- Professor Seráfico

- 2 de nov.
- 2 min de leitura
Passados mais de 40 anos, desde que ministrei aulas para cursos oferecidos pela Fundacentro em convênio com a Universidade Federal do Amazonas, contrista-me comparar o cotidiano dos trabalhadores, ontem e hoje. Não é que no passado os que fazem a grandeza do País e o levaram a figurar dentre as 10 nações mais ricas do mundo tivessem tratamento digno e à altura do seu merecimento. Estavam menos expostos, todavia, às imposições de um sistema econômico que conceitua o trabalho conforme fenômeno denominado em suas origens, tornando-o, cada dia mais, simples objeto de exploração. Predatória em todos os sentidos, seja do ponto de vista social, seja como algo secundário e desprezível. A fidelidade ao passado está presente no próprio objeto inspirador do batismo do fenômeno. Tripallium era instrumento inicialmente usado para prender bois e fazê-los desempenhar os esforços físicos necessários a trabalhos pesados, superiores à força dos animais ditos superiores. Pois é desse termo latino que vem o nome do esforço despendido por seres humanos, nos mais variados tipos de organização. Depois de o mesmo instrumento (um mecanismo dotado de 3 varas) ser utilizado para torturar pessoas. Esse conceito e as consequências por ele determinadas parecem ter-se restaurado, se não bastasse constatarmos a presença, insistente e maior do que admissível, do trabalho escravo em nosso País. Daí a importância de ser conhecido o projeto Conte para a gente. Conte com a gente, que a Faculdade de Saúde Pública do Estado de São Paulo, por seu Instituto Walter Leser e a Fundacentro executam, no momento em que os seres humanos são reduzidos à condição que a filósofa Hannah Arendt dificilmente consideraria próxima da humanidade. Para onde quer que se volte a vista, lá se encontrará realidade laboral distante do mais frágil e incipiente respeito à condição humana. Por conta disso, sofrem os que só dispõem de sua força física e todos os outros que tentam alterar essa trágica e incômoda realidade. O homem (as mulheres também, é óbvio) são submetidos a sofrimentos facilmente evitáveis, porque vistos como simples e rudes meios de produção. Sua importância fundamental no processo de produção de ideias, bens, serviços etc. reduz-se, assim, tornando-os equivalentes às mais rudes e insensíveis máquinas. Com uma só exceção: sujeitos a tratamento menos cuidadoso que o dispensado às máquinas das organizações. No limite, inferiorizados diante de robôs, cada dia disputando, em desvantagem, o posto onde sua força é explorada, para enriquecimento de terceiros. Veja-se, por exemplo, a batalha ora travada, que pretende reduzir a jornada de trabalho, substituindo a fórmula 6 X 1 pela 5 X 2! O processo de adoecimento que cerca a vida dos trabalhadores, em fábricas, escritórios e nas escolas (para ficar nesses poucos exemplos) só difere dos conflitos armados, cuidadosamente provocados e gerenciados em diversas partes do Planeta, pelo tipo de instrumento e pela celeridade com que rouba a saúde e a vida dos trabalhadores. Não era tanto assim, faz quatro décadas. Ao enriquecimento material de ínfima minoria dos habitantes da Terra, corresponde, então, o sacrifício sempre mais expressivo de grandes contingentes da população mundial. É preciso, portanto, conhecer e discutir o projeto da FESPSP/Instituto Walter Leser – Fundacentro, se não desejamos apenas aumentar a contagem das vidas perdidas por causa do trabalho.
