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Soluços sem solução

Acabei de convencer-me de que o soluço não é mal que agrida apenas o organismo humano. Ou de outros animais, muitos deles aparentemente oriundos da evolução dos símios. A vontade humana também está sujeita a esse incômodo, muitas vezes utilizado para satisfazer visões de mundo inadequadas, irreconcilíáveis com o bom senso e a suposta superioridade em relação aos outros seres da natureza. Hoje, os homens decidem por X, sob variadas justificativas e pretextos, para logo adiante negarem validade às mesmas bases, ainda que nada se tenha alterado na ordem das coisas. É bem o caso da pressão que Donald Trump vem fazendo sobre o FED, o sagrado e cultuado banco central dos Estados Unidos da América do Norte. Lá, como em quase todas as nações que o ditador norte-americano considera seu quintal, a tal agência reguladora do sistema de mercado constituiu-se em poder acima dos que Charles de Secondat (o barão de Montesquieu) propôs. Fo tão longe o desejo de fazer do estado não mais que um serviçal dos interesses do capital, que é dos bancos centrais que vêm as mais graves ameaças contra a execução de um programa de governo que o eleitorado escolheu. Manda mais o Presidente do Banco Central que o Presidente da República. Esse foi tema de muito debate, não faz muito tempo, entre nós. Acabou que a maioria do Congresso Nacional ofereceu aos mais ricos o direito de estabelecer limites ao sonho desenvolvimentista, em benefício dos que sempre ganharam e não admitem sequer a perda de um centavo, seja qual for o negócio, sejam quais forem as carências da maioria das populações. Agora, o belicoso ditador de Tio Sam investe contra o FED, porque o vê como estorvo aos seus maus propósitos e o considera desviado da promessa de sempre defender os interesses dos rentistas. Trump identifica no banco resistência ilegítima, sobretudo porque não são os interesses da nação norte-americana que o inspiram, mas seus próprios negócios. Daí não ter nenhum decoro, ao investir contra o FED. Apenas mais um dos vários tópicos que revelam a íntima relação do capitalismo com a crise. Sem esta, todos teriam a nudez do rei posta à vista de todos.

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