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Ricardo Kotscho**


A reunião de Mauro Vieira com Marco Rubio esta semana, sem que o nome do clã golpista sequer fosse citado, teve um caráter simbólico: pode ter sido a última pá de cal na tentativa dos zerados de um dia voltar ao poder no Brasil, com a ajuda dos Estados Unidos. Melhor assim: a nação agradece.

Se só Trump poderia salvar o ex-presidente condenado, como disse outro dia Valdemar Costa Neto, o dono do PL, então agora não há mais nenhuma esperança, chegou o fim da linha, acabou, the game is over. O ar até já ficou mais respirável.

Foram quase sete anos de protagonismo tóxico, desde a posse do capitão Jair em 2019, que abalaram a democracia brasileira e quase nos levaram a uma nova ditadura, mas agora chegou a vez de fechar as cortinas e tirar essa gente do noticiário político para voltarmos à normalidade institucional.

Em novembro, o processo contra os golpistas deve transitar em julgado no STF, com a prisão em regime fechado de todos os condenados. O mal que os zerados e seus comparsas fizeram ao sistema político, à economia, às Forças Armadas e à vida em sociedade é impagável. Mas é página virada.

Cabe agora ao Congresso Nacional enterrar de vez essa conversa de anistia, dosimetria, indulto ou o nome que tenha, e colocar na pauta o que realmente interessa ao povo brasileiro. Só assim poderá recuperar a credibilidade perdida. Aos eleitores, caberá a tarefa de completar a limpeza ética, não reelegendo os parlamentares cúmplices do bolsonarismo. Guardem bem seus nomes…

Chega de abrir generosos espaços na mídia a quem atentou e continua atentando contra a soberania do país. Já deu. Os jornais e os canais de notícias também deveriam redirecionar suas pautas para a vida real, deixando os zerados para as páginas e programas policiais, de onde nunca deveriam ter saído. Não interessa mais saber o que eles pensam ou deixam de pensar. Suas opiniões devem ir para o arquivo morto das redações.

A polarização só interessa aos derrotados. Em 2026, teremos a grande oportunidade de mobilizar a sociedade civil para debater projetos capazes de enfrentar a nossa enorme desigualdade social e combater o crime organizado que se infiltrou em todas as instâncias da vida nacional nos últimos anos.

Esta será a eleição mais importante desde a redemocratização para desenhar o país que queremos, sem as amarras do passado e de olhos abertos para o futuro. O caminho agora está livre, só depende de cada um de nós. A política não pode ser dominada só pelos políticos. Nossa grande arma são as urnas.

Em tempo: espero que tenha sido minha última coluna sobre esse assunto.

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*A alteração no título mantém a prática do editor do blog: não mencionar palavras de baixo calão, em sinal de respeito a leitores e ouvintes. Mesmo quando ditas indiretamente.

**O texto de Kotscho foi publicado em O Globo, ontem, 20-10-2025.

 
 
 

Antes que os machistas de plantão venham falar, adianto que me refiro à mulher tomando como referência o conceito de Simone de Beauvoir, no seu livro O Segundo Sexo, resumido no seguinte postulado: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.

Me refiro, portanto, às mulheres que construíram e constroem sua identidade no compromisso social e histórico com a justiça e a igualdade. Não cabe aqui a mulher que não se reconhece como mulher e reproduz a opressão e o preconceito social e cultural

Li o currículo de 13 mulheres cogitadas para assumir a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no Superior Tribunal Federal.

São profissionais de reconhecido saber jurídico e todas têm inserção em alguma frente de combate ao racismo, à misoginia ou algum outro tipo de preconceito e violência social.

E por que o presidente Lula deve indicar uma mulher para o STF?

Primeiro, porque são mulheres preparadas para assumir o cargo. Segundo, para reafirmar o compromisso do seu governo de combater as desigualdades, o que ele já vem fazendo.

A indicação de uma mulher ao STF seria mais um passo para fazer uma correção histórica numa corte machista, que em 134 anos de existência só teve três nomeações femininas. Não teve e não tem mais mulheres na sua composição porque elas são excluídas justamente por serem mulheres. Não existe outro motivo.

E as três mulheres nomeadas foram nas últimas três décadas. Uma indicação do FHC, uma do Lula e outra da Dilma. Ou seja, por um século, a suprema corte brasileira teve somente homens.

Na busca por justiça e igualdade, se tem um jurista e uma jurista preparados

para assumir uma vaga no STF, o critério de desempate deve ser o de gênero, até se chegar a paridade na corte.

Lula tem a obrigação histórica de insistir na correção dessa injustiça com as mulheres brasileiras. O próprio Conselho Nacional de Justiça estabeleceu normas para garantir paridade na segunda instância dos tribunais, onde as mulheres representarem menos de 40% dos desembargadores.

O critério de gênero é legítimo. Ele busca corrigir desigualdade e exclusão históricas. As mulheres sofrem até hoje toda carga machista de uma sociedade construída sob os ditames do patriarcado. É inadmissível que um governo popular não confronte o preconceito dentro do próprio Estado. Lula tem confrontado, mas a suprema corte continua sendo uma casamata do patriarcado.

O Suprema Corte, enquanto Estado brasileiro, deveria se envergonhar de por mais de um séculos de existência ter tido apenas três mulheres como ministras. É tempo de corrigir isso. Por mais mulheres nos tribunais.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

"É necessário, portanto, continuar a denunciar a “ditadura de uma economia que mata” e reconhecer que «enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. "

(Leão XIV, citando Francisco na Carta Dilexi Te)

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