Palácios e estádios de futebol
- Professor Seráfico

- há 1 dia
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A História tem lá seus caprichos. Às vezes, revelados em episódios inusitados, quase sempre expressos com enorme simbolismo. Ainda anteontem, o jogo semifinal da Copa do Mundo de Futebol trouxe aos habitantes do Planeta o que para alguns terá sido mero acidente. Outros discordarão, enxergando na vitória – em mais uma virada, sempre será bom lembrar – da seleção argentina, desta vez sobre a da Inglaterra, mais que um registro no placar do jogo: 2 X 1. Quem se deu o feliz e oportuno trabalho de acompanhar os 99 minutos da peleja, não precisaria ser um técnico de futebol ou um excelente e destacado jogador. Mesmo aos mais competentes dos cronistas e narradores talvez não tenha ocorrido imaginar como acabaria o jogo de ontem. No primeiro tempo da partida, a previsão de que veríamos mais que futebol, uma animada luta da modalidade antes chamada livre, hoje batizada MMA (Mixed Martial Arts, ou Artes Marciais Mistas). O histórico do futebol argentino, até certo ponto, alimentava essa expectativa. E o comportamento dos jogadores ingleses em nenhum momento lembrou a cortesia, os ademanes e os salamaleques dos palácios. Daí se terem preocupado exclusivamente em assinalar o primeiro gol. A partir daí, na condição de favoritos, os ingleses portaram-se como se portam os que, nos palácios, ditam os rumos do Mundo. Que se danassem os cucarachas! A sequência do jogo seria apenas o modorrento gastar do tempo restante, com o aplauso da maioria dos comentaristas ocidentais. Afinal, portadores do complexo de vira-latas ou vira-latas bípedes jamais seriam animados por uma convocação entre o Palácio de Buckingham e a bombonera. A escolha estava feita. Quase não havia previsão que fugisse à escalação da Inglaterra para enfrentar a Espanha, na partida final. Lionel Messi e seus liderados, todavia, entenderam evitável sair de campo derrotados. Talvez antes de todos os demais mortais eles tenham aprendido uma das lições mais óbvias, talvez por isso deixadas à margem da consideração geral: não é nos palácios que se registram as mais importantes mudanças por que tem passado o Mundo. É nas ruas e nos lugares públicos que surgem as revoluções, tenham elas o conteúdo e a orientação que tiverem. Mesmo depois do primeiro gol sofrido, Messi e sua turma decidiram impor seu ritmo de jogo. Quando sentiram a volubilidade do adversário, capaz de bater tanto quanto eles mesmos, os chamados catimbeiros (os outros, por falarem inglês, não o são?), viram aberta a possibilidade de também convocar a Espanha para o jogo. O que se viu não foi diferente: o excelente goleiro Pickfowrd se via obrigado a jogar a bola o mais longe de seu arco. Dispensou o trabalho dos jogadores de armação da sua equipe. Os magos Kane e Bellingham que se virassem! Enquanto isso, sob a regência de Lionel Messi, os onze argentinos trocavam passes e encurralavam o adversário até então vencedor. Chamou a atenção dos telespectadores a busca de Messi, pelo companheiro que estava no domínio da bola. Houve momento, até, em que o excepcional atleta recebeu a bola quase em bandeja de ouro, entregue pelo jogador ao lado. Para quem olhava qualquer dos jogadores da Argentina, quando de posse da bola? Todos vimos: para Lionel Messi. O que passará para a História do Futebol como o grande nome da Copa do Mundo que está por encerrar-se. Esta é a Copa de Messi, qualquer o resultado do próximo domingo.

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