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Seria eu o último a esperar que o mérito medido pela conta bancária ou o patrimônio material pudesse levar a bons resultado. Porque, agnóstico, repercute em meus ouvidos e se instalou em minha mente a sentença de Basílio, feito santo depois de exercer o bispado na Antióquia. Coisas dos quatro primeiros séculos dos tempos iniciados numa cruz. "O dinheiro é o esterco da sociedade", dizia o religioso. A vida me ensinou, cada dia um pouco mais. Por isso, causa-me nenhuma estranheza a pouca atenção dada pelos mais influentes meios de comunicação à peregrinação do Papa Francisco, não importa o continente para o qual se desloca. Em sua mais recente viagem, o Papa dos Pobres celebrou missa para cerca de um milhão de pessoas. Estou quase certo de que nem todas eram ovelhas do rebanho conduzido pelo cardeal Jorge Bergoglio. Mesmo dirigindo um pequeníssimo estado, a Igreja posta sob seu báculo é a que tem mais fiéis, Mundo afora. Pela primeira condição, a de Chefe de Estado, seria razoável exigir que os meios de comunicação lhe dessem a atenção que dispensam a outros dos seus colegas, inclusive os genocidas espalhados nos cinco continentes. Não é isso o que ocorre. Talvez porque a paz proclamada como objetivo da Vida não interesse aos que fazem da informação e sua disseminação bem e serviço como outro qualquer, o esterco por exemplo, para lembrar São Basílio. No entanto, na 41a. viagem, a países africanos, o Papa reiterou a grandeza de sua missão, adequando-a e atualizando-a, de modo a propagar as vantagens de uma Vida que se torne rica e melhor, porque melhores os que participam da sociedade. O que os milhões dos que acolheram e ouviram Bergoglio, em momentos diferentes, não agrada aos que adubam interesses que só por força de expressão ou hipocrisia podem ser chamados humanos. Por isso, o Papa fica invisível.

 
 
 

Pela própria natureza do ato, não se fosse esperar do Presidente norte-americano um discurso muito diferente do que ele pronunciou, na última terça-feira, diante das duas casas do Parlamento de seu país. Nem os analistas, capacitados ou apenas aspirantes a essa condição, deixaram de dar seu pitaco. Como eu mesmo a dou agora. Há quase unanimidade, pelo menos dentre os que li e ouvi, quanto a ter sido aquele o momento inaugural da campanha eleitoral de 2024, em que Joe Biden postulará a renovação de seu mandato. Também se aproxima a avaliação dos comentaristas, em relação ao conteúdo do discurso. Não falta quem o tenha visto como a revelação das preocupações presidenciais, voltadas mais para o público interno (os eleitores, claro!), que para os grandes temas internacionais. Só de raspão, e com poucas palavras, o democrata citou a Rússia, a China, a Venezuela, Cuba e a Nicarágua. Também ficou evidente a tendência populista do Presidente da nação mais rica e mais belicosa do Mundo, a despeito de esse ser vício geralmente atribuído às consideradas republiquetas de banana. Para enfeitar, ainda que de maneira mórbida, o auditório, os convidados especiais foram os pais de Tyre Nichols, que a polícia norte-americana matou por uma simples infração de trânsito, a embaixadora da Ucrânia nos Estados Unidos da América do Norte e representantes de outros setores da sociedade norte-americana. Jamais se esperaria faltarem trabalhadores e veteranos no rol dos homenageados. Estes também estavam lá. A permanente disposição de aplaudir de pé passagens importantes do discurso presidencial não motivou apenas os correligionários de Biden. Os republicanos também o fizeram, não se sabe com que grau de adesão às palavras e propostas do opositor. Somente em um momento o fervor republicano pareceu esmaecido: quando o orador se referiu à obrigação de os ricos contribuírem mais que os outros para a arrecadação do País. Nesse ponto, as palavras foram eloquentes e aparentemente sinceras. O ocupante da Casa Branca disse, sem mesuras ou eufemismos, que capitalismo sem competição é extorsão. Embora haja exagero se se disser que isso mudará muita coisa, fazendo de Biden o ponto de inflexão do capitalismo para um sistema econômico menos injusto e predatório, tantos são os absurdos característicos destes tempos, que a hipótese não pode ser totalmente descartada. Neste caso, porque o orador não escondeu ser fiel ao capitalismo, mas achar incompreensível que os seiscentos mil biliardários que se transformaram em um milhão deles ofereçam aos cofres públicos contribuição menor que a do resto dos contribuintes. Seria um bom começo, se desejamos alimentar esperanças felizmente tão próximas da utopia. Esta, presente desde o primeiro desenho do helicóptero feito por Leonardo da Vinci. E, não custa lembrar, meio de transporte que corta os céus de Tóquio, São Paulo e de Nova Iorque, para ficar apenas no exemplo mais atual da desigualdade de que o capitalismo se alimenta. Impossível esquecer também o que lembrou Biden sobre a democracia, sem a qual quase nada pode ser feito. Como conciliar democracia com capitalismo é fórmula que ele fica a dever.

 
 
 

É preciso ficar de uma vez por todas esclarecido quem é o detentor da soberania, numa república correspondente a um Estado Democrático de Direito. Se o Estado é de fato democrático, os que o governam hão de colocar acima de tudo o interesse da maioria, a que se chama povo. Essa é exigência indispensável, consagrada no mais importante diploma jurídico, chamado Constituição. Também na Lei Maior é consagrada a soberania nacional, razão suficiente para considerar obra de teratologia política torná-la subordinada a um estabelecimento financeiro. A soberania do Banco Central, colocado acima da própria União, mais que um constrangimento é um atentado contra o Estado, além de dirigir suas decisões ao benefício de um setor específico da sociedade. Neste caso, aquela entidade que passa por etérea, tem CNPJ e endereços conhecidos. Em seu conjunto, o tal mercado constitui-se dos rentistas, cujos interesses nada têm a ver com os interesses e sonhos da maioria da população, sabidamente pobre. Ao contrário, a depender dessa ínfima proporção da população brasileira, serão definitivamente apagadas a ideia e a exigência de responsabilidade social a que deverão submeter-se os dirigentes escolhidos para governar a nação. Pergunte-se aos que não comem pela mão dos controladores do mercado, quais os resultados da soberania do Banco Central, desde que ela foi estabelecida. Ao que se pode ver a olho nu, sem firula econômica ou falsificação, foi o aumento da pobreza e da miséria, de que o retorno de milhões de fsmílias àf ome e à insegurança alimentar é o mais trágico exemplo.

 
 
 
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