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O tamanho do sapato só aperta o pé de quem o calça. A dor na bunda de quem recebe o pontapé é passageira, tão fugaz o efeito do ato agressor. Acaba naquele momento, embora a recusa dos menos inteligentes não o admita. Nada mais grave que recomendar mezinhas aos enfermos ou negar oxigênio aos ameaçados de asfixia. Tudo isso ajuda a interpretar as primeiras reações de Tarcísio de Freitas e Eduardo Leite, eleitos respectivamente governadores de São Paulo e Rio Grande do Sul. Leite derrotou um dos criminosos confessos do uso do caixa 2, credencial que o fez fiel escudeiro do derrotado aspirante à manutenção da chefia do Poder Executivo. Ex-integrante dos quadros técnicos do governo de Dilma Rousseff, o engenheiro Tarcísio Freitas acrescentará ao currículo o exercício político em Estado de cuja capital não sabe nem o nome das ruas. De qualquer maneira, seu derrotado concorrente o cumprimentou e mostrou a disposição de ajudá-lo na tarefa de governar a mais rica unidade da Federação. Conduta substancialmente diferente da sempre adotada postura do atual Presidente, em mandato moribundo, em questão de dias para finar-se. Se Ônix Lorenzoni foi repudiado pelos gaúchos, diferente foi a opção dos paulistas. Elegeram um discípulo do ex que logo colocará esta partícula à palavra Presidente. O pagamento de multa pelo derrotado ex-Ministro da Cidadania consumou e sepultou o crime por ele praticado. Tarcísio ainda terá que explicar à Polícia e, depois, à Justiça Brasileira, o assassinato de um homem, pelo disparo de revólver de autoria e motivações ainda incertas. Passar da sandália ao sapato não é tão fácil.

 
 
 

Há muitas maneiras de uma mulher ou um homem destacar-se na sociedade de que faz parte. Até apontando um revólver em direçào à cabeça do outro é capaz de influenciar o comportamento deste. Pois este é o cerne do fenômeno da liderança: mover os liderados na direção escolhida por todos, em amplo, seguro e sincero processo político. Para tanto, a força dos argumentos há de sempre mostrar-se superior à mortalidade de toda e qualquer arma. Num certo sentido, a escolha entre esses dois processos tão diferentes diz da estatura humana, política e moral do que a faz. Uns, mais próximos dos vermes, sequer têm a mais rudimentar noção do que isso significa. Porque pobres e miseráveis seres que só por equivocada generosidade chamamos também humanos, sequer chegam próximos dos valores e práticas que dão a estatura do homem ou da mulher. O discurso imediato à divulgação do resultado da eleição deixou mais clara a condição de estadista, que as mais importantes lideranças mundiais avalizam. Ao discurso do ódio, ao estímulo à violência, ao uso de toda sorte de indignidades praticadas ou determinadas por seu opositor, o Presidente eleito responde com a pregação da reconciliação, do amor ao próximo, anúncio de que governará não só para os que o elegeram, porque a harmonia na qual ele acredita haverá de contemplar os 215 milhões que têm o Brasil como sua casa. Estadistas e vermes mantêm entre si distância maior que a Terra e o mais distante astro do sistema planetário.

 
 
 

A incapacidade de observação, quando não o interesse que não pode ser esclarecido, deforma os fatos e compromete qualquer análise isenta e honesta. Os episódios vergonhosos da Lava Jato terminaram dando em nada, exatamente pelos interesses mesquinhos e audaciosos que inspiraram a criminosa operação. Da súcia organizada para desencadeá-la e levá-la aos resultados que o Poder Judiciário recusou, não por culpa dos denunciados originais. Piores que eles são os outros, cujo respeito ao ordenamento jurídico é nenhum. Tanto, que, desprezando o que se chama devido processo legal, afrontaram a Constituição Federal e se auto-outorgaram poderes que mesmo Torquemada teria recusado. Depois, entre vai-e-véns frequentes nas organizações criminosas, os detratores da Constituição e do Estado Democrático de Direito reúnem-se sem o menor pudor, para nova tentativa de satisfazer apetites, sanhas e taras que os têm animado. Quando ocorre de verem posto em risco seu maligno projeto, não titubeiam. Tentam a todo custo transformar a realidade, mesmo se isso importa negar a presença e a confraternização com notórios delinquentes, sequer lembrados de que fotografias ainda não captam imagens inexistentes. Pelo menos, até onde vai nosso conhecimento. A mentira, assim, passa a ser o último (antes fosse) refúgio, ainda mais quando ela é facilitada pelo próprio avanço da tecnologia. É esse o cenário com que convivemos neste domingo 30 de outubro de 2022, quando os eleitores brasileiros escolherão o novo Presidente da República. Cenário pintado em clima de jamais experimentado terror, alimentado pelos que recusam a manifestação da vontade popular, porque sempre empenhados em destruir o que a sociedade tem construído à custa de seu trabalho e seu empenho por relações sociais menos selvagens. A incapacidade de apreender a realidade, mencionada nas primeiras linhas deste texto, revela toda a sua extensão se lembrarmos a trajetória dos promotores do clima de terror hoje instaurado. Democraticamente, o único meio de enfrentar os riscos do processo histórico regressivo é votar contra os interessados no uso da força como forma da resolução de conflitos, de resto uma constante nas sociedades mais avançadas. Ceder aos caprichos e vontades dos fanáticos e belicosos é renunciar à própria condição humana que nos faz diferentes dos outros animais. Aqueles que chamamos inferiores.

O desespero, sabe-se, jamais dá bons conselhos.

 
 
 
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