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Qualquer fenômeno observado segundo ponto de vista rígido e submisso a interesses do próprio observador está fadado a valer nada. A articulação do fenômeno em causa com o contexto mais amplo em que se insere e as relações com outros pontos, vizinhos ou remotos, é que dará sentido à analise e permitirá avaliação adequada de seu impacto social. No caso da sociedade, mais que na vida privada, essa percepção do mundo de ponto de vista tão paupérrimo acaba por causar danos a quase todos. A todos, nunca, porque sempre haverá os beneficiários do que os ingênuos pensam erro ou equívoco involuntário. Exemplo mais que transparente do mal que está contido no tratamento dos fenômenos sociais sob a óptica mencionada pode ser encontrado na conduta do (des)governo estertorante, ao colocar sob o pesado manto do sigilo tudo o que contém ações criminosas cometidas por seus integrantes. Os sucessivos decretos de sigilo assinados pelo Presidente em fim de mandato seriam previsíveis, fôssemos mais atentos na observação dos fatos. Quem é hostil ao conhecimento e faz da ignorância marca e estilo de uma (indi)gestão administrativa não se peja de tornar segredo o que é essencial ao que se chama república. Se a coisa (res, em latim) é pública, por que ocultá-la? Foi porém, o que não cansou de fazer o quase ex-Presidente, ao longo desses anos de vexame por que passaram 215 milhões de brasileiros, respeitadas as exceções. Essa obsessão por tornar segredo o que a moral, as leis e a Constituição condenam, mas mesmo assim foi praticado, corresponde ao ódio à Ciência. Esta, sabe qualquer semialfabetizado, produz conhecimento e é graças a ela que novos padrões de civilização têm sido experimentados ao longo dos séculos. O contrário dela é a ignorância, em muitos casos justificada pela privação de oportunidade a extensas camadas da população. Então, o sentimento de qualquer pessoa interessada na sua e na vida de seus contemporâneos - a curiosidade - acaba por ser tolhido, agredido, impedido, punido até. O que justificaria ocultar atos e decisões atinentes à vida pública e aos legítimos interesses dos cidadãos, a não ser o desejo de prejudicar a república, o público e o Estado Democrático de Direito?

 
 
 

Sempre que se fala em combater a desigualdade aparece quem, honesta ou desonestamente, lembre que nascemos desiguais. Por isso, deveremos manter tal situação, de que a distribuição da riqueza é o ápice do fenômeno. Sobretudo entre nós, nação onde a elite inspirada pelo mais abjeto egoísmo sempre acha forma de dizer que o valor mais alto é o dinheiro. E tudo o que ele pode comprar. Evidente que os defensores da igualdade, longe de imaginar possível superar as marcas do DNA herdado, referem-se à desigualdade produzida pelas relações humanas. Não está em jogo o homem enquanto animal, produto biológico, nada além disso. Mas a sociedade humana, produto dessas relações, será tanto mais propícia à justeza e justiça do adjetivo - humana -, quanto mais ela se mostrar capaz de buscar a igualdade. De resto, herança datada de pelo menos 333 anos, como se vê no lema da Revolução Burguesa - liberdade, igualdade e fraternidade. Os três últimos séculos, ao contrário, têm dado destaque à desigualdade, geradora de riqueza para uns poucos e fome e sofrimento para a grande maioria. É disso que nos dão conta as notícias diárias, aqui e alhures. O que têm pedido os defensores da humanidade - os outros, embora fazendo parte dela teriam muita dificuldade para mostrar-se humanos - é a garantia de oportunidade que a nenhum dos humanos deve ser negada. Como numa corrida de rua, todos iniciariam sua trajetória no mesmo ponto. Certamente, outros fatores que não os sociais, impediriam a conclusão da corrida, com todos tocando a fita final. Aí, não há como desconsiderar os fatores genéticos, como se sabe em grande medida interferentes na saúde das pessoas. Mas só eles podem ser admitidos, enquanto ainda não se conhece tudo quanto, trazido desde o berço, pode influenciar a vida das pessoas. Uns hão de viver mais, outros menos. Isso, porém, não autoriza nem dispensa a sociedade de tentar manter vivos todos os que dela fazem parte. É certo que haverá o dia em que todos estaremos mortos, uns mais cedo que outros; alguns devido a causas que são diferentes das que levaram os outros à morte. O importante é tentarmos reduzir as desigualdades que fazem com que muitos morram prematuramente, pela falta de oxigênio em um hospital ou a falta de comida no prato. Em especial, quando alguns se empanturram e sua doença decorre da gula, temperada pelo desprezo ao sofrimento alheio. Observe-se que a sociedade contemporânea sequer nos poupa de saber que alguns comem carne polvilhada de ouro, ao mesmo tempo em que outros chupam um osso descarnado. Se alguém acha isso um bom sinal, ou encontra qualquer - mais frágil que seja - justificativa, o mal é produzido pelo egoísta e a sociedade que o tolera e estimula. Por isso, não vejo vício ou defeito maior que o egoísmo. Por definição, ele representa tudo o que se opõe ao interesse e aos direitos do outro.

 
 
 

A Globo News iniciou ontem a série de programas chamada Central da Transição. Como o nome indica, trata-se do encontro de uma bancada de jornalistas do canal com personalidades da política brasileira. Destina-se a cobrir o período anterior à posse do Tripresidente eleito em outubro e a construção da equipe que levará ao Planalto. Inaugurou a série o Vice-presidente eleito Geraldo Alckmin. Bem-humorado, divertido até, o ex-governador paulista mostrou-se perfeitamente integrado aos propósitos do Tripresidente com o qual será empossado no primeiro dia de 2023. Essa uma primeira - e quem sabe duradoura - impressão. Não à toa, Alckmin repetiu frase muito utilizada nos bastidores e sob o clarão dos holofotes da política, celebrizada por um dos mais ferrenhos defensores da ditadura de 1964: o futuro a Deus pertence. Disse-a, naquela oportunidade, o Ministro da Justiça Armando Falcão. Nada demais, quando se recorda da profissão de fé católica do recém-eleito vice de Lula. Indica, além disso, que para ele não há questão fechada, antes que o tema a que se relaciona seja ampla e exaustivamente discutido. Como ele mesmo afiança que ocorre com Lula, cujas virtudes ele não cansou de cobrir de elogios. Há a acrescentar a confirmação de que os primeiros dias do próximo governo serão dedicados ao revogaço, nome que os próprios media dão ao conjunto de decisões que porão abaixo o armamento da população e o lençol de segredos que cobrem as bandalheiras praticadas pelo (des)governo moribundo. Outros mais, certamente, serão alvo dessas providências. Ao mesmo tempo, vê-se em Alckmin extraordinária adesão ao programa que Lula deverá executar, nos quatro anos de um mandato que seu próprio vice põe em dúvida se será o último. Nesse caso, o uso da expressão timbrada pelo ministro da ditadura serviu para nem confirmar nem negar a probabilidade de o cabeça de chapa postular por novo mandato. Deus, então, foi feito substituto dos apoiadores do Tripresidente e do TSE. Deplorando a profusão de legendas, a seu entender complicadora do processo político e do desempenho dos governantes, Alckmin parece imaginar que a união dos agentes políticos em torno de programas e ideias seria o mais adequado. Só isso removeria os empecilhos que o centrão previsivelmente oporá ao bom exercício do Executivo, nos próximos quatro anos. Em que pesem as lacunas e os vieses que costumam intrometer-se em encontros como o de ontem, as palavras de Alckmin podem dar mais tranquilidade aos brasileiros. Mesmo àqueles que reclamam pela punição exemplar dos democraticidas em ação, estejam dentro ou fora dos quartéis.


 
 
 
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