top of page

Oportuna e educativa, é o mínimo que se poderá dizer a propósito da proposta do vereador Diego Afonso. O edil propõe a criação de um memorial público alusivo à covid-19, como ela chegou a Manaus e seus efeitos sobre a vida da população. Na capital do Amazonas registraram-se fatos da maior gravidade, de que se ocuparam, à época, quase todos órgãos de comunicação, aqui e alhures. Houve momento em que Manaus atraiu a atenção de todos, pela constatação da forma desumana com que a pandemia foi enfrentada. Desde a aquisição de equipamentos hospitalares em adegas, até o desvio de oxigênio necessário aos que agonizavam nos hospitais - muito mais foi testemunhado, sempre sob o gargalhar das hienas com aparência humana e o desprezo pela vida das pessoas. O memorial defendido e proposto pelo vereador, portanto, poderá constituir importante instrumento de educação, evitando que fatos semelhantes se repitam. Para tanto, basta colher e reunir tudo quanto foi noticiado e ilustrado naquele trágico período, quando a capital da zona franca foi considerada o epicentro da pandemia. A fila de caminhões frigoríficos, contendo cadáveres à espera de sepultamento, por exemplo, bem que poderia ser o símbolo do memorial, pelo impacto causado na opinião pública, e pelos traumas impostos aos familiares e amigos dos que sequer puderam despedir-se de seus mortos. Cenas como as que percorreram o País e o mundo, mostrando autoridades que zombavam da dor alheia e contribuiram, por ação ou omissão, por isso responsáveis pela morte de mais de 700.000 vítimas da pandemia, certamente constituirão parte do acervo do memorial. Lá, também, deverão estar, em programação devidamente organizada, estudantes de todas as escolas e todos os níveis de ensino, para que lhes fique na memória uma das mais importantes lições da democracia: cada um de nós tem um certo grau de culpa, eleitores que somos, sempre que pressionamos as teclas das urnas eletrônicas. No memorial estará, assim, mais que um local de visitação turística, um livro aberto de humanidade, cidadania e democracia.

 
 
 

O jornalista, advogado e escritor Walbert Monteiro, amigo de velhos tempos, é daqueles cristãos que restam sinceros, no mar de hipocrisia que banha imenso rebanho. Frequenta e faz parte, portanto, daqueles a que se pode atribuir o adjetivo fiel, quando se trata da compreensão, da apreensão e das práticas dos valores que os evangelistas apontaram nas prédicas do Nazareno. Graças a isso, é capaz de interpretar as palavras do sucessor de Francisco e fazer de sua interpretação algo que leve seus correligionarios, os verdadeiros e os outros, a profunda e sincera reflexão. Uma tarefa - sejamos óbvios - hérculea, em tempos que fizeram do templo balcão de negócios, a empresa que nem a Fausto ocorreu de criar. Ontem, O Liberal, de Belém, editou o segundo texto de Walbert, comentando a primeira encíclica de Leão XIV. IntituladoMagnifica Humanitas, o pronunciamento papal ratifica, reforça e mantém o caminho que o cardeal argentino inspirado no santo de Assis indicou aos vinculados à Igreja. Incomodava a Francisco, como maltrata Leão, a renuncia à condição humana, o chamado animal superior embevecido - igualmente imbecilizado - pelas promessas da tecnologia. Tido como o animal superior, porque ao instinto natural acrescenta a consciência que cria cultura, filosofia e Ciência, o homem parece seduzido pela possibilidade de tornar-se, ele também, o mais feroz, voraz e desumano dos seres criados a partir de Adão e Eva, ou da evolução dos primatas, segundo o digam sua inteligência e seus mitos e ritos. Tudo, porém, no aparente uso do livre arbítrio, este também fruto da percepção e da interpretação que só a consciência oferece. 0 texto de Walbert, claro, leve e preciso, ocupa nosso Espaço Aberto.

 
 
 

São muitos e variados os sentimentos e evocações suscitados pelas águas. Onde quer que elas se apresentem, seja qual for o que as contempla. Salvo em relação àqueles que a tomam apenas como bem de consumo, porque lhes falte o mínimo de imaginação. Se canções de Caymmi, a tela de Munch, a constatação de Heráclito e oLusíadas emergem do fundo do espírito do observador, não só eles respondem à provocação do deslumbramento e do pavor que o oceano impõe ao que o observa. Quando Pessoa afirmou ser preciso navegar - mais que viver -, ele disse de outra forma o que outros têm dito, a respeito do mar. Tenha sido o objeto de sua contemplação navegado ou não. Santiago, o pescador cuja faina foi primorosamente descrita por Hemingway, ou Saramago e sua jangada de pedra incluem-se dentre a relação do homem e o mar. Também a troca nem sempre justa e recíproca entre as águas e os que dela jamais um dia prescindirão. Se elas, as águas fartas ou escassas, desde que corram, jamais serão as mesmas, com o homem não é diferente. Ora ele é um navegador; ora, um mergulhador; ora, ainda, um pescador. Em todos eles, porém, há certa identidade que os aproxima, se seus olhos contemplam a cena deslumbrante e pavorosa do mar. E de seus encantamentos. Aí, então, as águas com as quais convivemos, próximos ou distantes das águas oceânicas, exigem de nós, para entendê-las, amá-las e defendê-las, o sábio exercício do dibubuiar.


 
 
 
bottom of page