrário, tia Guiomar sempre foi muito estimada pela

cunhada, que sabia, inclusive, do tratamento especial que

cada um de nós recebia em sua casa.

Quando estávamos lá, era grande a despesa da tia

com os ambulantes que passavam na rua. Assim,

ficávamos ansiosos esperando pipoqueiro, cascalheiro, o

amendoim torrado, o vendedor de pupunha e quantos mais

passassem vendendo besteiras – que nos tiravam a

vontade de almoçar. Sem esquecer a sorveteria da

esquina, A Severa, que, invariavelmente, recebia a nossa

visita, a partir das 16:00 horas. O picolé nunca nos faltava.

Enfim, a casa da vovó era nosso segundo paraíso.

Ainda morávamos em Miramar, quando o José

resolveu, como voluntário, entrar no CPOR, tendo em

vista que, no ano seguinte, estaria fazendo Vestibular para

Direito. Com isso, passou a morar na casa da nossa avó,

pela proximidade com o quartel.

No ano seguinte, concluída a construção da nossa

casa, na Boaventura da Silva, ele voltou a morar conosco.

Lindas lembranças temos da casa da vovó.

Tia Guiomar, chapeleira afamada em Belém, sempre

às voltas com os tecidos e as formas. Cada exemplar

arquitetado, eis que nossas cabeças – sobretudo a minha e

a do José - serviam de modelo, pra ver os reparos

necessários.

Carnaval, casamentos, formaturas, desfiles escolares

(na época, os colégios usavam roupas de gala, incluindo

chapéus), tia Guiomar era a profissional procurada por

todos os setores da sociedade. Além disso, trabalhou

dezenas de anos, fazendo toucas para crianças, para a

famosa Casa Guerra.

Belas moças chegaram ao altar, usando a grife

Guiomar Seráfico, prendendo o véu. Assim como

madrinhas de casamento e damas-de-honra. Da mesma

forma, muitas foliãs desfilavam no Baile de Máscaras da

Assembleia, com chapéus criados e confeccionados pela

minha tia-madrinha.

Enquanto ela cuidava das cabeças, Irene, costureira

muito competente, preparava bonitos vestidos de noiva.

Inclusive uma primeira-dama do Pará usou traje feito por

Irene Seraphico.

Eu, geralmente, era testemunha dos momentos da

prova do vestido. (Quem sabe, sonhando com o dia em

que ela faria o meu!...).

Tia Guiomar, quando jovem, era a companheira do

papai nos assustados carnavalescos. Conforme nosso

Sessé (apelido carinhoso que os amigos davam ao papai –

e hoje dado ao Jorge) nos contava, os dois dançavam a

quadra inteira.

Um detalhe: minha tia criava blocos, pra dançarem

nos salões que eles também frequentavam. Papai nos

falava com muita saudade daquele tempo, enfatizando a

criatividade e o bom-gosto da irmã dele. Bonecas de

Saturno, Marujos de Samoa, É do Barulho – alguns que

ele ainda lembrava. Desnecessário dizer que a cabeça dos

foliões ficava a cargo dela.

Não posso deixar de fazer um registro nada

auspicioso:

o último chapéu que minha tia fez foi, exatamente, pra

mim, como madrinha do João, na entrega de espada, do

CPOR. À noite, durante a festa, na casa dela, minha tia foi

acometida de um AVC, que a deixou dez anos numa cama,

até morrer.

Esse chapéu – o primeiro que usei até então – foi

desenhado por ela, com toque de originalidade, único.

Diferente da dezena de chapéus que ela vinha fazendo

para o mesmo evento. Propositadamente, ela me queria

diferente de todas as outras mulheres. E conseguiu. Eu

tinha 15 anos.

Tia Guiomar era a irmã-amiga por excelência. Atenta

às necessidades de toda a família, nunca nos deixou faltar

nada. Ela e o papai eram os que desfrutavam de situação

financeira melhor, embora ambos enfrentassem também

suas dificuldades. Mas um ajudava o outro. Sempre. Nada

faltava a qualquer tio ou a quem por lá estivesse.

Esta lição de vida, este exemplo, papai transmitiu aos

seus nove filhos. E mamãe o ajudava na nobre missão.

Até hoje, tudo entre nós é compartilhado; a alegria e a

tristeza. A conquista de um contagia a todos; o problema

de outro é problema também de todos. Se o assunto é festa

na família, todos colaboram, conforme suas

possibilidades. Alguma preocupação com a saúde, lá

estamos reunidos, tentando ajudar no possível. E assim,

vamos procurando sempre seguir o caminho que nossos

pais nos ensinaram.

Vem deles o hábito de nos reunirmos no almoço

dominical, em minha casa. Hoje, pelo menos num

domingo do mês, juntamos toda a macacada no quartel

general (Vitória buffet). Afora outras oportunidades

durante o ano (Dia das Mães, dos Pais, Círio etc).

Talvez por isso, quem sabe, com muito orgulho,

humildade e felicidade, costumo dizer, agradecendo a

Deus: minha família é a prova inconteste de que a união

faz a força, sim!

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(V.S. março / 2020)

 
 
 
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