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José Ribamar Bessa Freire*

 

1.

Sou Judas Iscariotes / apóstolo do Rei dos reis

Deixo aqui meu testamento / com o que lego pra vocês.

2.

O remorso me consome / mas quero me redimir

Preciso limpar meu nome / Os meus bens vou repartir.

3.

Ao Lula presidente / tremendo cabra da peste

Lego esse Abacaxizão / com as urnas do Nordeste.

4.

Pro Messias fake deixo / minhas heranças malditas

Trinta moedas de prata / E todas as joias sauditas.

                                                                                 5.

As joias que eu escondi / vou separar com cuidado

Dou o colar pra Micheque / e meu anel para o gado.

6.

Detesto mimimi, talkey? / prefiro gente raçuda

Anderson Torres te deixo / uma cela lá na Papuda.

7.

Pro Exército eu deixo / a prótese peniana

Pro Imbrochável, viagra / e depilação pubiana.

 

8.

Muito leite condensado / picanha e cloroquina  

Às filhas da milicada / pensão de gorda propina.

9.

Ao Braga Netto general / puxa-saco de um capitão

Pra pintar o meio-fio / deixo cal, brocha e demão.

10.

Chico Vigilante herde / o meu beijo de veneno

Na CPI dos golpistas / beije o general Heleno.

11.

O código do Sinédrio / lego ao Supremo Tribunal  

Para que possa desarmar / essa milícia digital.

12.

A tal minuta do golpe / ao ministro Xandão deixo,

Pra enjaular bolsominions / com a bolada no queixo.

13.

Para os Tchutchucas do Centrão / com o caráter oxidado

Lego o remorso e o laço / no galho dependurado.

14.

Pro14.

Pro neto do Bob Fields / o Bob Fildinho venal,

Deixo minhas 30.000 moedas / com juros do Banco Central.

15.

Lego o verbo feito carne / verve e fluência sabida

Pro Flávio Dino aniquilar / marrecos e “conjes” da vida.

16.

Quem açoitou Jesus Cristo / e mandou matar Marielle

O chicote do Calvário / lego a quem os interpele.

18.

Ao Wilson Lima vixe-vixe / Alô Amazonas Alô

Deixo uma adega de vinhos / repleta de ventilador.

19.

O Bosco Saraiva sabe /que quem não chora, não mama

Pra quem já foi algemado / deixo o cofre da SUFRAMA.

20.

Não tens vergonha, sua besta / covarde batendo em mulher

Lego ao juiz de Guarulhos / o inferno com Lúcifer.

21.

O Gabinete do Ódio / armou a mão com machado

Para matar criancinhas / que hediondo pecado!

22.

Para a Mater Dolorosa / das crianças de Blumenau

O meu pranto entristecido / nem eu faria tanto mal.

23.

Aos moradores de rua / que o prefeito removeu

O Lancelotti de Sampa / deixo-lhes Simão Cirineu.

24

A queda do céu Yanomami / e a Mãe Terra ferida

Com a expulsão do garimpo / deixo a vitória da vida.

25.

Para Sônia Guajajara / longe vá, temor servil

A Ressurreição é um fato / renasce o novo Brasil.

26.

No domingo de Páscoa volto / Pra onde perdi as botas

Assustado com o Brasil / de fascistas "patriotas".

27.

Agora regresso ao inferno / Lá tá melhor do que aqui

De qualquer forma desejo / Feliz Páscoa Taquiprati.

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*Editado na coluna Taquiprati, 09/04/2023. O Taquiprati agradece as sugestões de Teca, Celeste, Dile e Bolívar.

 
 
 

 

epígrafe:

...há também poesia nos números.

 

naquele tempo...

 

era um domingo,

o espaço: belém.

não aquela que os magos buscavam,

tampouco a da manjedoura

- berço da salvação,

mas a da floresta das iaras.

 

a rua: nazaré,

não a da palestina devastada

pela sanha do mal.

 

mas a dos peregrinos piedosos

que no segundo domingo

do décimo mês do ano

arrastam pela cidade

a imagem da mãe

do salvador.

 

o número: 96,

hoje alterado

pela insensibilidade burocrática.

 

como se fosse possível

apagar o que fica,

ou transformar

o que, mesmo o girar dos dias,

contra ou a favor dos ponteiros,

permanece o que é:

96.

 

...era páscoa.

reunidos celebrávamos a luz

que renasce a cada manhã,

ausência que é presença

na ressurreição,

ressureição que é amor.

 

à mesa tinha assento também uma mestra:

maria de nazaré.

não a mãe do nazareno,

mas sim a pedagoga aposentada

que alfabetizava as empregadas domésticas

da rua dos patrícios

de uma outra belém.

 

a ceia celebrava o renascimento

para os cristãos

e era vivida em uma família católica,

de tradição portuguesa,

onde não faltava o pão, o vinho e o peixe.

 

seguia-se a leitura do evangelho de joão

e a homilia - lidos por tia amada.

sim, havia, também, uma tia que era amada.

e, eu, único varão à mesa,

reivindicava o direito à palavra

 

e vinha o verbo da libertação,

da igreja do cristo

que, com (a)paixão,

nos ensinou a amar.

 

assim, celebrava-se a páscoa

de uma infância e de uma juventude

que não passaram.

 

ou, que talvez tenham ficado

aprisionadas em um 96 que,

como o girar da terra,

a cada rotação,

transforma a noite - crucificação

em radiosa alvorada – ressurreição.

 

paulo emílio martins

rio de janeiro, 5 de abril de 2026

para celebrar o almoço do domingo da páscoa

 
 
 

Pensando bem, todos os dias da nossa vida são – ou deveriam ser - Páscoa, Natal, Ano Novo, quadra junina e pra nós, paraenses, até quadra nazarena, privilégio divino só nosso. Eu entendo que a demarcação dessas datas ou períodos, no calendário, nada mais é que uma forma convencional estipulada talvez há milênios (não sei quando nem por quem), como uma orientação, com vistas a organizar o dia a dia das pessoas. Suponho. Também não descarto o respaldo comercial que acompanha tudo isso, sobretudo de umas décadas pra cá. Os apelos do consumismo que, sem qualquer dúvida, hoje (talvez sempre, quem sabe?) se sobrepõem ao real desejo de presentear alguém, de reunir pessoas queridas - ou não.

      Se deixarmos de lado o sentimentalismo, veremos que são dias como outros quaisquer. Por exemplo, as noites de 24 e 31 de dezembro. As horas passando, as pessoas tratando de seus afazeres e interesses, a chuva, o sol, a noite chegando, e por aí a coisa vai; mais um dia passa. Após a meia-noite, começa um novo dia. E assim flui a vida da gente. Mas o calendário está lá na parede, dando maior realce às duas noites. E nós, ou quase todos nós, pessoas, nos deixamos levar, docilmente, por esse apelo. Que é bom demais.

      Daí cabe a pergunta: Natal, Páscoa, Ano Novo, Círio de Nazaré e outras datas – eu diria “badaladas” tem dia marcado? Tem prazo estipulado pra cada pessoa demonstrar afeto, atenção, respeito às outras?  Tem hora marcada pra você estender a mão a quem precisa? Ajudar quem lhe pede socorro? Dar um sorriso, um “bom-dia”, “como vai?” etc etc? ... Por que, então, só no dia de Natal, você sente vontade (ou obrigação, às vezes), de dar um presente àquela pessoa de quem você não lembra o ano inteiro, nem procura saber? Isto é presente de Natal?

      Com base nesta reflexão, reafirmo o que digo, quando cumprimento alguém, pelo natalício: “fulano, apenas reitero agora o que te desejo durante o ano inteiro; não é só hoje”.

       O mesmo deve ser com as datas ditas festivas. Elas devem estar presentes no coração, não no calendário. Todos os dias. São datas de forte apelo cristão, pelo que cada uma representa, de fato. Mas cristão de verdade é cristão o ano inteiro. Sem escolhas. Sem prazo pra começar e terminar. Sem lembrar que dia é hoje. Também é bom não esquecer de que podemos ter atitudes cristãs, sem meter a mão no bolso. Não é só dar dinheiro que se torna um gesto cristão. É bem mais barato. Não custa nada. É gratuito.

      Então, no momento em que nos preparamos para viver mais uma Páscoa de Jesus Cristo, tenhamos como modelo as mensagens e os exemplos que Ele nos deixou. Pra Ele, não havia sábado ou domingo, conforme as leis da sua época. O Bem não constava na agenda. Despontava conforme a necessidade. E Jesus, com seu infinito amor por todos nós, desafiou poderosos e tiranos, fez o Bem onde prevalecia o Mal, quebrou correntes que amordaçavam inocentes, e ... O resto, nós sabemos, porque cremos, vemos, sentimos, recebemos. E almejamos, a cada dia, que Ele continue vivo no meio de nós.

       Portanto, que, em cada dia da nossa vida, brote do nosso coração uma noite de Natal, uma festa junina, um alegre baile de carnaval, um belo Círio de Nazaré e um feliz domingo de Páscoa!

                         Feliz Páscoa! 

Vitória Seráfico (2026)

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*A autora, frequente tripulante, é poeta, cronista e compositora, além de exímia decoradora especializada em eventos educativos, culturais e comemorativos.

 
 
 
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