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Passados mais de 40 anos, desde que ministrei aulas para cursos oferecidos pela Fundacentro em convênio com a Universidade Federal do Amazonas, contrista-me comparar o cotidiano dos trabalhadores, ontem e hoje. Não é que no passado os que fazem a grandeza do País e o levaram a figurar dentre as 10 nações mais ricas do mundo tivessem tratamento digno e à altura do seu merecimento. Estavam menos expostos, todavia, às imposições de um sistema econômico que conceitua o trabalho conforme fenômeno denominado em suas origens, tornando-o, cada dia mais, simples objeto de exploração. Predatória em todos os sentidos, seja do ponto de vista social, seja como algo secundário e desprezível. A fidelidade ao passado está presente no próprio objeto inspirador do batismo do fenômeno. Tripallium era instrumento inicialmente usado para prender bois e fazê-los desempenhar os esforços físicos necessários a trabalhos pesados, superiores à força dos animais ditos superiores. Pois é desse termo latino que vem o nome do esforço despendido por seres humanos, nos mais variados tipos de organização. Depois de o mesmo instrumento (um mecanismo dotado de 3 varas) ser utilizado para torturar pessoas. Esse conceito e as consequências por ele determinadas parecem ter-se restaurado, se não bastasse constatarmos a presença, insistente e maior do que admissível, do trabalho escravo em nosso País.  Daí a importância de ser conhecido o projeto Conte para a gente. Conte com a gente, que a Faculdade de Saúde Pública do Estado de São Paulo, por seu Instituto Walter Leser e a Fundacentro executam, no momento em que os seres humanos são reduzidos à condição que a filósofa Hannah Arendt dificilmente consideraria próxima da humanidade. Para onde quer que se volte a vista, lá se encontrará realidade laboral distante do mais frágil e incipiente respeito à condição humana. Por conta disso, sofrem os que só dispõem de sua força física e todos os outros que tentam alterar essa trágica e incômoda realidade. O homem (as mulheres também, é óbvio) são submetidos a sofrimentos facilmente evitáveis, porque vistos como simples e rudes meios de produção. Sua importância fundamental no processo de produção de ideias, bens, serviços etc. reduz-se, assim, tornando-os equivalentes às mais rudes e insensíveis máquinas. Com uma só exceção: sujeitos a tratamento menos cuidadoso que o dispensado às máquinas das organizações. No limite, inferiorizados diante de robôs, cada dia disputando, em desvantagem, o posto onde sua força é explorada, para enriquecimento de terceiros. Veja-se, por exemplo, a batalha ora travada, que pretende reduzir a jornada de trabalho, substituindo a fórmula 6 X 1 pela 5 X 2!  O processo de adoecimento que cerca a vida dos trabalhadores, em fábricas, escritórios e nas escolas (para ficar nesses poucos exemplos) só difere dos conflitos armados, cuidadosamente provocados e gerenciados em diversas partes do Planeta, pelo tipo de instrumento e pela celeridade com que rouba a saúde e a vida dos trabalhadores. Não era tanto assim, faz quatro décadas. Ao enriquecimento material de ínfima minoria dos habitantes da Terra, corresponde, então, o sacrifício sempre mais expressivo de grandes contingentes da população mundial. É preciso, portanto, conhecer e discutir o projeto da FESPSP/Instituto Walter Leser – Fundacentro, se não desejamos apenas aumentar a contagem das vidas perdidas por causa do trabalho.

 
 
 

O Dia de Finados este ano foi antecipado. Também multiplicada a razão pela qual existem cemitérios. Mais de 120 brasileiros tiveram tiradas suas vidas, como resposta a crimes de que as vítimas eram acusadas. Com palavras antes ditas por governante de outro país, chamando-as de narcoterroristas. Nome usado para pô-las na mira das armas com que alguns costumam resolver suas pendências - uma briga de rua, um abalroamento no trânsito, o desacato de um desconhecido. Também o homem que não compartilha os mesmos valores, as mesmas preferências, o fazer político. Um povo inteiro, condenado a vagar de terra em terra, a despeito do discurso vazio que o ilude há quase um século. A chacina dos presidiários, postos sob a custódia do Estado, no Rio de Janeiro, faz dobrarem os sinos muito antes do dia esperado. À dor e ao sofrimento imposto às famílias, acrescenta-se a quase consagração de uma pena alheia às leis brasileiras, nas quais Cesare Beccaria teria remota hipótese de validar. O que a Constituição não previu e a legislação não conseguiu tornar vigente, as autoridades do Rio de Janeiro tornaram realidade. A pena de morte e seus horrores - nada menos que isso, ao mesmo tempo em que ceifou a vida de seres humanos, seja lá por qual razão tenha ocorrido, gera na sociedade a certeza de que temos caminhado para a barbárie. Impossível admitir que dentre os assassinados dia 28, no Rio de Janeiro, só havia anjos. O que se deve discutir é o direito auto-outorgado às autoridades policiais fluminenses de usarem, para combater o crime dos presidiários, pena alheia ao ordenamento jurídico nacional. Quando o finado é produzido por meios dessa natureza, falece a própria moral do poder público que os utiliza. Dobrem os sinos!

 
 
 

É diferente o sentimento de indignação diante da tragédia ocorrida dia 28 último, no Rio de Janeiro. Mais de 12 dezenas de pessoas foram mortas, depois de encurraladas e fuziladas na mata, pelas forças policiais. Todos os mortos cumpriam pena, condenados em processo judicial, a muitos sendo atribuída a filiação a uma das mais violentas facções que exploram o comércio das drogas proibidas. A diferença entre uns e outros dos indignados é determinada pela percepção do fenômeno e do nível e qualidade do interesse pelo grave problema. Desde Cesare Beccaria, a pena aplicada aos acusados e condenados buscava recupera-los e fazê-los retornar ao convívio social. Dizer que tal objetivo foi alcançado, ou está prestes a chegar a esse resultado, seria a mais agressiva e ousada mentira. Ao contrário, esse tipo de comércio ilegal tem atraído cada dia e por toda parte, maior número de interessados. Essa atração, todavia, é tópico raramente abordado, quando não aplaudido. Afinal, o lucro é dos mais atrativos, por isso muitos consideram legítimo obte-los, eles que cultuam e cultivam o sistema do mercado. Por que manter-se fora desse negócio, visto como algo semelhante a qualquer outro empreendimento econômico? Não são, porém, os investidores assim orientados que se apropriam dos lucros, embora sejam os primeiros a pagar com a vida sua inclusão nesse tipo de comércio.

 
 
 
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