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O mais ignorante dos homens pode, ocasionalmente, fazer uso da ironia. Se a grande maioria deles se torna célebre pelas besteiras e grosserias proferidas, isso não anula a possibilidade de, por exceção, criar algo dotado de tanta ironia. É o caso de Donald Trump. Informa-se que ele gosta de presentear seus amigos e cúmplices com sapatos. E os dá sem considerar o número que calçam seus áulicos preferidos. Como sempre, segue seu caminho despido de qualquer senso ético e ofende os ouvidos dos que passam a calçar-se às custas dele, com frases dúbias. Tais frases, como de resto tudo quanto seu cérebro (?) produz, vêm recheadas de segundo sentido ou conteúdo destinado a confirmar a onipotência de que se julga dotado. Esse o simbolismo de sua expressão “quem calça sapatos tão pequenos também tem outras coisas pequenas”. Dois dos presenteados mais recentes foram seu vice Vance e seu Secretário de Estado, o lamentável Rubio. Há outros, o que torna difícil saber que corresponde, pela insinuação de Trump, ao bananinha que o bajula e idolatra. O gesto de dar sapatos aos que lhe rendem homenagem e servem traz simbolismo para o qual devemos atentar. Mesmo que haja comentários maldosos que dizem estar o soba norte-americano dando aos seus serviçais o papel de “Cinderelos”, é preciso especular um pouco mais. Faço-o, levando em conta os antecedentes e o autoritarismo de que Trump se orgulha, para interpretar e dar sentido à aparente generosidade do ditador louro. Pareço ouvir dele ou ler o que pode passar pela miserável cabeça que separa suas orelhas: eu lhes digo como e para onde andar. Talvez essa a razão pela qual muitos têm recebido sapatos maiores que os próprios pés. Há dificuldade de firmar-se em cima de pisante desproporcional. Pior é ver sorrindo e fazendo salamaleques os destinatários de tão irônico regalo.

 
 
 

A consumação do acordo entre o MercoSul e a União Europeia foi vista pelas lideranças empresariais brasileiras como passo importante no incremento das exportações e importações para aquele e daquele mercado. A maioria dos líderes das classes ditas produtivas manifestou suas esperanças, obviamente alimentadas pelo sonho de lucrar cada dia mais. Se o mal do lucro não se encontra nele mesmo, mas no uso que dele se tem feito, a hesitação que se vê nas mais recentes manifestações de representantes dos negócios mais lucrativos do Polo Industrial de Manaus - PIM traz, ao menos, certo sinal de desânimo. Inicialmente, alardeavam-se novas oportunidades de crescimento das exportações, com a conquista de mercados ainda não devidamente explorados. A forma como o governo brasileiro tornou praticamente nulo o tarifaço imposto por Donald Trump parecia animar o empresariado a fazer o mesmo - ir em busca de clientes fora do diminuto círculo para os quais eram mandados os produtos elaborados ou montados em Manaus. Ao invés de seguir a romaria de sempre, em busca de favores oficiais, pensava-se que a resposta do governo estimularia o setor produtivo a colocar suas atenção e energia no mesmo sentido. Com uma vantagem, a de se aproveitar dos recursos que rios, subsolo e floresta oferecem com abundância. O que representaria o aproveitamento de matérias-primas raras ou inexistentes em outros países. Parte dos lucros acumulados nestes quase 60 anos de zona franca bastariam para diversificar a produção, tanto quanto benefíciar as populações amazônicas, em razão da criação de empregos, do pagamento de salários dignos e da arrecadação de tributos. Nem se fale das divisas que entrariam por essa via. Esse, porém, parece sonho substituído pela cantilena de sempre, quase o anúncio de que em 2073 novamente estarão os que sucederem a minha e mais a seguinte gerações, empenhados em prorrogar a zona franca. Dê-se legitimidade aos que se opõem ao governo e desejavam vê-lo substituído. Esta, possibilidade direta e intimamente ligado à vigência da democracia. Quando, contudo, tal oposição prejudica o País e seu povo, aí não se está diante de um fenômeno democrático. Ao contrário disso. estamos frente à pior posição que o egoísmo cobra dos que o ostentam. Egoísmo e democracia, convenhamos, não rimam.

 
 
 

Colho de interessante exposição do meu amigo Helso do Carmo Ribeiro um comentário inspirador e, sobretudo, esclarecedor. No programa radiofônico de que ele participa (CBN, entre 09:00 e 09:30, Conversa de Política), o procurador cuida de esmiuçar certos temas aparentemente complicados para os que não costumam transitar na seara do Direito. Outros, por aversão à Lei e ao equilíbrio que o sistema legal em geral acode, quando ocorre de visitar essa área, quase sempre o fazem com a intenção de encontrar meio de fugir ao regramento exigido dos cidadãos. Mas não é dos fora-da-Lei que tratarei aqui, tanto me impactou o comentário de Helso. Discorrendo sobre o voto proporcional, em contraposição ao voto majoritário, ele usou seu conhecimento jurídico, tanto quanto sua habilidade e clareza verbal e proverbial: disse o que qualquer pessoa precisa saber, antes de escolher seus candidatos. O que mais me chamou a atenção, na manhã de 15 deste conturbado março, cujas águas fecham o verão e inundam de notícias sobre a aventura humana na Terra, dirigiu-se às impropriedades e despropósitos de nosso sistema jurídico. Sobretudo, as relações entre vários institutos diretamente vinculados à vontade do eleitor. Falando do voto proporcional, foi dito que ele é mais complexo que o voto majoritário. Se, neste caso, tudo se resume em comparar entre si a votação dos candidatos, é diferente, quando se trata do voto proporcional. Aqui, a quantidade de votos da legenda (partido político e os coletivos atrás do qual escondem sua fragilidade) tem enorme influência no resultado. Os votos de legenda determinam a quantidade de cadeiras conquistadas pelas siglas disputantes. Daí a possibilidade de alguém que tenha obtido um só voto, o dele mesmo, ganhar um mandato. O que significa dizer que puxadores de voto carregam consigo outros que o eleitor rejeita, quando não abomina e foge deles como o diabo do crucifixo. Textualmente, Helson do Carmo Ribeiro afirmou que o a cadeira no Poder Legislativo pertence ao partido, não ao portador do mandato. Aqui é que concentro minha reflexão. O comentarista remete, inevitavelmente, à questão da fidelidade partidária, inclusive à teratológica e monstruosa janela que estimula e cultiva os trânsfugas e oportunistas, no período eleitoral. Além de a filiação de qualquer indivíduo não exigir dele a defesa do programa partidário, a proporcionalidade oferece mais um benefício - a ele, interessado no mandato – e malefício ao eleitorado, que escolheu um e colocou outro na cadeira pretendida. Óbvio que há outras peças de malfadada ficção, na legislação eleitoral, uma delas a possibilidade de fortunas serem usadas para transformar capetas em anjos e ignorantes em sábios. O financiamento com dinheiro privado se presta a esse (mau) serviço. Assim, é fácil compreender por que magistrados recebem como punição de algum ato lesivo ao Direito benefício que a nenhum outro brasileiro é conferido – a aposentadoria remunerada, seja qual for o grau de gravidade do delito cometido. Que não traja apenas toga, diante da morte ficta, com que os mortos mais vivos que estão sobre a terra, se vestiram uniforme militar, tornam-se zumbis. Sim, a ficção de morte enquanto eles permanecem respirando, permite e autoriza que suas descendentes recebam uma pensão, outro dos benefícios de que nem todos os trabalhadores desfrutam. Obrigado, Helso, por me tornar menos ignorante!

 
 
 
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