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Até certo ponto compreensível, a reação de alguns poucos países europeus ao acordo EU-Mercosul constitui apenas a revelação de um movimento extemporâneo. Pior, reacionário, se entendermos o processo de globalização como ele se tem apresentado. É compreensível que os poloneses, sobretudo os trabalhadores, se vejam ameaçados. Como ele, em todos os continentes têm chegado políticas nocivas à saúde e à vida dos que a ganham à custa do seu próprio trabalho. A financeirização global tem servido a esse propósito, cujo retrato mais transparente é a redução dos postos de trabalho, quando não a atribuição a esse fator (que os acumuladores veem como exclusiva oportunidade de aumentar suas fabulosas e improdutivas fortunas) de características muito próximas à escravidão. Sem que disso resulte, como se tem visto, melhor distribuição da riqueza e exploração inteligente dos bens naturais. O resultado está a frente de todos – os que desejam ver e viver num mundo melhor. Enquanto avança a precarização do trabalho humano, cresce a acumulação, tanto quanto maior se torna o risco de extinguir o Planeta. Neste caso, pela via do esgotamento dos recursos naturais indispensável à vida humana e pela necessidade de oprimir povos, destruir sua História e suas instituições, de que o conflito armado é o mais importante condutor. Nações e líderes que se pretenderam donos do Mundo já o fizeram no passado, quando a globalização sequer se tinha iniciado. Pelo menos, como ela tem sido descrita, interpretada e utilizada, atualmente. Desde que a primeira horda soube da existência de outra, é aí que começa o movimento que os franceses desta época chamam mundialização. A noção de Mundo, portanto, é tão antiga quanto o primeiro encontro entre habitantes de dois territórios diferentes. Em cada momento, a qualificação do processo sendo vinculada a novas formas de relacionamento entre os seres humanos. Desde muito tempo (e as grandes navegações o dizem), o espaço-Mundo tem sido alterado, sob o estímulo da acumulação advinda do mercantilismo. Deu no que se está testemunhando: crescente acumulação de capital, correspondente à desigualdade obscena que só tende a aumentar. A guerra passa a ser, então, um serviçal desse processo, ao ponto de ser encarada como algo necessário e instrumento a que se devem submeter as nações mais fracas. Pensar em outra forma de produção e de distribuição da riqueza produzida é levar a imaginação longe demais, para os que acumulam. O raciocínio deles parece igual ao dos faraós, que levavam parte de sua riqueza consigo, quando retornavam ao pó. Apenas um sinal de reacionarismo, uma volta à barbárie. Só que, desta vez, feita sob o mais rigoroso culto à tecnologia. Como se quebrar pedras com martelos de pedra não fosse um dia no passado, tecnologia também.

 
 
 

Acabei de convencer-me de que o soluço não é mal que agrida apenas o organismo humano. Ou de outros animais, muitos deles aparentemente oriundos da evolução dos símios. A vontade humana também está sujeita a esse incômodo, muitas vezes utilizado para satisfazer visões de mundo inadequadas, irreconcilíáveis com o bom senso e a suposta superioridade em relação aos outros seres da natureza. Hoje, os homens decidem por X, sob variadas justificativas e pretextos, para logo adiante negarem validade às mesmas bases, ainda que nada se tenha alterado na ordem das coisas. É bem o caso da pressão que Donald Trump vem fazendo sobre o FED, o sagrado e cultuado banco central dos Estados Unidos da América do Norte. Lá, como em quase todas as nações que o ditador norte-americano considera seu quintal, a tal agência reguladora do sistema de mercado constituiu-se em poder acima dos que Charles de Secondat (o barão de Montesquieu) propôs. Fo tão longe o desejo de fazer do estado não mais que um serviçal dos interesses do capital, que é dos bancos centrais que vêm as mais graves ameaças contra a execução de um programa de governo que o eleitorado escolheu. Manda mais o Presidente do Banco Central que o Presidente da República. Esse foi tema de muito debate, não faz muito tempo, entre nós. Acabou que a maioria do Congresso Nacional ofereceu aos mais ricos o direito de estabelecer limites ao sonho desenvolvimentista, em benefício dos que sempre ganharam e não admitem sequer a perda de um centavo, seja qual for o negócio, sejam quais forem as carências da maioria das populações. Agora, o belicoso ditador de Tio Sam investe contra o FED, porque o vê como estorvo aos seus maus propósitos e o considera desviado da promessa de sempre defender os interesses dos rentistas. Trump identifica no banco resistência ilegítima, sobretudo porque não são os interesses da nação norte-americana que o inspiram, mas seus próprios negócios. Daí não ter nenhum decoro, ao investir contra o FED. Apenas mais um dos vários tópicos que revelam a íntima relação do capitalismo com a crise. Sem esta, teríamos a nudez do rei posta à vista de todos.

 
 
 

Agradeçamos o gesto do que os media chamam parte do setor produtivo. Por enquanto, o envolvimento de representantes desse setor em todo ato de corrupção conhecido não tem sido levado na sua devida conta. Sabe-se de magistrados compulsoriamente aposentados, ainda que de forma que sugere mais a premiação que o apenamento. Sabe-se, também, da cassação de mandatos parlamentares e da demissão de servidores públicos comprovadamente envolvidos nas mais variadas e criativas formas de corrupção. Só agora, porém, se sabe de um gesto do segmento com que convivem os corruptores, até aqui sempre deslembrados, por mais rigorosa que seja a investigação. Ignora-se, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de qualquer deles que tenha sido excluído dos órgãos em que têm registro e assento, embora influentes nas decisões oficiais. Se a participação nas decisões governamentais – o que implica dizer, no Legislativo e no Executivo – é saudável e própria da república e da democracia, a contumácia com que praticam ilegalidades deve merecer a mesma repressão sofrida por outro tipo de marginais. O que essa parte citada pelos media deseja é ver punidos os que fazem da sonegação e crimes assemelhados uma forma de acumulação tão lesiva quanto o é a exploração do trabalho alheio, concomitante com a omissão nas obrigações fiscais e tributárias. É corrente nos meios empresariais a sentença: a primeira resposta às dificuldades financeiras é o descumprimento das obrigações tributárias e fiscais. Isso tudo, quando se exaltam e proclamam as virtudes da gestão racional dos negócios, com a intenção desonesta de gerar impressão negativa da administração pública. Nada mais, nada menos que criar ambiente hostil a iniciativas destinadas a beneficiar a coletividade, sobretudo as camadas mais pobres da população. As que pouco têm a oferecer aos sonegadores. Se eles são contumazes, então a reincidência é prática rotineira, o que bastaria para pesar a mão do estado, como resposta. De qualquer maneira, soa alvissareiro o anúncio de que parte, menor que seja, desses aventureiros que rejeitam o risco, sempre conseguindo transferir seus raros prejuízos a terceiros aos quais prometem o céu na Terra, deseja ver punidos os sonegadores.

 
 
 
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