top of page

O ambiente social no Planeta parece porfiar com o ambiente físico. Terremotos, tsunamis, deslizamentos, aquecimento, degelo, tudo isso concorre com o caos determinado pelos governantes, em países de todos os continentes. Já esquecidos de Nagasaki e Hiroshima, os líderes políticos produzem o caos e usam o ódio como expediente de suas respectivas administrações. A tal ponto, que não temem a extinção da sociedade humana. O que a gripe espanhola, a AIDS e a covid-19 não conseguiram, tanto quanto a peste bubônica séculos antes, esses exterminadores buscam realizar. Seja fomentando a hostilidade entre países vizinhos em outros continentes, seja participando diretamente nos conflitos armados entre países ou facções, não importa onde, o fato é que há um processo político e social que ameaça a Paz - mais que isso, a Vida - na Terra. Algo demasiado grave, para atribuir os riscos a eventuais e meros desvios de conduta. Loucos, definitivamente, Trump e seus sequazes não são. Criminosos, cheios de ódio e dolo é o que merecem ser considerados. Curioso, no cenário de tragédia a que nos vamos acostumando, é a normalização da guerra. Como se ela fosse um fato da natureza, não o mais terrível e trágico produto criado na e pela mente humana. Daí, portanto, o conceito de crime de guerra. Como se o conflito armado, ainda mais nas proporções em que se vai construindo, não fosse em si mesmo o maior de todos os crimes. Hediondo desde sua inspiração, dispensa toda e qualquer outra consideração, relativamente ao que os belicistas e brutos de todo grau chamam danos colaterais. Tal forma de observar e comentar a guerra corresponde, portanto, senão ao aplauso, à cumplicidade entre os que a promovem, beneficiam-se e ameaçam a Vida no (e do) Planeta.

 
 
 

Toda palavra está sujeita a alterações e interpretações, como toda a língua que a contém. Quem faz a língua é o povo, dizem os que entendem do assunto. Por que discordar deles, quando pouco sabemos do ofício? Nada, porém, que impeça certo estranhamento. Não como negativa das mudanças, para as quais não há território sagrado. Mas como abrir a oportunidade de encontrar, pelo menos para algumas delas, uma explicação razoável ou causa ponderável. Confesso, aqui, estranheza para o uso do verbo entregar. Tenho-o lido e ouvido, sobretudo, de politicos, autoridades públicas e empresários. Com relação a estes últimos, nada a reclamar. Ainda que muitos não entreguem o que prometeram (e por isso receberam a devida paga), é até admissível chamar a essa operação de delivery. Temos, apenas, que a entrega pronunciada por lideranças políticas e administradores públicos siga o mesmo caminho. Chegará o dia em que os entreguistas (como adequada e justamente os chamávamos) transfiram as riquezas, os potenciais e a dignidade dos brasileiros aos ávidos e gulosis patrões aos quais têm servido...patrioticamente.

 
 
 

Há várias formas de manifestar aquilo a que os estudiosos chamam servidão voluntária. Muitas vezes, movidos por ela, alguns que se proclamam defensores da liberdade acabam por revelar convicção e comportamento absolutamente vinculados à subserviência. Não sendo vítimas de patrões escravizadores, põem à disposição de outros agentes a subserviência que frequentemente os tem levado a posição de destaque na sociedade. Quando optam pelo desempenho de uma função pública, esperam a primeira oportunidade e o mais suave caminho, par revelar a conduta servil que simulam combater. O fanatismo, a ignorância, a prepotência, o interesse superlativo em bens materiais, a escassa apreensão dos que diz seus semelhantes, tudo isso pode servir de base para a negação do livre arbítrio. Se este é, de fato, um traço distintivo dos homens, dentre todos os animais. Quando Étienne de Boétie (1530-1563) criou o conceito de servidão voluntária, ele não seria capaz de pensar que cinco séculos depois suas ideias ainda estariam tão atuais. Pior, a ação deflagrada em 1789, com que seus pósteros estabeleceram uma nova fase na história universal, não impediu a submissão crescente de seres humanos às mais diversas formas de servidão. Curioso, no entanto, é observar quanto os prepotentes tentam fazer dos demais seus fiéis e obedientes seguidores, ao mesmo tempo em que servem a valores, ideias e bens que os tornam indivíduos servis. É bem o caso de uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Pará, capaz de afrontar Étienne de Boétie, fundando sua lamentável e despropositada manifestação. Diz a magistrada Eva Amaral Neves que, se reduzidos os exorbitantes penduricalhos remuneratórios, ela e seus colegas chegarão ao estado de escravização a que é submetida a maioria do povo brasileiro. Há, portanto, pessoas que são escravizadas. Outras escravizam-se por si mesmas.

 
 
 
bottom of page