top of page

José de Ribamar Bessa Freire


Anda, preparándote a vivir, en América, tu América

(Canción de Payo Grondona. Valparaíso. 1969) 


As lembranças evocadas com a leitura de “Crianças e Exílio: Memórias de infâncias marcadas pela ditadura militar” foram tão pungentes, que adiei a resenha desse livro com depoimentos de 46 pessoas. Senti-me instigado a contar, antes, alguns lances da convivência pessoal com três delas: uma no Chile - Isabella Thiago de Mello e duas no Peru – André Luiz e Maria José, os dois últimos, que ainda não narraram suas histórias, estão ausentes do livro.

Em Santiago, presenciei a mãe de Isabella, Lourdinha, “com o vestido cada dia mais curto”. Quando deu à luz a filha, recebeu flores entregues pessoalmente por Allende, então presidente do Senado e sempre amigo do poeta Thiago de Mello.

Morei um par de meses com eles. Em suas eventuais saídas, eu ficava de baby-sitter, fazendo jus ao apelido de babá. Isabella, quietinha no berço. Eu, atento a algum terremoto, por si acaso. Entre algumas músicas de ninar que ouvíamos, lembro de “Duerme, duerme, negrito” na voz de Victor Jara em um LP lançado na época. A audição era compartilhada entre padrinho e afilhada, como até hoje nos tratamos.  

No texto escrito para o livro, Isabella reconstruiu suas lembranças e, em mensagem a mim enviada, filosofou:

- A Memória é química, faz parte do corpo e da alma, para sempre. É uma ilusão achar que o tempo passa. O Tempo fica na gente, entranhado nos glóbulos vermelhos, aqueles pontinhos do cerebelo. O Tempo é totalmente relativo, se fosse um gráfico jamais seria uma linha reta. O Tempo é sólido, tem altura, largura e profundidade como a Cordilheira dos Andes.

ree

Flicts e André

Segui a Cordilheira. Despedi-me do Chile para ir ao Peru integrando o Teatro de Bonecos Dadá dos titiriteiros Euclides e Adair. O casal foi condenado no Brasil a quatro anos de prisão, acusado de “ensinar marxismo-leninismo a crianças de três anos do Jardim da Infância Pequeno Príncipe”. Policiais invadiram a casa, destruíram cenários, cortinas, bonecos e destriparam Eva, presente do ´papa dos títeres´ Sergey Obratzov, do Teatro Kukol de Moscou. Feita de espumas, Eva não consta na lista de desaparecidos políticos.

É aqui que surge André, nascido em 1968. Seus pais saíram clandestinamente para o Chile onde viveram nove meses e, em seguida para o Peru, onde passaram seis anos. Deixaram o filho com a avó em Curitiba. Trazido a Lima aos dois anos de idade viu três desconhecidos: a mãe, o pai e eu, ali no meio. Conheceu, enfim, sua família e seu lar: a garagem alugada de uma casa em Magdalena del Mar. Já familiarizado, ele despertava cedinho, antes de todos, cutucava meus olhos com seus dedinhos e murmurava:

- Zé Bessa, acorda, vamos pro parque.

Fomos algumas vezes ao zoológico do Parque de las Leyendas. Foi lá, à beira do lago, que contei para André a história de Flicts, cuja versão para o teatro de bonecos seria feita anos depois. Eu folheava o livro de capa dura com as figuras do Ziraldo, mostrando a ele a cor flicts em sua inútil busca por um lugar no mundo. No final, percebi no rosto do André, de perto, algumas lágrimas furtivas e silenciosas, mesmo estando ele aliviado por saber que a lua, de perto, era flicts.  

Nas encenações dominicais em Miraflores, André nos acompanhava. Sabia de cor as falas dos bonecos. Lá, na plateia, no meio de outras crianças, dava spoiler, se antecipava aos personagens e irradiava o que iria acontecer em seu portunhol, para assombro do público infantil, que se sentia diante de um herói. 

ree

No jardim da burguesia

Certa vez, uma brasileira residente em Lima, trouxe o filho de 5 anos para ver “Os palhaços sem cabeça”. O garoto se divertiu. A mãe, encantada, revelou que era amiga do embaixador do Brasil e nos convidou para apresentar o espetáculo no Centro Cultural Brasil-Peru (CCBP) para filhos de brasileiros residentes em Lima. Ela desconhecia nossa condição de exilados. Fingimos estar em uma tournê pela América Latina.

Embora a gente sempre mantivesse distância da Embaixada e de suas ramificações, fomos ao CCBP. Pouco antes de lá chegar, em conversa reservada entre nós, manifestei preocupação:

- A porra desse Centro deve tá cheia de policial.

Na chegada, fomos apresentados ao cônsul, ao lado do adido militar, ele acariciou a cabeça do André, que falou em voz alta:

- A porra desse Centro deve tá cheia de policial.

Nunca mais nos convidaram. Nem aceitaríamos. No lançamento do livro Teatro de Bonecos Dadá, memória e resistência, em 2019, só de pirraça, tiramos uma foto com bonecos fantasiados com a foice e o martelo.

Outra vez, após o espetáculo, desmontamos o palco, guardamos os bonecos na mala e, carregando as tralhas, saímos a pé para casa, com André a tiracolo, numa caminhada de uma hora por um bairro residencial – um deserto naquele domingo. “Eu quero fazer cocô” – ele insistia, se contorcendo. A mãe respondia: - “Espera chegar em casa”. Ao passarmos diante de uma mansão com porta fechada e muro baixo que dava para um jardim, suspendi André nos meus braços e o coloquei sobre o gramado:

-  Faz cocô agora aqui no jardim da burguesia.

Fez. Durante algum tempo, grato, pedia a confirmação diante de amigos que nos visitavam:

- Zé Bessa, eu fiz cocô no jardim da burguesia, não foi?  

Creche nunca mais

Depois, o Teatro Dadá se uniu ao grupo Kusi-Kusi para fundar o Teatro y Escuela de Títeres. Uma foto registra cada um com o seu boneco. Levei, então, meu exílio para Paris. Adair contou que André chorava minha ausência em portunhol:

- Mi papito se fué.

Esta confusa noção de família era baseada na sua vivência. Conheceu Euclides e eu no mesmo momento, na mesma casa, compartilhando os mesmos cuidados e exercendo ambos autoridade inquestionável. Assim, acreditava que as crianças podiam ter dois pais: um biológico e outro de criação. E aqui entra a outra filha do exílio.

Filho de peixe, peixinho é? Depende do peixe.  O consulado brasileiro em vários países recusou registrar crianças filhas de exilados. Maria José foi uma delas. Nascida em Lima em 1974, tinha direito à dupla nacionalidade por ter pai brasileiro e mãe peruana, mas o consulado ficou enrolando. Foi registrada graças à diplomata Vera Pedrosa, filha de Mário Pedrosa, acionada por seu ex-marido Luciano Martins.  Seu nome registrado homenageava Maria José Lourenço, amiga exilada e companheira de militância do pai. O primeiro berço da Zezé II foi presente da Zezé I: um moisés com capota de vime.

Crianças de pais exilados quase sempre crescem em situação de graus diversos de bilinguismo, com função diferenciada para cada língua que, em situação de contato, deixam marcas mútuas, mexem e remexem com as identidades. Falsos cognatos e outros tipos de ruídos causam conflitos na comunicação.

A primeira língua da neo-brasileira, do ponto de vista cronológico, foi o espanhol adquirido na convivência com o entorno: mãe, avó materna, primas e primos. Entendia o português falado e cantado em casa pelo pai e interagia com eventuais exilados brasileiros. A escola, lugar de socialização, permite conversação na língua oficial do país acolhedor. Mas ela não teve escolaridade no Peru. O breve ensaio na creche do Ministério da Educação, local de trabalho da mãe, foi um fracasso. Um coleguinha deu-lhe uma mordida: “creche, nunca mais”.

Buenas noches

Após Zezé completar dois anos, em dezembro de 1976, família se mudou para Brasil. Para o pai, era um retorno. Para a mãe e a filha uma aventura em terra desconhecida. No aeroporto de Manaus foram recebidos por 82 pessoas: nove irmãs e dois irmãos, tios e tias, muitos sobrinhos, primos, cunhados e xerimbabos.

A família se hospedou na casa da vó Elisa, no bairro de Aparecida, onde moravam as duas irmãs mais novas solteiras e uma terceira divorciada com um casal de filhos pequenos. Passado o natal, a mãe retornou ao Peru por um mês para arrumar as coisas: pedir demissão do trabalho, organizar os livros, entregar a casa. Quarenta e oito horas depois, a Policia Federal prendeu o pai. De um dia para o outro, Zezé ficou sem pai nem mãe.

- A minha angústia – escreveu a mãe – é imaginar como a Zezé sobreviveu naquelas três semanas em um universo desconhecido, sem a principal referência, o pai, que a fazia dormir com canções de ninar. Ela ainda engatinhava na língua portuguesa.

A mãe agradeceu o esforço da família brasileira para se fazer entender:

- Soube que as tias se desdobraram para protegê-la na sua orfandade ocasional. Uma delas contou que ao dar boa noite, a sobrinha respondia:

- Buenas noches. E com voz chorosa perguntava pelo pai.

- Foi comprar sorvete. Helado – explicava uma das tias.

Três semanas depois, liberado pela Polícia Federal, um cunhado aconselhou no caminho para casa:

 - Compra um sorvete.

Comprei. Quando lhe entreguei o helado, ela me olhou, com uns olhos andinos tristes. Acariciou minha cabeça com um jeito protetor. Parecia uma velha. De repente, a ditadura invertera os papéis, transformando-me no filho órfão de minha própria filha. Seu olhar, condensando o sofrimento vivido, e seu gesto maternal, me deram a certeza de que uma vida toda não seria suficiente para digerir aquele sorvete de graviola.

Mais adiante, o pai sofreu um acidente, quebrou um braço e um pé. Chegou em casa todo engessado:

- Foi a Polícia que fez isso? – ela perguntou, condoída. Começava a torcer pelos índios que nos filmes americanos lutavam contra os  caubóis e lutavam contra o sistema.    

ree

Sua benção, mamãe

Maria José regressou várias vezes ao país onde nasceu para recolher seus passos. Sua tese de doutorado em antropologia foi fruto do trabalho de campo no Vale do Colca, Sul do Peru, a 3.800 metros de altitude. Em setembro de 2023, acompanhou seu pai na Caravana Viva Chile, composta de 150 ex-exilados, que foram levar flores ao túmulo de Allende e agradecer o acolhimento dos chilenos. Visitou os lugares de memória de sua proto-história.  Em um deles, foi filmada por Silvio Tendler em frente a Pensão da calle Michimalongo.

 - Nesta casa, seu pai e eu dormimos na mesma cama. Posso ser sua mãe. Exijo, embora tardiamente, um exame de DNA – disse o sacana do Silvio.

Não foi preciso. Ao se despedir, a sacana da Zezé pediu:

 - Sua bênção, mamãe!

Silvio a abençoou de uma forma que faria inveja à avó da abençoada.

P.S. – Esses são relatos de quem conviveu no exílio com essas três crianças. As lembranças delas, como de tantas outras, estão sendo elaboradas com suas próprias impressões e auxílio de fotografias amareladas, de visitas aos lugares onde viveram e de histórias contadas pelos pais e amigos, documentos orais, escritos e visuais, que sempre necessitam passar pelo filtro da crítica e do cruzamento de dados.

Confesso que a leitura do livro Crianças e Exílio, recém lançado, me deixou dilacerado com algumas noites de insônia. Registra histórias de terror, sofrimento, traumas de infância, sequestros de bebes, crianças e adolescentes filhos de opositores ao regime ditatorial, tratados como apátridas e mini terroristas. Mas o livro acena também para a resistência, as brincadeiras infantis, a solidariedade, a amizade entre exilados. A dose de humor de alguns relatos abre, aqui e ali, janelinhas de esperança da qual todos nós tanto precisamos.

As crianças exiladas em muitos países hispanos americanos parecem ter seguido o conselho de Payo Gondrona e aos trancos e barrancos aprenderam “a vivir en América, tu América”.

Referências:


  1. Nadejda Marques e Helena Doria Lucas de Oliveira (orgs). Crianças e Exílio. Memórias de infâncias marcada pela ditadura militar. (46 autores). São Leopoldo (RS). Carta Editora. 2025.

  2. Crônicas do Taquiprati:

a. De volta do exílio, a prisão. 06/05/ 2004 https://www.taquiprati.com.br/cronica/290-de-volta-do-exilio-a-prisao

c. Teatro Dada: o Brasil através dos bonecos. 07/04/ 2019. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1450-teatro-dada-o-brasil-atraves-dos-bonecos

 
 
 

ree

Cristo, no fotograma do cinema O Evangelho Segundo São Matheus, do cineasta Pier Paulo  Pasolini.

José Alcimar de Oliveira*


Proclamar que “o mundo não é uma mercadoria” quer dizer que a concorrência tem seus limites, que os benefícios atribuídos à mão invisível do mercado estão longe de compensar os crimes de seu punho visível e que o valor mercantil e monetário não é a medida de todas as coisas. A única lógica realmente alternativa seria a do serviço público e do bem comum, do direito imprescritível ao patrimônio comum da humanidade, quer se trate dos recursos naturais (a terra, a água, o ar), dos medicamentos ou dos conhecimentos acumulados ao longo dos séculos e das gerações (Daniel Bensaïd).

             

01. A morte é a condição ontológica incontornável do ser humano. Nascer é contingente. Quem nasceu poderia não ter nascido e, em alguns casos, o não ter nascido seria um favor à humanidade. Mas o morrer é da instância do necessário para todo ser contingente, porque o ser da existência humana é inexoravelmente ser para a morte, já sentenciava Heidegger. Segundo sentencia a Imitatio Christi, a miséria é a condição necessária da finitude: “Miserável serás em qualquer lugar onde estiveres e para onde quer que te voltes”. A morte está inscrita na vida e se morre desde o nascer. A ontologia existencial de Heidegger, contudo, não deve servir de pretexto ideológico para quem faz da morte um projeto de poder sobre a vida do ser, natural, animal ou social, seja como indivíduo, seja como espécie. Marx via na morte a vitória da espécie sobre o indivíduo. Mas até quando, a considerar a necrocracia do sistema do capital, a espécie poderá sobreviver ao indivíduo? Além do mais, a morte de cada indivíduo, não como condição ontológica e necessária, mas antes como produto sistêmico e contingente da destrutiva ordem capitalista, não onera toda a espécie?  

           

 02. Se o capital, como escreve Marx, implica a morte das duas fontes de toda a riqueza, “a terra e o homem”, que sobrevida poderá restarà espécie humana sob o predatório modo de produção capitalista da existência?  O século XXI já inscreveu a humanidade na fase (definitiva?) da catastrofera. O atual processo de colapso ambiental e de barbárie social, com sua visibilidade globalizada, está a desnudar a grande farsa do sistema do capital: salvar da morte o indivíduo (da grande burguesia) à custa da morte do ser como espécie (a classe trabalhadora, no caso). É possível (e até quando?) construir o paraíso para alguns à custa do inferno para todos? Não há, mesmo no mais remoto horizonte, nenhum plano alternativo (e factível) ao nosso maltratado mundo sublunar, como é vendido pela mentira muskiana dos projetos de colonização além-Terra. O mundo, tornado a cada dia mais imundo pelo sistema do capital, tornou-se hostil à Terra e às formas de vida que nela se desenvolveram.

              03. Ou a inteligência humana e seus recursos (teóricos e práticos) são orientados para salvar a vida na Terra, ou prevalecerá a barbárie já em curso. Diante do célebre dilema de Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie, o irredentopensador marxista István Mészáros, cujo pessimismo da inteligência diante da distopia capitalista já condicionava sua força volitiva e intelectiva, limitou-se a dizer: “barbárie, se tivermos sorte – no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”. A característica prevalente do poder do capital é a entropia, que se alimenta da desorganização e da destruição da vida. É a direção à barbárie que orienta a marcha de seu vetor teleológico. Estamos a caminho da Leônia de Italo Calvino, cidade distópica, descrita em seu As cidades invisíveis, cuja medida da riqueza era avaliada pela quantidade de coisas descartadas nos lixões. O consumo conspícuo do obsceno luxo de poucos produz, em ritmo industrial, o lixo indecente que sufoca a vida dos deserdados da Terra.

           

  04. No plano da existência do ser social como indivíduo não há cura, a não ser aquela atribuída ao tempo, para a dor da perda de uma vida pessoal. A afirmação marxiana da morte como vitória da espécie sobre o indivíduo, embora verdadeira, não serve de consolo para ninguém, seja ateu, agnóstico ou crente. Não há remissão no imediato do acontecimento (ou mesmo no tempo remoto, conforme cada situação vivida) paraquem vive a dor da morte de quem lhe é próximo ou familiar. Quem afinal chorou diante da morte de Lázaro, o humano Jesus de Nazaré ou o divino Cristo da fé? Ou os dois? Não ensina a teologia cristã que o Nazareno era habitado pelas duas naturezas? Como é impossível um choro abstrato ou metafísico, e se Deus de fato chorou, só poderia fazê-lo pelo rosto humano de Jesus de Nazaré. Na Bíblia há três referências explícitas de que Jesus chorou, e cada uma manifesta um sentido próprio. O choro-compaixão pela morte do amigo Lázaro, o choro-lamento sobre a cegueira de Jerusalém e o choro agônico no monte das Oliveiras.

       

 05. O choro-lamento de Jesus de Nazaré diante da morte de seu grande amigo Lázaro encontra-se em Jo 11, 35, naquele que é o mais curto versículo bíblico: “Jesus chorou”. Jesus chora a morte de Lázaro e igualmente chora pelos familiares e amigos entristecidos e desolados diante do acontecimento. Marta, irmã de Lázaro, que bem conhecia o quanto Jesus amava seu irmão, se dirige a Jesus e, desolada, diz: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. A despeito de crer na promessa bíblica da ressurreição do último dia, Marta permanece inconsolável. Embora muito cresse nas palavras do bom Nazareno, a promessa da ressurreição do último dia era para Marta apenas um consolo metafísico. Mesmo a incorrer em anacronismo, pois direita e esquerda não eram conceitos do mundo semítico de Jesus, Marta jamais seria vista como uma pobre de direita, menos ainda pobre de direitos. Para sua intuição materialista, a promessa transcendente da ressureição futura não servia de consolo para a morte real e vivida no plano da imanência, diante da perda de seu irmão Lázaro.   

             

06. Cabe a pergunta: a morte como a vitória da espécie sobre o indivíduo, conforme sinaliza o texto marxiano, pode servir de consolo para um materialista? E tal consolo não seria mais metafísico do que materialista? Marta era humana, demasiadamente humana, e quem poderia acusá-la de egoísmo materialista por cobrar de Jesus de Nazaré a restituição da vida de seu irmão Lázaro, em corpo e alma? Se Jesus fosse um metafísico e se limitasse à compreensão abstrata do sofrimento, não teria ouvidos para o clamor de Marta. Bem o contrário. Segundo narra o evangelista, “Jesus, então, comovido em seu íntimo, veio ao sepulcro… e gritou com voz forte: ‘Lázaro, vem para fora!’”. E a vida de Lázaro foi devolvida. E houve ali muita alegria e espanto. Judeu como Jesus, Marx teria em Marta um quadro o mais militante, lúcido e pedagógico para compreender que não é possível salvar a classe sem salvar o indivíduo.

           

  07. A cada ano a celebração cristã da Páscoa como passagem da morte para a vida cede lugar à multiplicação dos corredores da morte construídos pela necrocracia do capital. O capitalismo se faz religião (Walter Benjamin) e a religião legitima e faz do altar o lugar do lucro, da acumulação e da posse a mais indecente: “E agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos por causa das desgraças que virão sobre vós! Vossas riquezas estão podres e vossas vestes devoradas pela traça” (Tg 5,1-2). Estreita-se ano a ano, para o ser natural e para o ser social, a saída pascal que deveria conduzir à vida. Como celebrar a Páscoa num mundo que se move pela força da morte, no campo e na cidade? Ontem como hoje, ressoa o lamento de Jesus de Nazaré: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis congregar teus filhos como a galinha congrega suas crias sob as asas, mas não quisestes!” (Mt23,37). Para concluir com a bela e profana teologia de Walter Benjamin: nem os mortos estarão em segurança se o inimigo (o capital) vencer. E Jesus, mesmo Ressuscitado, estaria em segurança numa tão aguardada segunda volta(Parusia)?

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical, e filho do encontro dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, aos 20 de abril de 2025, na Páscoa.

                          Cristo, no fotograma do cinema O Evangelho Segundo São Matheus, do cineasta Pier Paulo  Pasolini.


José Alcimar de Oliveira*


Proclamar que “o mundo não é uma mercadoria” quer dizer que a concorrência tem seus limites, que os benefícios atribuídos à mão invisível do mercado estão longe de compensar os crimes de seu punho visível e que o valor mercantil e monetário não é a medida de todas as coisas. A única lógica realmente alternativa seria a do serviço público e do bem comum, do direito imprescritível ao patrimônio comum da humanidade, quer se trate dos recursos naturais (a terra, a água, o ar), dos medicamentos ou dos conhecimentos acumulados ao longo dos séculos e das gerações (Daniel Bensaïd).

01. A morte é a condição ontológica incontornável do ser humano. Nascer é contingente. Quem nasceu poderia não ter nascido e, em alguns casos, o não ter nascido seria um favor à humanidade. Mas o morrer é da instância do necessário para todo ser contingente, porque o ser da existência humana é inexoravelmente ser para a morte, já sentenciava Heidegger. Segundo sentencia a Imitatio Christi, a miséria é a condição necessária da finitude: “Miserável serás em qualquer lugar onde estiveres e para onde quer que te voltes”. A morte está inscrita na vida e se morre desde o nascer. A ontologia existencial de Heidegger, contudo, não deve servir de pretexto ideológico para quem faz da morte um projeto de poder sobre a vida do ser, natural, animal ou social, seja como indivíduo, seja como espécie. Marx via na morte a vitória da espécie sobre o indivíduo. Mas até quando, a considerar a necrocracia do sistema do capital, a espécie poderá sobreviver ao indivíduo? Além do mais, a morte de cada indivíduo, não como condição ontológica e necessária, mas antes como produto sistêmico e contingente da destrutiva ordem capitalista, não onera toda a espécie?  

02. Se o capital, como escreve Marx, implica a morte das duas fontes de toda a riqueza, “a terra e o homem”, que sobrevida poderá restarà espécie humana sob o predatório modo de produção capitalista da existência?  O século XXI já inscreveu a humanidade na fase (definitiva?) da catastrofera. O atual processo de colapso ambiental e de barbárie social, com sua visibilidade globalizada, está a desnudar a grande farsa do sistema do capital: salvar da morte o indivíduo (da grande burguesia) à custa da morte do ser como espécie (a classe trabalhadora, no caso). É possível (e até quando?) construir o paraíso para alguns à custa do inferno para todos? Não há, mesmo no mais remoto horizonte, nenhum plano alternativo (e factível) ao nosso maltratado mundo sublunar, como é vendido pela mentira muskiana dos projetos de colonização além-Terra. O mundo, tornado a cada dia mais imundo pelo sistema do capital, tornou-se hostil à Terra e às formas de vida que nela se desenvolveram.

03. Ou a inteligência humana e seus recursos (teóricos e práticos) são orientados para salvar a vida na Terra, ou prevalecerá a barbárie já em curso. Diante do célebre dilema de Rosa Luxemburgo: socialismo ou barbárie, o irredentopensador marxista István Mészáros, cujo pessimismo da inteligência diante da distopia capitalista já condicionava sua força volitiva e intelectiva, limitou-se a dizer: “barbárie, se tivermos sorte – no sentido de que o extermínio da humanidade é um elemento inerente ao curso do desenvolvimento destrutivo do capital”. A característica prevalente do poder do capital é a entropia, que se alimenta da desorganização e da destruição da vida. É a direção à barbárie que orienta a marcha de seu vetor teleológico. Estamos a caminho da Leônia de Italo Calvino, cidade distópica, descrita em seu As cidades invisíveis, cuja medida da riqueza era avaliada pela quantidade de coisas descartadas nos lixões. O consumo conspícuo do obsceno luxo de poucos produz, em ritmo industrial, o lixo indecente que sufoca a vida dos deserdados da Terra. 

04. No plano da existência do ser social como indivíduo não há cura, a não ser aquela atribuída ao tempo, para a dor da perda de uma vida pessoal. A afirmação marxiana da morte como vitória da espécie sobre o indivíduo, embora verdadeira, não serve de consolo para ninguém, seja ateu, agnóstico ou crente. Não há remissão no imediato do acontecimento (ou mesmo no tempo remoto, conforme cada situação vivida) paraquem vive a dor da morte de quem lhe é próximo ou familiar. Quem afinal chorou diante da morte de Lázaro, o humano Jesus de Nazaré ou o divino Cristo da fé? Ou os dois? Não ensina a teologia cristã que o Nazareno era habitado pelas duas naturezas? Como é impossível um choro abstrato ou metafísico, e se Deus de fato chorou, só poderia fazê-lo pelo rosto humano de Jesus de Nazaré. Na Bíblia há três referências explícitas de que Jesus chorou, e cada uma manifesta um sentido próprio. O choro-compaixão pela morte do amigo Lázaro, o choro-lamento sobre a cegueira de Jerusalém e o choro agônico no monte das Oliveiras.

 05. O choro-lamento de Jesus de Nazaré diante da morte de seu grande amigo Lázaro encontra-se em Jo 11, 35, naquele que é o mais curto versículo bíblico: “Jesus chorou”. Jesus chora a morte de Lázaro e igualmente chora pelos familiares e amigos entristecidos e desolados diante do acontecimento. Marta, irmã de Lázaro, que bem conhecia o quanto Jesus amava seu irmão, se dirige a Jesus e, desolada, diz: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. A despeito de crer na promessa bíblica da ressurreição do último dia, Marta permanece inconsolável. Embora muito cresse nas palavras do bom Nazareno, a promessa da ressurreição do último dia era para Marta apenas um consolo metafísico. Mesmo a incorrer em anacronismo, pois direita e esquerda não eram conceitos do mundo semítico de Jesus, Marta jamais seria vista como uma pobre de direita, menos ainda pobre de direitos. Para sua intuição materialista, a promessa transcendente da ressureição futura não servia de consolo para a morte real e vivida no plano da imanência, diante da perda de seu irmão Lázaro.   

06. Cabe a pergunta: a morte como a vitória da espécie sobre o indivíduo, conforme sinaliza o texto marxiano, pode servir de consolo para um materialista? E tal consolo não seria mais metafísico do que materialista? Marta era humana, demasiadamente humana, e quem poderia acusá-la de egoísmo materialista por cobrar de Jesus de Nazaré a restituição da vida de seu irmão Lázaro, em corpo e alma? Se Jesus fosse um metafísico e se limitasse à compreensão abstrata do sofrimento, não teria ouvidos para o clamor de Marta. Bem o contrário. Segundo narra o evangelista, “Jesus, então, comovido em seu íntimo, veio ao sepulcro… e gritou com voz forte: ‘Lázaro, vem para fora!’”. E a vida de Lázaro foi devolvida. E houve ali muita alegria e espanto. Judeu como Jesus, Marx teria em Marta um quadro o mais militante, lúcido e pedagógico para compreender que não é possível salvar a classe sem salvar o indivíduo. 

07. A cada ano a celebração cristã da Páscoa como passagem da morte para a vida cede lugar à multiplicação dos corredores da morte construídos pela necrocracia do capital. O capitalismo se faz religião (Walter Benjamin) e a religião legitima e faz do altar o lugar do lucro, da acumulação e da posse a mais indecente: “E agora, vós, ó ricos, chorai e lamentai-vos por causa das desgraças que virão sobre vós! Vossas riquezas estão podres e vossas vestes devoradas pela traça” (Tg 5,1-2). Estreita-se ano a ano, para o ser natural e para o ser social, a saída pascal que deveria conduzir à vida. Como celebrar a Páscoa num mundo que se move pela força da morte, no campo e na cidade? Ontem como hoje, ressoa o lamento de Jesus de Nazaré: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis congregar teus filhos como a galinha congrega suas crias sob as asas, mas não quisestes!” (Mt23,37). Para concluir com a bela e profana teologia de Walter Benjamin: nem os mortos estarão em segurança se o inimigo (o capital) vencer. E Jesus, mesmo Ressuscitado, estaria em segurança numa tão aguardada segunda volta(Parusia)?

______________________________________________________________________________

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical, e filho do encontro dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, aos 20 de abril de 2025, na Páscoa.

 
 
 


"Se eu aceito ser derrotado pelo poder da grana, isso representará um estímulo pra perseguirem outras lideranças e mandatos populares espalhados pelo país. Por isso, resisto!”

Glauber Braga


Roberto Amaral*

 

A ainda possível cassação do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) é ameaça extremamente grave. Grave em absoluto, como violação de direito, e grave pela especificidade, pois na conduta do parlamentar fluminense nada se perfila como violação do decoro de uma casa, em contraste, abastardada, seja pela sequência interminável de escândalos, seja pela chantagem deslavada que é a marca de sua relação com o Poder Executivo. O esforço concentrado da direita com vistas à cassação, já aprovada pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, de pronto atende à política rasteira que, domina a vida nacional — política de horizonte medíocre, cevada no tráfico de influência que rebaixa a dignidade do mandato eletivo de um modo geral, mas que, de forma ainda muito mais grave, enxovalha o mandato parlamentar.

É a resposta do atraso às denúncias de Glauber Braga contra a corrupção desavergonhada do “orçamento secreto” (afinal derrubado pelo STF) e da criminosa manipulação dos recursos públicos mediante as chamadas emendas parlamentares, que beiram uma sangria de recursos na casa dos R$ 57 bilhões destinados a obras que ora não começam, ora não são concluídas — recursos que, no entanto, sempre são consumidos.

Farra dos recursos da União, do contribuinte, a qual, à margem do controle político-judicial, assegura o mandonismo dos potentados locais e a renovação dos mandatos de seus delegados e procuradores na Câmara dos Deputados. É uma troca de favores remunerados pelo bem público que lembra a traficância: o prefeito elege o deputado, que retribui com a dotação de verbas federais que, por sua vez, levarão o alcaide a reeleger-se.

É a roda da política que está na raiz do escândalo das opacas emendas parlamentares, assim como são administradas, majoritariamente na contramão do interesse público e atendendo a projetos qe seus autores não podem confessar.

Se o objetivo da trama fascista fosse tão só a cassação do mandato do deputado — e já não se trataria de pouca coisa —, a jogada já seria uma ignominiosa vindita de uma súcia flagrada com a mão na botija. Mas essa vingança, ainda em marcha, não encerra a história toda, pois igualmente se abate contra Glauber a mão pesada do consórcio fascismo-neoliberalismo que, ceifando-o da vida política, como pretende, dará grave aviso à esquerda como um todo. Assim, o poder real da instituição ditará os limites dentro dos quais é consentida a atuação parlamentar desapartada dos interesses dominantes. Neste caso, a punição, dirigindo-se aparentemente a um parlamentar — alvo para ser tomado como exemplo do que deve ser evitado —, na verdade terminará por ameaçar todos os parlamentares.

O pau que bate em Chico bate também em Francisco.

Para além de Glauber, contudo, e (simbolizado por ele), do amplo campo da esquerda, a grande vítima, ao fim e ao cabo, será a própria democracia representativa, cuja sobrevivência é incompatível com a autoflagelação moral do Poder Legislativo.

Com isto não se importam os neofascistas e não parece se importar a direita como um todo, mas deveriam estar preocupados os democratas. Aos democratas de hoje, muitos se deixando embriagar pelos arreganhos da direita, lembramos que a quebra da ordem democrática de 1946, por muitos defendida nos idos de 1964, terminou por ceifar a todos, sem olhos para enxergar direita, centro e esquerda.

A cassação de Glauber Braga, se a sociedade brasileira não a impedir, será registrada como um harakiri sem honra, anunciador do réquiem da democracia que nosso povo vem tentando construir e conservar, já desiludido de aprofundá-la, desde quando viu apeada do poder, por fadiga, a ditadura de 1º de abril de 1964, que se abateu contra nosso povo, constrangendo a história, quando mais supúnhamos estar construindo uma sociedade política e socialmente avançada.

Agora sabemos que a democracia é espécime em risco, pois sobre seu futuro se abate o avanço da onda fascista, totalitária por essência, que se espalha pelo mundo como rastilho de pólvora, agora com o estímulo político, militar e financeiro do trumpismo — ameaça que já é fato em nosso subcontinente. Dessa ameaça já conhecemos seus objetivos e seus métodos com a trágica experiência bolsonarista, a peçonha que saltou do ovo e ainda não foi esmagada.

 

***


Para quem olha para o passado pensando no futuro — Em 1964, ano do último golpe militar, faziam oposição ao presidente João Goulart, entre outros, os governadores do Rio Grande do Sul (Ildo Meneghetti); de São Paulo (Adhemar de Barros); do então estado da Guanabara (Carlos Lacerda) e de Minas Gerais (Magalhães Pinto). Hoje, militam na oposição ao presidente Lula os governadores do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Goiás. Jango tinha maioria parlamentar, assegurada pelas bancadas do PTB e do PSD, as duas maiores do Congresso. O governo Lula é minoritário nas duas casas.

Para quem mira o presente para ver o futuro — Com a reeleição de Daniel Noboa no último domingo (13/04), fica claro o plano inclinado da direitização da América do Sul, o principal e mais estratégico espaço de nossa política externa: à Argentina do trêfego Javier Milei, soma-se agora o Equador. E não é pouco, consideradas as turbulências no Peru e na Bolívia, a insegurança política no Chile e na Colômbia (talvez os últimos palosda resistência da esquerda) e o desencontro com a Venezuela. Mais que nunca as circunstâncias e nossos interesses reclamam a política ativa e altiva, cunhada por Celso Amorim.

  • Com a colaboração de Pedro Amaral

 

 


 
 
 
bottom of page