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José Alcimar de Oliveira*


Eu vim lançar fogo heraclítico-socrático) sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!

(Jesus, o Nazareno)


01. Neste fevereiro de 2025 o Brasil de quem não se rende ao

arbítrio, ao poder do atraso e não transige com a ordem do capital assassino

e seus perversos efeitos, no campo e na cidade, deve fazer memória a duas

vidas que dignificam a luta coletiva da classe trabalhadora por um País de

todas e de todos: ELIZABETH ALTINO TEIXEIRA e DOROTHY MAE

STANG. Duas mulheres irredentas, duas vidas distintas, mas entrelaçadas

por uma causa comum: a luta em defesa da vida dos esfarrapados do

mundo, a quem Paulo Freire dedica a sua Pedagogia do oprimido. O

mundo do capital e da morte produz gente pequena, coisificada pela posse.

Gente grande mesmo, como Elizabeth Teixeira e Dorothy Stang, feita da

fibra ontológica do ser, só pode brotar da terra que é vida e do trabalho que

afirma a vida.

02. Na luta em defesa da vida na terra contra a morte promovida

pelo mundo do latifúndio, Elizabeth Teixeira e Dorothy Stang, uma

brasileira e outra estadunidense, assumiram como pátria comum a arena da

afirmação dos direitos fundamentais a partir da classe que vive do trabalho,

sobretudo do direito à terra para quem nela trabalha. A terra, afinal, como

diz o canto camponês, “é de quem trabalha”. Penso que o belo e nunca

possível encontro entre Elizabeth Teixeira e Dorothy Stang seria uma

versão laica (entre o Nordeste e o Norte do Brasil) e não menos sagrada do

encontro samaritano entre Maria e Isabel nas terras palestinas. Algo de que

muito me orgulho até hoje foi ter tirado um retrato (retrato mesmo, nada de

sélfi) ao lado de Elizabeth Teixeira, em 23 de agosto de 1985, quando ela

veio a Manaus para o lançamento do documentário Cabra marcado para

morrer, de Eduardo Coutinho. Esse documentário, que imortalizou

Elizabeth Teixeira, tem para mim a força de um evangelho laico. E o

memorável Coutinho, que partiu da imanência para a transcendência em 02

de fevereiro de 2014, é para mim o maior documentarista do cinema

brasileiro.

03. Elizabeth Altino Teixeira, paraibana de Sapé, de origem

pobre, mais vítima das cercas do capital do que das secas, mãe de onze

filhas e filhos, tornou-se jovem viúva de João Pedro Teixeira, assassinado

em 1962 numa covarde emboscada planejada pelos coronéis do latifúndio

nordestino. João Pedro estava marcado para morrer, numa terra em que o

mundo do grande capital modula a existência pelo ritmo da morte e torna a

vida seca e permanentemente severina, como bem descreve João Cabral de

Melo Neto no Auto de Natal Pernambucano, subtítulo de seu clássico

Morte e vida severina: lá na terra onde impera o reino da morte. “(...) morte

de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia (...)”. Elizabeth Teixeira, embora marcada para

morrer, segue viva e prestes a completar 100 anos em 13 de fevereiro de

2025. Seguramente é a maior liderança camponesa do Brasil. 

04. Irmã Dorothy Mae Stang, estadunidense, nascida em 07 de

junho de 1931, foi assassinada aos 73 anos a mando de latifundiários no dia

12 de fevereiro de 2005, em Anapu, Pará. Um dia é o intervalo a separar as

datas da morte de Dorothy Stang e do nascimento de Elizabeth Teixeira,

em 13 de fevereiro de 1925. Irmã Dorothy, como era conhecida, agora nos

interpela do alto da transcendência reservada a quem fez da imanência

tempo-espaço de defesa e de afirmação da vida da classe trabalhadora,

numa luta desigual, contra toda esperança, mas no permanente

enfrentamento de uma estrutura fundiária demarcada pela injustiça,

manchada pelo sangue dos espoliados da terra e submetidos à ordem da

brutalidade e da violência. O sangue de João Pedro, companheiro de

Elizabeth Teixeira, e assassinado em 1962, no Brasil pré-golpe

empresarial-militar de 1964, e o sangue de Irmã Dorothy Stang,

assassinada em 2005, no Brasil pós-golpe, continuam a respingar sobre o

Estado brasileiro nesse 2025. E a gritar por justiça.

05. Sob a ordem e os interesses do capital o Estado tende a se

converter na mais poderosa organização criminosa. Se existem

organizações criminosas no Estado, é sinal seguro de que há Estado nas

organizações criminosas. Há muitos que temem a necessária e nunca

materializada ditadura do proletariado, quando a pior e mais cruel ditadura,

realmente existente, é a da autocracia burguesa, que sempre controlou o

Estado brasileiro. Irmã Dorothy, e tantas e tantos que tombaram na luta

contra esse poder assassino, antes e depois de seu martírio, testemunharam

com letras de sangue derramado sobre a terra o que é viver e sobreviver sob

a necrocracia do sistema do capital. Dentre tantos depoimentos sobre a

vida da Irmã Dorothy Stang, alguém assim a descreveu: “Suave e firme,

dedicada como poucos, apaixonada pelo Brasil e pela gente da Amazônia,

deixou sua terra, os Estados Unidos, e veio para a nossa. Morava em casa

simples, usava sandálias de dedo como o povo pobre daquela região.

Falava um português da roça com sotaque americano. Mas era só o

sotaque. Pois tinha deixado a ideologia do norte e tinha assumido o

compromisso com a gente de nosso sofrido continente”.

06. No dia 16 de fevereiro de 2005, a Prelazia do Xingu,

juntamente com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), divulgam

contundente Nota Oficial contra a violência do latifúndio, com sua prática

de assassínios frios, planejados, como o que ceifou a vida da Irmã Dorothy

Stang: “Sua morte – conforme a Nota – denuncia, diante do Brasil e do

mundo, a absurda estrutura rural de concentração da terra em grandes

propriedades, ao lado de milhões de famílias que, teimosamente, buscam,

sem consegui-lo, um pequeno pedaço de chão que lhes sirva de abrigo e

que providencie o seu sustento”. É preciso dizer, e repetir quantas vezes

forem necessárias, que criminoso não é ocupar terras improdutivas e

concentradas nas mãos de poucos e gananciosos proprietários. Ocupar

latifúndio e terra improdutiva é imperativo da justiça. Terra é vida. Lutar

pelo direito à terra não é crime. Criminoso é o latifúndio, que expropria a

terra de quem trabalha e tem direito de viver.

07. Elizabeth Teixeira, marcada para morrer e ainda viva, do alto

de seus 100 anos de luta, e Dorothy Stang, assassinada aos 73, são duas

mulheres que dignificam a luta coletiva da classe trabalhadora, no Brasil e

no mundo, pela terra da igualdade radical e da libertação dos grilhões

capitalistas que acorrentam mulheres e homens, proletárias e proletários, do

campo e da cidade. Se há luta, há esperança. Elizabeth Teixeira e Dorothy

Stang, vocês ainda estão aqui! Elizabeth Teixeira e Dorothy Stang,

PRESENTES!

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*Jose Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia e mestre em Educação pela mesma Universidade, é teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho altivo do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em



 
 
 


Somos muitos, milhares, brigões por consciência e capricho, originários das favelas, dos morros, dos bairros operários, das universidades, das Comunidades Eclesiais de Bases, dos sindicatos, de todos os lugares onde brota um pouquinho de esperança e amor pela vida.


Somos de carne e osso, mas é no nosso sangue que o oxigênio da liberdade alimenta nosso espírito de luta.


Respiramos desejos, sonhos, utopias, vontade de construir um mundo feliz.


Nunca pensamos só na gente e nos nossos; pensamos em todos, como se todos fossem nossos; e são.


Não somos uma militância ideal; somos da luta real, do amor real, de gente real.

Não somos militantes resignados a nada. Queremos é mudança, transformação. Somos inquietos e chatos, mas é uma inquietude e uma chatice inconformada com a injustiça e com o desamor.


Somos de uma militância que confronta, que enfrenta, que não se cala diante dos abusos daquele que dissemina o mal e faz da maldade uma revelação da sua miséria existencial. Somos uma militância do punho cerrado e da bandeira vermelha.


45 anos tem nosso partido, o Partido dos Trabalhadores, o PT, mas nascemos da luta dos trabalhadores de todo o mundo. Da luta contra a injustiça herdamos nossos sonhos; do olhar terno, nossas utopias revolucionárias, pois a revolução socialista é um ato de amor; da resistência contra o fascismo abraçamos nossos irmãos da década de 40; da vida, respiramos o ar da floresta que do verde nos pinta de esperança.


É assim que nossa existência se constrói.


Se incomodamos, missão cumprida.

Continuaremos incomodando.


Que a direita e os fascistas covardes cavem suas sepulturas na lama da injustiça que construíram.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

Mary Zaidan*


Não é por Antônio Cláudio, que arrebentou o relógio histórico de Dom João VI no Palácio do Planalto. Tampouco por Fátima Mendonça, conhecida como Fátima Tubarão, que botou pra quebrar dentro do STF, ou por Débora Rodrigues, aquela da pixação com batom – “perdeu mané”- na estátua da Justiça. A anistia é para Jair Bolsonaro. Como se fosse em nome dos condenados dos atos do 8 de janeiro, para os quais se lixam, o ex e os seus turbinaram o debate da anistia e, de quebra, querem ainda mudar a Lei da Ficha Limpa para reduzir inelegibilidades. Como este país normaliza absurdos, os dois temas têm chances reais de sucesso.

O novo presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), que nega ter negociado com bolsonaristas a inclusão dos dois projetos em apoio à sua eleição, deixou os temas em banho-maria na primeira entrevista pós-posse, afirmando que os discutiria com os líderes das bancadas. Antecipou que achava muito tempo os oito anos de inelegibilidade da Ficha Limpa, mas não bateu martelo sobre colocar a questão em pauta. Tentou agradar a gregos e troianos.

A postura de suposta isenção durou pouquíssimo. Na sexta-feira, para alegria de Bolsonaro, Motta encampou a narrativa dos apoiadores do ex de que o 8 de janeiro teria sido um ato de baderneiros. “Golpe tem que ter um líder, uma pessoa estimulando, tem que ter apoio de outras instituições interessadas, e não teve isso”, disse em entrevista à rádio Arapuan, de João Pessoa.

Ora, é gravíssimo o presidente da Câmara desdenhar da tentativa de golpe quando há evidências de sobra de que ela ocorreu. Os acampamentos por semanas nas portas de comandos militares, que não só foram permitidos como incentivados com ordens do dia animadoras, instalação de geradores de energia e banheiros químicos; o custeio de aglomerações do tipo Brasil afora em frente de quarteis; as dezenas de ônibus que chegaram a Brasília; a quase explosão de um caminhão nos arredores do aeroporto do DF; o atentado à sede da PF e os ônibus e carros incendiados no dia da diplomação do eleito Luiz Inácio Lula da Silva; e o visível corpo mole de forças de segurança no 8 de janeiro, não deixam margem para dúvidas. Sem falar nas investigações da PF que apontam até armação para assassinar Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes, que ainda estão sob o escrutínio da Procuradoria-Geral da República.

A tentativa só não se materializou em golpe por não haver consenso entre os chefes militares. Diante disso, a ideia dos milicos e civis do comando golpista foi a de criar tumulto suficiente para forçar e justificar uma intervenção militar – diga-se, grito de ordem durante todas as manifestações desde a vitória de Lula até o fatídico 8 de janeiro. É certo que os líderes golpistas usaram incautos como massa de manobra, muitos condenados a penas de 17 anos em regime fechado.

Pode-se até contestar o peso das penas que o STF impôs a muitos dos 371 condenados. Algo excessivo que, como todo exagero, fere a razão e acaba por contribuir para que a gritaria pró-anistia ganhe corpo. Não à toa, é na injustiça das penas, superior à de condenados com antecedentes criminais e até homicidas, que os bolsonaristas se apegam para tentar aliviar a barra do chefe.

Mais safo, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que voltou à presidência do Senado, não empenhou apoio ao tema – “anistia não vai pacificar o Brasil”. Mas, na mesma linha de Motta, disse que não se furtará ao debate.

A outra aposta é a mudança da Ficha Limpa, lei que Bolsonaro, nos seus espertos devaneios persecutórios, disse que só existe para impedir a direta e que deveria ser extinta. O abrandamento da lei arregimenta simpatias no Congresso para além da horda bolsonarista, visto que não são poucos os políticos que podem se enrolar nela. Mas dificilmente será aceito pelo Supremo e, principalmente, pela opinião pública. Até porque a ideia que vigora dentro da Câmara é um acinte: reduzir a inelegibilidade de oito para dois anos. Ou seja, pena zero em um país que tem eleições em todos os anos pares.

Mudar uma lei de iniciativa popular como a Ficha Limpa ou tentar anistiar os que se embrenharam em uma aventura golpista são atentados graves à democracia. Neles, a balbúrdia e o vandalismo são substituídos por arranjos espúrios, mas igualmente lesivos ao país.

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  • A jornalista Mary Zaidan tem textos publicados, entre otros, na revista Veja e no blog Metrópoles.

 
 
 
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