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O Conselho de Ética da Câmara Federal perdeu a ética e se transformou num conselho inquisitorial. Sim, nos mesmos moldes do medievalismo, quando a verdade era queimada em fogueiras acesas pela ignomínia.

A condenação do deputado Glauber Braga nesse fórum é uma afronta à democracia e ao próprio processo civilizatório. É uma perseguição medieval para calar quem discorda, quem se opõe à corrupção e ao reacionarismo.

Glauber não cometeu crime.

O criminoso é o Chiquinho Brazão, que até hoje, mesmo preso, continua deputado federal e ganhando salário pago com os impostos do povo. Esse bandido os deputados bolsonaristas do Conselho de Ética protegem, assim como defendem a anistia para centenas de criminosos.

O ataque contra o deputado Glauber Braga é um ataque contra a democracia e um retrocesso às trevas. É estarrecedora a posição despudorada da bancada da extrema direita na câmara. Seus deputados perderam o pouco que tinham de dignidade ao condenar uma vítima.

Glauber reagiu à violência do grupelho fascista MBL como qualquer outro ser humano honrado reagiria. Teve o nome da sua mãe enxovalhado pela indignidade dessa turba, quando a senhora padecia num leito hospitalar. Somente gente sem humanidade pode considerar a reação do Glauber uma agressão.

Uma possível cassação do deputado Glauber Braga será uma desonra para a Câmara Federal, uma casa desgastada pela instrumentalização irresponsável daqueles que ainda se nomeiam bolsonaristas.

A sociedade civil e todos os democratas deste país precisam proteger o mandato do Glauber. A perseguição por ele sofrida é uma orquestração dos patronos e dos beneficiados pelo esquema do orçamento secreto e das emendas-pix. É isso. Glauber denunciou e tirou o caviar da boca dessa canalha.

Glauber fica. A democracia fica.


Lúcio Carril

Sociólogo.

 
 
 

O que há num simples nome? A rosa, com outro nome, não exalaria igual perfume?”

(Shakespeare. Romeu e Julieta. 1597)


José Ribamar Bessa Freire


Os deputados amazonenses aprovaram no dia 3 de abril último um projeto de lei em sessão da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALEAM), que mudou o nome da “castanha do Pará” para “castanha da Amazônia” e seus subprodutos como óleo, farelo, leite e até o ouriço. A ideia é tão genial quanto à “tarifaço” de Trump. A troca de nomes dialoga com o projeto do “fósforo com duas cabeças” pensado na década de 1960 na Câmara Municipal de Mafra (SC).

- Por que não fabricar fósforos bicéfalos para aproveitar o palito inteiro como ocorre com os cotonetes? – perguntou a seus colegas o edil catarinense que, dentro do plenário, para ilustrar sua fala, enfiou a extremidade de um cotonete no próprio ouvido direito, a outra no esquerdo. Aí, acendeu um palito de fósforo, apagou-o rapidamente e exibiu o resto:  

- Olhem aqui o que sobrou. Mais da metade. É incrível! Entre o desperdício e a economia, o Brasil opita pelo desperdício.

O líder da oposição (PTB) pediu um aparte:

Opta, nobre colega, opta.

O orador reagiu. Disse que sua opição era sugestão de um imigrante austríaco, dono de olaria em Mafra e correligionário da UDN (vixe, vixe). As opiniões se dividiram. Uns a favor. Outros contra. Armou-se o maior furdunço. O presidente da Câmara pediu ordem na Casa e botou as duas matérias em votação. O projeto do fósforo bicéfalo foi derrotado, mas opita ganhou com a diferença de três votos, sob o argumento, por analogia, de que o juiz apitou, não aptou o jogo do Atlético Operário de Joinville. Faz sentido.

Castanha e carecas

Foi assim que o Legislativo do Amazonas “opitou” pelo projeto do deputado Sinésio Campos (vixe vixe) que, apesar de pertencer ao PT-Am, em vez de optar, “opita” muitas vezes pelo time contrário. Até aí tudo bem. O português popular, diante de sílaba travada que termina em consoante oclusiva, para apoiá-la desenvolve uma vogal denominada de epentética pelos linguistas, às vezes com sucesso, como no caso da palavra inglesa football, que em espanhol é fútbol, mas em português ficou futebol tanto na fala como na escrita.

Voltando à vaca fria, cabe aqui invocar Romeu e Julieta e perguntar: com outro nome a castanha aumentaria suas propriedades de proteína, selênio e gorduras saudáveis? Ou continuaria exalando o mesmo “perfume”?

- Castanha do Pará ou da Amazônia, tanto faz, o signo é arbitrário como define Saussure. Com qualquer nome ela mantém sua natureza anti-inflamatória, antioxidante e cardioprotetora. A careca do nosso sobrinho Carlos Fábio se deve ao fato de ele odiar castanha portadora de selênio, que impede a queda de cabelo e fortalece o sistema imunológico – pontifica Maria do Céu, especialista em selênio e nanoplásticos. Exemplificou com o saudoso político Álvaro Maia, devorador de castanhas, apelidado de “Cabeleira”.

Ora, a castanha continua igualmente impedindo a proliferação de carecas com qualquer nome. Se o nome mudado nada acrescenta em sua natureza, então o que motivou essa troca?

Trata-se de velha rixa provinciana com o Pará, alimentada pelos aparelhos ideológicos: escola, família, mídia, poder político e que rende votos no Amazonas. Sinésio nega de pés juntos, alega que apesar de ser paraense de nascimento, acha o Teatro Amazonas mais bonito que o Teatro da Paz. Sua fala só vem reforçar os fins eleitoreiros do projeto, que pretende capiturar os votos de amazonenses preconceituosos, admiradores de paraense  “traidor” de seu berço. É o caso.

Fafá da Amazônia

Quem explorou o tema foi o então prefeito de Manaus, Amazonino Mendes. Em 2011, em visita à área de risco, onde duas crianças morreram soterradas pelo barranco, ouviu cobranças de uma moradora. Informado sobre a terra natal dela, o prefeito tripudiou numa gravação que viralizou no you tube:

- Paraense? Está explicado, minha filha, então morra, morra, morra.

A outra “justificativa” é que a castanha-do-Pará não é do Pará:

- “A produção da castanha não se restringe ao Pará como o nome sugere. Ela é cultivada em vários estados amazônicos” – pontifica Sinésio. Os dados estatísticos confirmam: o Amazonas foi o estado que, em 2024, exportou 14.303 toneladas de castanha, enquanto o Pará ficou com 8.807 toneladas, abaixo até do Acre com 9.145 toneladas.

Dizem que Sinésio, com o mesmo argumento, já está elaborando projeto de lei para trocar o nome da Fafá de Belém para Fafá da Amazônia, visto que suas gravações não se restringem ao carimbó, brega pop e lambada, mas incluem toadas amazonenses do Garantido e do Caprichoso. Se opitarem por tal façanha maior do que a da castanha, serão torpedeados com a debochada gargalhada da cantora.

A “ingenuidade” do Sinésio foi ignorar que Portugal tinha dois estados na América, cada um com legislação, governador e dinâmica histórica próprios. Em 1822, o grito do Ipiranga não foi ouvido no Pará, que permaneceu fiel a Portugal, até 1823, quando aderiu ao Brasil, como província, da qual fazia parte a Capitania do Rio Negro transformada, em 1850, em Província do Amazonas. A denominação “castanha do Pará” se referia, portanto, a toda Amazônia Brasileira. Até então, éramos todos paraenses, incluindo o jaraqui e o xis caboquinho.

A sanção do Wilçu

Após a crise da borracha, já no séc. XX, a Associação Comercial do Amazonas reivindica a mudança do nome para castanha da Amazônia ou do Brasil. Um decreto de 1961 assinado pelo presidente Jânio Quadros oficializa a denominação de "Castanha do Brasil", mas não colou. Foi revogado. O mercado externo usa, porém, "Brazil Nut" ou “Noix du Brésil".  

A lei seguiu para a sanção do governador Wilçu Lima, também um paraense, disposto a limpar a barra com eleitores de sua base no Amazonas depois de, em plena pandemia, comprar ventiladores hospitalares numa adega de vinho. Bolsonarista raiz, Wilçu está esperando o seu ídolo se desentupir para fazer sua “opição”.

Se sancionada, a lei entra imediatamente em vigor. Com tarifa aumentada em 10% para os Estados Unidos, o Pará e demais estados continuarão a exportar a “castanha do Pará” para mais de 60 países, enquanto apenas o Amazonas será o único a vender o mesmo produto como “castanha da Amazônia”. Ou da Pan-Amazônia? Existem castanhais na Bolívia, Peru e Colômbia.

Cascateiro e bacabeiro, Sinésio assegura que a mudança de nome “visa valorizar a identidade amazônica do produto e seus derivados e fortalecer no mercado internacional sua cadeia produtiva formada por extrativistas, organizações comunitárias e intermediários”. No entanto, a ALEAM não tem poderes para legislar para os demais estados da região norte e nem para o resto do Brasil. Há outro “porém”:

- “A mudança do nome por si só não será suficiente para agregar valor real à cadeia produtiva da castanha ou melhorar sua imagem no mercado internacional” - esclarece a economista Michele Aracaty, docente da Universidade Federal do Amazonas e presidente do Conselho Regional da 13 Região (Corecon-AM-RR).

Rainha da floresta

A Assembleia Legislativa do Amazonas atende ao apelo dos empresários, mas silencia sobre condições de semiescravidão de muitos extrativistas da castanha.

- “Eles devem ser melhor remunerados por seu trabalho com garantia de participação justa na cadeia produtiva. A Amazônia precisa de política ampla que valorize suas potencialidades locais, preserve o meio ambiente e melhore as condições sociais e econômicas das comunidades que dependem da floresta", afirmou Michele Aracaty.

É isso aí. Cabe indagar: por que os representantes do povo amazonense gastam tempo, verbas e verbos com um tema tão inócuo em detrimento de questões cruciais como segurança, educação e saúde?  O “sucesso” subiu à cabeça dos deputados, que já pensam em outras mudanças: o pão francês será “cacetinho” como querem os gaúchos; aquele chapéu-panamá que o Lula usa se chamará chapéu-parintins; a montanha-russa mudará para monte-roraima; a fila indiana para fila indígena.

- Agora sim, a minha vida vai mudar para melhor – ironizou a Preta nas redes sociais.

Por isso, muita pomba lesa identificada com o Legislativo amazonense quer ser representada por seus deputados, mantendo a sigla ALEAM, que passaria a designar a Assembleia da Leseira Amazonense.

Sei que é um trocadilho infame, mas se é para trocar o nome da castanha, por que não trocar para trocary? Trocando em miúdos, esse é o nome em Nheengatu do fruto ou semente que o colonizador denominou de castanha-do-Pará, segundo o dicionário de Stradelli (pg.184). Daí o topônimo ilha de Trocaris, no rio Solimões, que ainda hoje é repleta de castanhais.

Levado pelo padre Leonardo O´Leary em uma desobriga, quando era seminarista em Coari, visitei em 1960 o sítio de propriedade da dona Higina, herdeira de castanhais. Ela explorava a força de trabalho extrativista através do sistema de “endividamento” atrelado ao “barracão”, o que não me impediu de, deslumbrado com o porte majestoso da castanheira, entender porque é chamada de “Rainha da Floresta”.

Aviso que vou me rebelar contra a lei. Opito por continuar comendo castanha-do-Pará ou, de preferência, as nozes de trocary, considerando que a troca de nomes é inútil, ideia de quem não tem o que fazer. Os palitos bicéfalos de fósforos pelo menos queriam economizar. A castanha da Amazônia nem isso.

Referências:

1.Sabrina Rocha. Castanha-do-pará pode virar castanha-da-amazônia? Entenda o projeto de lei  aprovado no  AM  e  possíveis  impactos. G1 AM. 09/04/2025. https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2025/04/09/castanha-do-para-pode-virar-castanha-da-amazonia-entenda-a-projeto-de-lei-aprovado-no-am-e-possiveis-impactos.ghtml

2. Elen Viana. Aleam aprova lei que muda nome da ‘castanha-do-Pará’ em ‘castanha-da-Amazônia’. Rios de notícias. 07 de abril 2025. https://www.riosdenoticias.com.br/aleam-aprova-lei-que-muda-nome-da-castanha-do-para-em-castanha-da-amazonia/

3. E.Stradelli: Vocabulário Português-Nheengatu Nheengatu-Português. Cotia-SP. Ateliê Editorial. 2014     

5. Taquiprati: III. Lalau, as certinhas e os cocorocas. 01/06/2000 https://www.taquiprati.com.br/cronica/336-iii--lalau-as-certinhas-e-os-cocorocas

6.  Taquiprati: O Berlusconi da floresta amazônica: “Essa Coisa”. 27/02/2011  https://www.taquiprati.com.br/cronica/905-o-berlusconi-da-floresta-amazonica-essa-coisa




 
 
 

Roberto Amaral*


Estamos a 61 anos do golpe de 1º de abril de 1964, e a 40 anos do fim da ditadura. Mesmo após a reconstitucionalização, o regime castrense sobreviveu como bedel do país democratizado. Graças a um pacto transacionado nos salões de Brasília, imunes aos sons do povo nas ruas, elegemos Tancredo Neves para dar posse a José Sarney, o último grande líder civil do partido da ditadura. Assim, ingressamos na frustrada “Nova República” e chegamos à Constituinte de 1988, condicionada pela concordata com os militares — acordo que compreendia veto à Constituinte ordinária (que nos permitiria passar o país a limpo), veto à revisão da anistia capenga (que só beneficiava os criminosos), veto ao julgamento dos crimes da caserna e, cereja do bolo, o infame art. 142, ditado pelo general Pires Gonçalves, estafeta designado pela caserna para vigiar os trabalhos dos parlamentares. Foi assim que nasceu a “Constituição Cidadã” do dr. Ulysses, um belo projeto que vem sendo continuadamente desconstituído, dilapidado — seja pelo neoliberalismo voraz, seja pela direita em seu largo espectro.

Há sempre um ponto de partida, por óbvio, para a análise do processo histórico, e o nosso é o mantra da conciliação — pai e mãe da impunidade, pai e mãe de todos os golpes intentados e perpetrados contra a democracia. Otávio Mangabeira, falando nos tempos em que os liberais tinham o que dizer, comparava a democracia a uma “planta tenra que precisa ser regada todos os dias para que não morra”, porque entre nós — ontem como hoje — ela é ameaçada por um reacionarismo larvar, antissocial e antinacional, fundamentalmente autoritário, velho como a Sé de Braga, porque nos persegue desde sempre e não se desapega de nossa História, sustando o futuro. Como faz no momento presente.

Quando não apela à violência — como nos sucessivos golpes de Estado que fazem nossa história desde o nascimento do Império —, a classe dominante impõe a conciliação, inventada para impedir não só qualquer arte de ruptura, mas qualquer mudança — salvo aquela engendrada para que nada mude.

Ao sabor das circunstâncias, a vontade supostamente majoritária da sociedade brasileira vinha mantendo de pé a luta democrática, respeitosa dos ritos e das regras do sistema, padecendo derrotas, mas aqui e ali logrando, ainda que em vezes raras, algum progresso social — à mercê, porém, da maldição de recuar dois passos sempre que logra caminhar um à frente.

Passam as águas da política sob a ponte da história, mas parece que foi ontem o golpe parlamentar de 2016, porque ainda convivemos com suas consequências, que nos abraçam e nos ameaçam com sua presença num horizonte a perder de vista — se nos faltarem as forças de que carecemos para enfrentar a ofensiva política e organizacional da onda neofascista. Ou se continuarmos, por falsa defesa, minimizando a letalidade do adversário. A extrema-direita é articulada internacionalmente, inclusive por meio do ramo neopentecostal, mas outro erro fatal — embora fale ao espírito dos tíbios — é reduzir o fenômeno nacional (o progresso das legiões fascistas) a simples manifestação do quadro internacional, aguçado de último pela consagração norte-americana de Trump. É a teorização do “não há o que fazer”.

Em 1985, e mais ainda em 1988, pago o preço humano conhecido, havíamos retomado os trilhos da democracia descarrilhada em 1964. Caminhamos segundo as regras da conciliação, mediante avanços e recuos — mais recuos do que avanços (trágica sina!) — e chegámos a um estranho 2018, que ainda não conseguimos explicar.

Segue-se, daquele então até aqui, uma penca de recuos políticos, atingindo os interesses populares e restringindo os espaços — mesmo os mais formais — da democracia possível.

Ainda incomoda a persistente lembrança do quatriênio da extrema-direita — no poder pelo voto, em pleito legítimo —, e a intentona do 8 de janeiro de 2023 veio lembrar, aos que têm olhos para ver o indesejável, o avanço do projeto de poder do fascismo caboclo. Trata-se de avanço notável, que se revela num plano de organização política e material, nacional e internacional, desconhecido entre nós, porque agora sustentado em bases populares e eleitorais que falaram em 2018 e 2022 — e já rosnam olhando para 2026.

Frustrados os projetos da esquerda mais moderada (e já não registro o arquivo a que foram condenadas as esperanças socialistas, sonho de uma militância em recesso), o presente nos assalta com maus presságios.

A eleição de Lula — pelos seus números e pelas dificuldades da governança, que o passar do tempo só agrava — é ponto de alívio e advertência, para nos ajudar a medir o tamanho e o peso do adversário que não ensarilhou as armas. Não é uma posição de conforto. Ademais, é momento que requer reflexão.

Como, porém, conservar as posições atuais e avançar — conditio sine qua non para sua sobrevivência política — se o governo (fruto de uma coalizão eleitoralmente necessária, mas heterodoxa tanto do ponto de vista político quanto ideológico) carece de um projeto político, regente de um programa de governo? Se a política nacional, de um ponto de vista progressista, padece anomia letal? Se o chamado campo das esquerdas se imola na doença senil do imobilismo, cedendo espaços políticos e ideológicos às forças do atraso, deixando-nos como herança perversa a contingência de defensores das instituições e da ordem?

As contingências roubaram-nos o ardor revolucionário; um certo oportunismo nos levou a esquecer nossas teses fundamentais — como a denúncia do sistema e a contestação da ordem. Mesmo a esquerda socialista parece haver retirado de sua bandeira a denúncia da iniquidade que é o capitalismo em si.

Não está mais no vocabulário da militância a miséria da exploração do trabalho.

Discutimos teses importadas de nossos adversários, cuidamos de ajuste fiscal. Pouco nos referimos à concentração de renda e, quando ela entra em nossos discursos, chega desapartada da indispensável denúncia de suas causas. Tratamos o fim da impunidade dos golpes — que pode mudar os rumos da República — como uma questão processual adstrita ao STF e ao seu plenário de capas pretas. Não vamos à rua para dar respaldo ao processo e não temos força (ou será ânimo?) para a mobilização popular contra a impunidade, ora batizada de “anistia”.

Os riscos são os de sempre. A caserna se conserva como instrumento de conservação do statu quo, mas o cenário de hoje — agravado pelo quadro internacional — lembra os riscos de 1937 e 1964. Não há propriamente incompletudes, mas há muito o que fazer. E o fazer é resistir para avançar, olhando para o grande objetivo: retomar o comando do processo histórico.

Aliás, a história da democracia na República não é um lago sereno. Jamais foi. Sérgio Buarque de Holanda já nos disse que “a democracia entre nós foi sempre um mal-entendido” — e ele se referia à democracia política. A democracia social, aquela que deve ser o leitmotiv da esquerda, não é entre nós apenas um mal-entendido, mas o fantasma que a classe dominante forceja por exorcizar — sem  medir  o preço a pagar, mormente agora, quando suas velas são enfunadas pelo vento quente que nos chega dos EUA, animando os reacionários de todos os naipes, no mundo inteiro.



A batalha de Glauber Braga na Câmara



Prepara-se, na pior legislatura da história da Câmara dos Deputados, um dos mais graves atentados contra a democracia e contra o princípio que a justifica: a soberania popular. No chamado Conselho de Ética — chorume político-parlamentar que nos avilta — articula-se a cassação encomendada do mandato do deputado fluminense Glauber Braga.

As razões são as do lobo, consagradas na fábula de La Fontaine. A motivação — mais que tudo uma vendeta — é política. Mas trata-se da pequena política, da política de várzea, que expressa interesses mesquinhos e inconfessáveis dos “coronéis” de paletó e gravata e da direita de todos os jaezes, grupos e grupelhos que infestam e controlam o poder legislativo, abastardando-o. É a política do atraso: atraso econômico,  atraso social,  atraso ético e aviltamento moral; a política que se alimenta do “orçamento secreto”, da manipulação de verbas públicas denunciada por Glauber Braga, da orgia das emendas parlamentares destinadas a fins inconfessáveis — mas conhecidos pelo país —, como o enriquecimento ilícito de agentes públicos.

É o usufruto de recursos para obras públicas nunca realizadas (ou jamais concluídas), mas pagas pelo erário, pois sua real finalidade é financiar projetos eleitorais. É a pequena política da advocacia administrativa, levada a cabo por deputados-procuradores e lobistas de interesses privados. É o tráfico de influência, a deslavada manipulação de verbas públicas — instrumento superior do envilecimento da política.

A tudo isso Glauber Braga oferece um combate firme, sem quartel. E esse combate, feito de peito aberto, pode custar-lhe o mandato.

No Brasil que já aspirou à modernidade, o campeão de hoje é o patrimonialismo associado à política dos rincões. É o Centrão — um valhacouto de políticos marginais (embora bem-sucedidos nos negócios e na traficância) — que governa a Câmara, seu redil controlado a rédeas curtas. Pois é essa súcia que  lança mão de todas as armas para cassar o mandato do deputado fluminense e expeli-lo da política, com uma inelegibilidade adicional de oito anos.

Glauber está há cerca de um ano sendo processado no referido colegiado Câmara dos Deputados — agora já com a aprovação do parecer escrito para ser lido pelo relator: um pobre, mas perigoso zé-ninguém, criado pelo velho carlismo, que propõe a cassação de seu mandato. O pretexto acusatório é uma reação passada do parlamentar que, seguidamente agredido por um trânsfuga assalariado da extrema-direita, expulsou das dependências da Câmara esse meliante — usando a força necessária. Glauber reagiu à baixaria quando, além de agredido em sua integridade política e moral, viu a agressão estender-se — em nível abjeto, o natural dos fascistas — contra sua mãe, um raro exemplo de política e administradora proba, já bastante doente, vítima de Alzheimer avançado. Saudade Braga viria a falecer poucos dias após a agressão sofrida pelo filho.

Pois o pobre diabo que leu como seu o relatório pedindo a cassação do mandato de Glauber Braga é o mesmo que, no recinto da Câmara, agrediu fisicamente um escritor que ali lançava um livro tido como desairoso ao cacique Antônio Carlos Magalhães — tio e mentor do hoje relator.

O Conselho aprovou o relatório espúrio, que será afinal submetido ao Plenário — quando decidir o presidente da Câmara (pau mandado do antecessor), isto é, quando estiverem somados e contados os votos necessários à sua aprovação. A cassação será também um aviso, que dirá ao coletivo de que lado está a força do arbítrio. E assim será, se essa violência não for repudiada pelo conjunto da Casa, pressionada pela sociedade.

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 * Com a colaboração de Pedro Amaral

 
 
 
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