- Professor Seráfico

- 10 de out.
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A Folha de São Paulo, edição de 04 de outubro passado, traz oportuno e interessante artigo redigido pelo senador Hamilton Mourão. Sob o título Valores ocidentais e pactos de gerações, o ex-Presidente do Clube Militar e ex-vice Presidente da República contribui para entendermos o Brasil atual, que ele caracteriza como majoritariamente conservador. Se bem que esse conceito não esteja suficientemente esclarecido no texto, a impressão que se tem é a de que o parlamentar ainda não superou a condição de militar, daí a repetição de chavões e afirmativas desconectadas com seu tempo. Pode-se até compreender que a transformação de um profissional formado na caserna e nela tendo permanecido prolongado tempo, reflita os valores e conceitos ali aprendidos. Mais que qualquer cidadão, o senador Mourão deve conhecer a participação das forças armadas na História. Há os momentos de grandeza, como os há de miséria - humana, política e social. Tais fatos, mais importantes e fundamentais na nossa formação como sociedade, não parecem ter estimulado o raciocínio e a manifestação do general hoje na reserva. Os tais valores ocidentais, como os conhecemos, não correspondem a mais que a imposição de catecismo agradável aos que criaram, manejam e controlam a organização da vida em sociedade. Em outras palavras, aqueles que de fato detêm o poder. Este, como também se sabe, veem o estado como um estorvo aos seus propósitos lucrativos, a ponto de viverem fustigando a entidade político-jurídica que se alega oferecer o equilíbrio necessário à paz social. Por isso, a captura das funções e decisões do estado tem sido o objetivo dos que não o conseguem destruir. Nossa experiência resulta de um processo em que mais e mais se tem aprofundado a desigualdade, mais e mais seres humanos são condenados à pior forma de sobrevivência. Se olharmos para o Mundo, onde tal processo se funda nos mesmos valores (que, superficialmente embora, se diz serem "ocidentais"), onde a desigualdade ainda é menor, o mesmo fenômeno anuncia vir-se agravando. É oportuna a manifestação escrita do senador Hamilton Mourão, no sentido de que ele parece - ao contrário do seu chefe mais recente - convencido de que as palavras e as ideias valem mais que mil revólveres. Ou uma só bomba atômica. É importante saber dele, no entanto, quanto se torna perda de tempo fixar-se em supostos axiomas ideológicos, se o Mundo só nos oferece uma constante - a mudança. Assim, pensar no século XXI como se estivéssemos décadas atrás concorrerá muito pouco para equacionar e resolver os conflitos que justificam novos pactos - e não só os que se relacionam às gerações. Estas sempre estiveram presentes, seja qual for a época histórica. As mudanças tecnológicas, os conhecimentos científicos acerca do ser humano e as relações interpessoais, a experiência de outros povos, tudo isso, enfim, parece ter sigo negligenciado pelo hoje senador. Como ele parece interessado em refletir e revelar o resultado de suas reflexões, certamente os próximos textos que escrever e publicar trarão maior contribuição para o debate de tema fundamental para a sociedade.
