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Imediatamente após divulgados os números finais da eleição presidencial, o Brasil e o Mundo pareceram ter reconquistado a Paz e a Esperança. O Planeta viu-se menos ameaçado pelo desequilíbrio climático, enquanto os brasileiros perceberam-se libertados do desequilíbrio psiquiátrico de um napoleão de hospício. Ainda que essa condição arrisque, se reconhecida oficialmente, evitar as consequências penais justamente devidas. Chegar a esse ponto, porém, é tarefa de que se hão de ocupar as autoridades policiais e judiciárias. Com todo o rigor e cautelas que o ex-magistrado agora feito senador - espécie de Incitatus com votos - preferiu ignorar. Neste particular aspecto, junta-se às esperanças que a eleição de Lula suscita previsão à altura da biografia do ex-juiz que chama conje a um dos constituintes de um casal. Mais que ninguém, e sem ninguém que o estimulasse a fazê-lo, Sérgio Moro beijou a mão que ele antes mordera, juntando ao beijo agradecido o escarro de que o poeta Augusto dos Anjos nos advertiu. Mais cedo do que esperávamos, a caterva do centrão e outros dos que a ele se assemelham, começam a estender o tapete - vermelho, sim, como convencionado - para o oficiosamente empossado novo Presidente da República. Este, festejado pela maioria que o bloqueio e os controles oficiais não conseguiram impedir de votar, mostra cada minuto quanto sabe aprender. Ao mesmo tempo em que, favorecendo comparações, põe a nu a ignorância, a truculência e a perversidade de outros. Isso o torna perante os olhos do Mundo um cidadão cuja visão alcança até onde os olhos não chegam. O que, no meu entender, se chama intuição. Essa qualidade dada a uns poucos, mas tanto maior e tão precisa, quanto maior a disposição de aprender e agir, obediente a bons propósitos. Têm razão, portanto, os que, antes tão criminosamente agressivos, apresentam-se trajados de súbita humildade, pressurosos por obter o perdão e manter-se providos do oxigênio negado aos que constam da lista dos mortos, dentre os 700.000 que um vírus e os vermes cúmplices sacrificaram. Tudo isso, muito mais cedo do que se imaginara. Ah, se não houvesse esse tipo execrável de gente! A roda da História não se moveria...

 
 
 

Sabemos todos quanto a força do ódio produz sobre as nações. Não faltam exemplos, remotos ou recentes, em todos os continentes, das graves consequências desse sentimento. Agindo com mais força em indivíduos por algum motivo frustrados em seu projeto de vida, o ódio os torna fanatizados e com frequência os leva à conduta violenta e ao crime. Claro que não se trata de algo gerado espontaneamente, como se fora fenômeno natural. Esse mesmo sentimento, no entanto, parece vigoroso a ponto de espalhar-se velozmente, sustentado por preconceitos de toda espécie. Daí à tentativa de naturalizar o mal é apenas meio passo. Os dias que estamos vivendo, em especial depois que a maioria dos brasileiros explicitou seu desejo de paz e recusa ao projeto necrófilo resultante da eleição de 2018, não deixam dúvida: terroristas germinados em caldo de cultura próprio à barbárie permanecem ativos, como reprodução do Estado Islâmico, Al Kaeda, Talebã e similares em operação pelo Mundo. Não é de outra coisa que se trata, se bem observarmos a mobilização dos caminhoneiros (quantos e quais serão os outros, amanhã?), em quase todas as unidades da Federação. Neste momento, mais urgente e vigorosa se impõe e torna exigida a manifestação cabal de todas as instâncias do Estado Democrático de Direito. Nele, impossível admitir a passividade exalando odor de exagerada leniência e disfarçada cumplicidade, encontram-se os recursos e remédios, preventivos até, capazes de evitar o derramamento de sangue ao gosto dos necrófilos. Se seus caprichos, males do corpo e da alma precisam de novas mortes, que se contentem com as quase 700.000 que ajudaram a covid-19 a produzir. Se há os que sonham com a guerra fratricida, outros o há que crêem possível construir uma sociedade justa e fraterna. É ao lado destes que se coloca a maioria dos brasileiros, a despeito da violência e do vasto elenco de crimes posto a serviço do ódio.

 
 
 

Recebo a visita de amigos residentes em Estado do Sul. Moraram durante algum tempo em Manaus, procedentes do Sudeste onde nasceram. Vieram de Belém, com rápida passagem e permanência em Alter-do-chão, que os profissionais do turismo vendem como o Caribe da Amazônia. Chama a atenção deles a expansão territorial da capital amazonense, de que nunca se aperceberam quando aqui moravam. Pensavam-na menor que Belém, inadvertidos de que a antiga metrópole da Amazônia é há muito tempo uma cidade sitiada pelas forças armadas de seu próprio país. Era como a qualificava um jornalista paraense, ao lembrar que os pontos extremos da cidade eram e ainda são ocupados por quartéis ou instalações das três armas. Da Marinha, um quartel chamado Arsenal de Marinha, no bairro da Cidade Velha; o território que se estende até o distrito de Icoaracy tem seu trajeto interrompido pelas instalações da Aeronáutica, com a base aérea, residências militares e outras dependências, quando não pelas construções e diques do Distrito Naval; em direção à BR-316, na principal avenida do bairro do Marco, a maior unidade da tropa, hoje chamada 2º BIS - Batalhão de Infantaria da Selva. A tal ponto os visitantes se surpreenderam, sem desdenhar, contudo, do quanto terá a economia da zona franca influenciado nas alterações só agora percebida por eles na paisagem e na vida em Manaus. Todos se mostraram surpresos com o resultado das eleições presidenciais na capital amazonense, que sabiam ter-se tornado em uma semana o epicentro da pandemia em escala mundial. Mais perplexos se mostraram, quando alertados para o permanente esforço que o atual (des)governo faz para desmantelar a zona franca, mesmo depois de ela se ter transformado, não sem certa ufania tola, no pomposo Polo Industrial de Manaus, PIM. A perplexidade com certos sinais de revolta e indignação certamente terá sido maior que a sentida pelos que acompanham amiúde os fatos e condutas de lideranças locais, dentre as quais é fácil identificar verdadeiros defensores de interesses que nada têm a ver com as necessidades dos habitantes, da capital e do interior do Amazonas. Da Região, inclusive, porque a área de influência da ZFM ou PIM não se restringe à capital de um Estado. Não haveria argumento que os fizesse longe de admitir Manaus como um dos lugares em que mais se registram fenômenos semelhantes ao que se chama Síndrome de Estocolmo. Depreciando os pobres, as mulheres e favelados, houve tempo em que se dizia que quem gosta de apanhar é mulher de malandro. Certa parte da elite brasileira, porém, se não perde os trocados que lhe caem nos bolsos, também rende homenagens e faz rapapés aos que lhes impõem sofrimento.

 
 
 
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