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Um salto e um sonho de voo. O momento de plena liberdade superou o medo, e tudo o que ela queria era sentir seu corpo mergulhado no nada por alguns instantes. Depois, um balançar seguro, um pêndulo e a gravidade, apenas.

O que seria uma breve aventura juvenil se tornou um mergulho sem volta. O sonho se destruiu pela irresponsabilidade de quem deveria garantir segurança.

Mas, tão lamentável quanto a morte de uma mulher jovem, foram as manifestações de desrespeito e selvageria nas redes sociais. Por dias, necrófilos se revezaram violando aquele corpo feminino sem vida.

Mensagens foram postadas, sem o menor recato, manifestando desejo macabro de consumo do corpo daquela moça que sonhava voar. Tudo o que os necrófilos viam era o objeto da sua volúpia doentia. Não era um corpo feminino inerte, vítima do imponderável. Era um corpo a ser consumido, sem reação da vítima, que agora já não tinha vida.

O desejo sombrio de prazer sexual pelo cadáver, manifesto publicamente por uma horda de psicopatas não apenas da jovem moça. Profanou o sagrado e destroçou toda a existência humana. O altruísmo foi atirado no abismo da degenerescência.

A violação, pelas redes sociais, do corpo morto é uma prática que junta tecnologia da comunicação e total ausência de limite ético, moral e, até mesmo, humano. Quando necrófilos se utilizam da comunicação de massa para manifestarem seus desejos lúgubres, algo muito grave está ocorrendo na humanidade.

A objetificação da mulher se manifesta não mais em círculos sociais. Agora, seu corpo está sendo violado e violentado em rede mundial, sem o menor escrúpulo e com total ausência de humanidade. O machismo estrutural não apenas agride, oprime e mata. Agora, violenta abertamente a mulher morta.

É o nível mais perverso e inumano criado pelo sistema patriarcal. Não é exceção. É a precipitação da conduta misógina e machista. Não existe mais alma nesses indivíduos rastejantes. São seres sem essência, sem amor-próprio, sem qualquer resquício de compaixão.

O machismo que mata também estupra o corpo feminino morto. E o ato de extrema violência é publicado com manifesto de regozijo e pretensa autoafirmação. Não existe mais alma nesse indivíduo. A doença machista chegou ao seu estado terminal.

Trata-se de uma enfermidade social, agravada pela insistência em objetificar a mulher. É o fundo de um poço ságua,sem vida, sem oxigênio, repleto de lama fétida.

Minha solidariedade a todas as mulheres. Sei que a violência não as intimidará. Pelo contrário, a luta vai continuar. A luta emancipatória das mulheres é uma luta pela humanidade e pelos melhores valores humanos.

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O autor é sociólogo*.





 
 
 

              Orlando SAMPAIO SILVA*


Quero mergulhar no mais profundo do meu ser,

lá onde se encontram meus ideais, meus pensamentos,

meus sentimentos, meus valores, minha subjetividade.

Nesta dimensão do meu ego,

conservo todos os estímulos às minhas ações

de construção, de produção e de reprodução.

Aí está a fortaleza da minha força vital.

Quem eu sou?

Posso responder a esta indagação,

de vez que conheço esse ser,

- o meu eu -

desde aqueles tempos arcaicos

em que vivia no mundo cinzento.

Acompanho o forjar deste ser desde então.

Ao longo do tempo,

constituí-me incorporando em mim

o colorido dos raios solares

no frio dos amanheceres

e no calor dos crepúsculos nos horizontes,

ainda que perdidos em Shangrilá...

Após o ocaso,

vem a escuridão,

e este personagem, o meu ser,

aprendeu a ver onde não há luz,

e, a caminhar nas trevas, sem percalços,

apenas iluminado

pela luminosidade fulgurante das estrelas.

Essa construção constitutiva deste ser

foi longa...

e ela prossegue

neste trilhar desbravador de presentes,

que se sucedem,

e de futuros, que não param de chegar.

Hoje, aqui estou, aqui sou

e aqui penso.

Ergo sum.

Este ser

que testemunha a complexidade da vida,

e que alimenta seus projetos

no imponderável, que ainda virá;

que, com afetos e com amor,

é estimulado, em sua subjetividade,

pelo prazer dos atos reprodutivos,

mas, também, que edifica

essa nova torre de Babel

onde, ao contrário da outra, há compreensão

e entendimento entre os que compartilham a obra,

no diálogo

e na construção idealizada

dos tempos de paz, que busca perpetuar.

Este ser existe,

vive em um mundo simbólico

de paz interior

e de paz na sociedade dos humanos.

Apenas assim o meu ser,

o meu ego

encontra o continente que acolhe

a sua totalidade ontológica,

e que, no transcurso da vida,

como um Prometeu,

busca distribuir o fogo transformador

que ilumina espaços e gentes.

                                                                           (S. Paulo, 06/8/2019)

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 *Antropólogo, advogado, professor, poeta, o autor é tripulante deste blogue, o decano deles. Frequentemente, seus textos em prosa ou poesia são postados neste espaço.

 

 

 
 
 

O ESPAÇO ABERTO traz, hoje, poema de nosso tripulante e frequentador assíduo ORLANDO SAMPAIO SILVA. Do alto da sabedoria que 94 anos de idade asseguram, o antropólogo, professor e poeta revela-se em sua integridade. E nos enche de esperanças e perspectivas. Como sempre fez, e ainda faz na vida acadêmica, dentro e fora da Universidade Federal do Pará.

 
 
 
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