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A trajetória do homem que forçou dividir a História Universal segundo a presumível data de seu nascimento, não obstante distanciada do acontecimento conhecido pela narrativa de terceiros, se não se reproduz, guarda traços que vêm desde antes dele. À caminhada dos primeiros treze anunciando um mundo novo, porque novos seriam os homens a partir de sua pregação, seguiu-se a jornada sem fim. Decorridos mais de dois milênios, não se consumou a sociedade proclamada e reclamada, não sendo raro que a cruz de madeira em que foi sacrificado o líder daquele pequeno grupo se apresente sob formas novas, todas elas destinadas a produzir os mesmos efeitos aos que se submeteu o andarilho de Nazaré. O Holocausto de que foram vítimas os judeus, ainda nem se apagou (oxalá nunca se apague!), outras formas de extermínio são inventadas, sob os mais torpes pretextos. A igualdade cuja busca resultou na crucificação não foi alcançada, não sendo rara a invenção de novas formas de aproveitar a palavra dos evangelistas como argumento persuasivo de que o objetivo mais legítimo é a desigualdade. Por isso, a exploração desenfreada praticada em supostos templos de sagrada adoração. A realidade vivida pelos contemporâneos desmente os propósitos hipocritamente declarados, a justificar a certeza de que todos os ouvidos são moucos e todos os corações endureceram. Amanhã não estarão à mesa, como tantas vezes estiveram Jesus de Nazaré e seus companheiros, por onde quer que passassem, festejando a Vida e dando graças por tê-la respeitada e engrandecida. No Brasil, pelo menos algumas dezenas de milhões de seres humanos permanecerão na fome a que os condenaram os poucos que exploram seu trabalho, desprezam suas necessidades e zombam do sacrifício que constitui sua passagem, aí, sim, pelo vale de lágrimas tantas vezes mencionado. Há, na mesa brasileira do Natal deste ano, se não o alimento adquirido à custa de muito suor, lágrimas e sangue derramados, ingrediente sem o qual dificilmente serão superadas as carências e vencidas as vicissitudes tão cuidadosamente planejadas - a Esperança. Saibamos partilhar dela e envolver-nos todos, cada qual da melhor forma como possa fazê-lo, para que um dia que não demorará a mesa seja farta. Ao menos ao ponto de não deixar morrer pela inanição ou pela morte prematura, provocada pela ação dos malfeitores bem ou mal postados ou como resultado de males a que o próprio poder se associa, milhões de seres humanos, em todos os lugares do Mundo. Felizmente, desde outubro os brasileiros podem sentir quanto vale alimentar-se de Esperança. E a ela emprestar a mão amiga e o coração fraterno.

 
 
 

O blog editado pelo Coronel Siqueira discordou da revista norte-americana Times, ao conceder o título de personalidade do ano ao títere da Ucrânia. Para o influenciador, Zelensky merece menos que o quase ex-Presidente brasileiro. Este - afirma o blogueiro - acabou com um Estado sem precisar disparar um só tiro. Uma das últimas ações desse processo foi a extinção da Comissão que tratava de localizar corpos desaparecidos de mortos pela ditadura, nada menos que a reiteração de confissões antes ouvidas a respeito do grau de violência. Muito mais poderia ser acrescentado, não fosse o farto noticiário sobre o assunto. Se o desejo fosse o de resumir o texto, bastaria mencionar as perdas decorrentes dos cortes orçamentários que afetaram setores essenciais e prioritários da administração pública. Entre idas e vindas, decisões e recuos (na linguagem dos quartéis, chama-se última forma) não restauram a confiança e os meios indispensáveis à prestação dos serviços à população. Saúde, educação e habitação, por exemplo, foram setores duramente atingidos. A tal ponto, que ficou mais grave ainda a situação antes critica e precária em que operavam as universidades públicas e o Sistema Único de Saúde. Respeitado em todo o Mundo, destacado como dos mais exitosos sistemas de saúde pública em funcionamento, o SUS na verdade tem sido combatido pelo atual (des)governo. É, todavia, apenas um ponto no programa de terra arrasada posto em execução desde o início do atual mandato, acelerado e expandido, à medida em que o despejo do Palácio do Planalto se aproxima. Nada é tão sólido que não se desmanche no ar. Nem há mal que sempre dure, nem bem que se eternize. O prazo de duração sempre é escolha da sociedade. Por isso, mais de 60 milhões já disseram o que querem, segundo o que prescreve a Constituição Federal dita cidadã. Respeitar o resultado das urnas não é trivial, mas imposição do próprio Estado Democrático de Direito.

 
 
 

Faz algum tempo, percebi que muitas das ideias e propostas do PT-raiz se foram alterando, razão suficiente para descaracterizar a tarja de extrema esquerda a que a sigla aspirava. Isso, longe de me fazer crítico irracional ou adversário destemido ou, ainda, inimigo figadal da legenda e de todos os seus membros, trouxe-me às considerações ora registradas. Reiteradamente agredido por alguns petistas de berço, nenhum peso teve esse fato no acompanhamento da trajetória do Partido, nem me levou à desqualificação dos que o integram. Ao contrário, penso ter alcançado nível de discernimento capaz de entender melhor o processo político e seus protagonistas, partidos e lideranças. Talvez me venha ajudando a leitura de uma obra em que as vicissitudes do socialismo soviético são relatadas, com o sacrifício de muitos dos melhores quadros que o PC da URSS conquistara. Falo dos primeiros 40 anos do século passado, quando o comunismo de Stalin produzia mortos e, pior que isso, desesperança. a tal ponto, que foi utilizada a expressão realpolitik para denominar tais práticas. Sem qualquer intenção professoral, entendo que a expressão decorre da busca de ajustamento entre a ideologia original às condições reais em que ela opera. A realidade prevalecendo sobre os propósitos e mantendo no chão os pés dos que sonham. Ou seja, o estabelecimento dos limites em que os valores, propósitos e projetos serão implantados. É verdade que o lema o mundo marcha para o socialismo parece superado, desde a simbólica derrubada do muro de Berlim. Hoje, já se sabe ser a Rússia, a mais poderosa das nações da antiga URSS, nada menos que um promotor e defensor do capitalismo de Estado. Condição que também pode ser atribuída à China, cada qual guardando algumas peculiaridades. A palavra inventada no século XIX foi lembrada por um comentarista político da televisão e despertou em mim interesse pelo tema. O Partido dos Trabalhadores pouco tem, hoje, que possa relacionar seu projeto ao cada dia mais esquecido socialismo. Chamá-lo de extrema esquerda é despropósito que só a ignorância ou a desonestidade justificaria. Os dois governos de Lula e o governo de Dilma Russeff dizem disso, fato inconteste que nem mesmo o Tripresidente se esforça por desmentir. Absolutamente obedientes aos preceitos fundamentais do capitalismo, o que ambos fizeram foi avançar na proteção dos mais pobres, onde está a força de trabalho que permite manter o processo de acumulação com exagerada concentração da riqueza. Lula se tem gabado disso, e não é sem razão. Estaríamos mais próximos da verdade, a meu juízo, se atribuíssemos aos governos do PT certo tom social-democrata. Sem destruir com vigor, tornando impossível a restauração, o processo de acumulação iníquo pretende tornar menor a desigualdade, em especial por aumentar a capacidade aquisitiva de todas as camadas da população. O que seria consumar um dos maiores e permanentes sonhos do capital: ter sempre mais gente adquirindo os produtos que os capitalistas produzem. Consumar, portanto, o sonho de consumo da população. Sem alterar as relações sociais que produzem e espalham a desigualdade, mundo afora. Isso nada tem de socialismo. De comunismo, menos ainda.

 
 
 
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