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Atualizado: 8 de jan. de 2020


Autoria: um pintor.

Estávamos próximos do dia Das Mães, não faz mais que cinco anos. Diversas mulheres pararam diante do pintor – um homem gordo, barrigudo, vestido apenas de uma bermuda. Nada lhe cobria o tórax, nem sandálias usava. Os pés, como o tronco, estavam nus. A cabeça, raspada, desenhava aparência grotesca, não paupérrima. Atendia com presteza as mulheres, todas desejosas de comprar a lembrança a ser oferecida à mãe de cada uma. À frente delas, pousada na calçada da rua, uma cesta de vime, em que se acomodavam algumas peças de azulejo, ilustradas com flores de cores em geral berrantes. Uma delas pediu ao pintor que escrevesse a mensagem: À minha querida mãe, no seu dia. Beijos. Pagou o preço mostrado na pequena tabuleta fincada entre as peças – R$ 15,00.

Encerrada a venda, perguntei ao pintor: És capaz de pintar o Dom Quixote? A resposta não demorou: Aquél que viene siempre con un gordito?  Sim, respondi. É o escudeiro dele, o Sancho Pança. Logo vi que o artista de rua sabia do que eu falava. Nova pergunta: Por quanto pintas os dois, para mim? Con los molinos? foi o que ouvi. Si, emprestei a língua por ele falada, para responder. Veinte reales! Entonces, hace uno que te pago. Non, me pone dinero en las manos; te pongo en las manos el quadro.

Fui à agência mais próxima do banco, e voltei com o dinheiro na mão. Puedes hacerlo, porqué ya tengo el dinero. O que bastou, para o homem tirar de uma bolsa de pano um azulejo branco, imaculado. Apertou a bisnaga de tinta sobre uma paleta improvisada, um pedaço de madeira; com um cotonete e um palito de dentes, seus dedos corriam, agitados, de um ao outro lado da pequena peça de cerâmica. Não se terão passado mais que 20 minutos, até o homem dizer: Toma, esta listo! Devolvi: Como te llamas? Non tengo nombre! De donde vienes? Del mundo.

Nada mais me disse, nem mais nada eu perguntei.

Saí de lá, com a certeza de que tinha adquirido a peça mais barata de minha coleção. Das mais bonitas, também! e uma das que me são mais caras...

 
 
 

Atualizado: 8 de jan. de 2020



Esta peça foi a primeira adquirida. Ainda não havia o interesse do autor por fazer-se colecionador. Ele apenas desejava ter em sua casa uma das figuras literárias que mais o haviam impressionado desde a adolescência, quando leu a obra imortal de Miguel de Cervantes Saavedra. Da rua (Raimundo Correia, em Copacabana, Rio de Janeiro), enxergou no fundo de uma loja de decoração a estatueta de latão. Entrou e comprou a que seria a inaugural de uma coleção que já conta cerca de 80 peças, nos mais diversos materiais.

 
 
 
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