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Atualizado: 15 de jan. de 2023

Morrer, se necessário for; matar, nunca mais. Essa frase, que sintetiza o pensamento e a ação do Marechal Cândido Rondon, parece esquecida pela maioria de seus sucessores na caserna. Se a palavra sucessores não é forçada, tamanha a distância entre a visão de Mundo/mundo do criador do Serviço de Proteção dos Índios e os que hoje ocupam e trabalham nos quartéis. Talvez por essa diferente circunstância, captei na cerimônia de posse de Sônia Guajajara, no Ministério dos Povos Tradicionais, expressiva e simbólica homenagem àquele digno e humano militar. Morto em 1958, Rondon deixa marcas na História do Brasil, caracterizadas por traços de personalidade que o tornaram distante, tanto dos profissionais das ciências exatas, quanto dos profissionais das armas. Engenheiro, foi dele o primeiro olhar conscientemente humano dirigido ao habitante original do País, seus costumes, sua vida, seu peculiar modo de relacionar-se com a natureza. Diferente também dos que fizeram da caserna seu lugar de trabalho, o militar matogrossense preferiu a função de pacificador que a de guerreiro. Essa a razão por que não se esperaria dele deixar-se trair pela errônea convicção de que o desejo de matar é o único que leva os jovens aos quartéis. Neste particular aspecto, Rondon foi poupado de assistir tal confissão de um colega de outra època, distante mais de meio sèculo da dele mesmo, protetor dos irmãos originários. Cabe agora à primeira ocupante do principal gabinete do MPO mostrar a possibilidade plena de cumprir e fazer cumprir a máxima que imortalizou o marechal nascido em Mato Grosso (1965)e morto no Rio de Janeiro, 93 anos depois.

 
 
 
O de que mais se ouve falar, hoje, é em inteligência. A palavra, posta em circulação intensa desde que se acrescentou o emocional para qualificar um conjunto de suas acepções, não demorou a ganhar outras conotações. Artificial ela acrescentou, quando percebida a possibilidade de reproduzir artefatos capazes de desempenhar algumas das funções do cérebro humano. Ganhou espaço, nos meios científicos, tecnológicos e políticos, a conotação hoje presente sobretudo nos que se preocupam com o conhecimento e a produção de ciência. Nesse novo conceito inclui-se a busca e análise de informações úteis à formulação de políticas públicas dos mais diversos setores. A inteligência, em seu mais tradicional conceito, perdeu espaço e conteúdo. Basta olhar os que se pensam inteligentes e nem percebem que mesmo a esperteza não impede os outros de vê-los carentes da velha e admirada inteligência. Esta é palavra que não combina com asnice e imbecilidade.

 
 
 

Um dos vocábulos mais marcantes dos discursos inaugurais do trigoverno de Lula foi União. A outra, Reconstrução. Esta, possível só se alcançada a primeira. O período do qual resultou a terra arrasada que constitui a herança deixada pelo desgoverno anterior, segundo o registrado no relatório da Comissão de Transição, não exige menos que um esforço de reconstrução, como prioridade. Dado o ambiente político polarizado, que o aparentemente apertado resultado das urnas pode sugerir, a tarefa reconstrutiva parecia dificílima. Antes de tudo, é preciso esclarecer porque a aparência dos números das eleiçoes pode não dizer tudo. Basta mencionar um dos muitos crimes eleitorais cometidos pelo ex-Presidente fujão, para pôr em dúvida o acerto da expressão apertado. Refiro-me ao bloqueio de rodovias e o consequente impedimento de expressivo número de eleitores nordestinos chegar à sua respectiva seção eleitoral. No último domingo, porém, a união de que Lula falou lhe foi servida na bandeja. Não por uma Salomé qualquer, mas por seus adversários, tocados pelo ódio e por outros maus sentimentos ou instintos. Um destes, o de preservação, está presente no instigador principal dos atos de vandalismo praticados contra a democracia, na capital federal. Afinal, o mandato buscado era menos que o apetite pelo poder, que a necessidade de proteger-se contra a necessária persecução legal, pelo rol de crimes cometidos enquanto Presidente. Graças às mais recentes ameaças contra a democracia, Lula conseguiu unir os poderes republicanos e todos os demais integrantes da União, na trincheira de defesa do Estado Democrático de Direito. Os principais protagonistas políticos jamais demonstraram tanto vigor e disposição democrática ou sentimento de união, quanto o fizeram na segunda-feira, 9 de janeiro de 2023.

 
 
 
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