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Toda segunda-feira, no segmento Pensa Rotina (Rede Band-News/Rádio Difusora de Manaus), o sociólogo e professor MARCELO SERÁFICO analisa e opina sobre temas atuais de que se ocupa, como profissional e cidadão. Sempre por volta das 09:30, o sociólogo amazonense contribui para dar mais transparência a assuntos e problemas raramente analisados sem paixão, a não ser pela verdade. Ainda na manhã de 12 deste mês de maio, o professor da UFAM discutiu os constrangimentos que o processo de acumulação em vigor impõe à saúde do Planeta. Sem confundir mais que esclarecer, a que são afeitos alguns de seus colegas e analistas, Marcelo mantém serenidade, ao mostrar as contradições entre o sistema econômico e suas regras, quanto às consequências decorrentes do processo social em que se insere o enriquecimento das nações. Quem ouvir as palavras de Marcelo Seráfico, especialmente no programa da última segunda-feira, não tem como fugir à constatação: a crise ambiental, inclusive com o risco de condenar à morte a Terra, não será reduzida, a permanecerem as práticas do atual processo de acumulação. Marcelo Seráfico revela, também preocupação com a próxima reunião da COP30, nem a propósito, na cidade de Belém, capital de uma das unidades federativas em que mais sensível se faz o desmatamento destruidor de parte da maior floresta tropical do Planeta. As palavras do analista, quase vencido o primeiro quarto do século XXI, podem ser comparadas às que disse na década dos 1930, o cienasta, ator, diretor e pensador Charles Chaplin. "A sociedade precisa mais de ética que de técnica", disse o genial criador de Carlitos. Para o sociólogo e comentarista, o avanço tecnológico não pode permanecer ignorando aspectos políticos e sociais que favoreçam a vida na e da sociedade. Vale a pena conectar-se com a Band-News/Difusora, nas manhãs da segunda-feira.

 
 
 

Poderia ser risível se não fosse um escárnio a câmara federal aumentar o número de deputados federais e, por conseguinte, as assembleias estaduais aumentarem suas bancadas. Justamente num momento de crise acentuada da democracia liberal no mundo.

Sim, a crise da democracia representativa liberal está posta há mais de um século. O modelo iniciou em meados do século XVII na Inglaterra, com a Revolução Gloriosa e a imposição de limites ao absolutismo, criando uma monarquia parlamentarista, e se espalhou pelo século XVIII, através do pensamento iluminista e a Revolução Francesa.

Chegou ao século XX com a força de uma formiga, carregando um peso maior do que supunha aguentar. Não demorou para fazer eclodir governos autoritários na Europa. No final da segunda década desse século, seu parceiro, o liberalismo econômico, pariu a Grande Depressão nos Estados Unidos, país conhecido como referência da democracia liberal.

A democracia representativa tem se mostrado frágil para garantir direitos coletivos. Foi importante para substituir as autocracias monárquicas, mas vem se apresentando como o problema causal da exclusão social e limitação dos direitos individuais e coletivos, imposto por instituições colapsadas na sua capacidade de representação.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro Ruptura: a crise da democracia liberal, resume com clareza essa crise, ao revelar que a democracia liberal criou um distanciamento entre governos e cidadãos. As eleições não têm sido suficientes para aprofundar a representação, pois os representantes terminam por constituir um grupo de interesses divorciado dos interesses dos seus representados:

"A política se profissionaliza, e os políticos se tornam um grupo social que defende seus

interesses comuns acima dos interesses daqueles que eles dizem representarem”.

Isso ficou claro nos últimos anos no parlamento brasileiro. Deputados criaram instrumentos de ocultação do uso do recurso público, através do "orçamento secreto" e "emendas pix", agravando o sistema representativo na proporção que votavam contra zerar impostos da cesta básica e pela retirada de direitos sociais conquistados nas últimas décadas.

A população tem se mostrado alheia ao processo eleitoral, como se o voto popular não fosse o responsável pela escolha dos seus representantes. Não existe um sentimento de pertencimento com a coisa pública. Essa descrença tem proporcionado a ascensão de governos autoritários no mundo, sob a bandeira da não-política.

Somam-se a isso, partidos políticos frágeis e um judiciário classista, composto por castas e enclausurado na vaidade dos seus agentes públicos.

Aqui no Brasil, a democracia liberal está levando o país a uma grave crise política, com dois lados opostos se engalfinhando como numa disputa entre o bem e o mal. De um lado, o liberalismo econômico e seu anseio de ter o Estado transformado em empresa, e de outro, segmentos políticos e sociais lutando para garantir direitos democráticos de um sistema em crise.

O mundo só vai sair do século XVIII quando começar a usar os novos recursos tecnológicos para construir uma democracia de participação direta do cidadão. A democracia participativa é uma exigência política e civilizatória dos nossos tempos. O poder à sociedade civil é o único caminho capaz de consolidar a democracia, impedir governos autoritários e garantir direitos políticos e sociais que assegurem participação do cidadão e da cidadã e bem-estar social.

Temos todos os instrumentos que possibilitam a democracia direta e no caso do Brasil, a Constituição de 1988 garantiu a participação popular nos destinos da nação. Infelizmente, até hoje apenas um plebiscito foi feito para ouvir o povo brasileiro sobre o sistema político. Temos as bases legais para avançar na consolidação de um regime político que ouça o povo, fortaleça as instituições e diminua a representação.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

José Alcimar de Oliveira*


Neste 13 de maio de 2025, sete dias antes de completar 90 anos, José Alberto "Pepe" Mujica Cordano, ou simplesmente Pepe Mujica, fez a viagem definitiva da imanência histórica para a transcendência transtemporal. Sua figura campesina, de politico agricultor, de gente simples, me faz lembrar de Amós, o único profeta agricultor da tradição bíblica. Pastor em Técua e avesso à confraria dos profetas, Amós se definia antes como um cultivador de sicômoros e declarava a quem quisesse ouvir que não era profeta, nem filho de profeta. Mas desafiado a assumir a militância profética, não recuou do desafio. A "burguesia" da época o detestava. É célebre (e hoje algo politicamente incorreto) o tratamento irônico dado por Amós às mulheres de Basã. Mujica se fez universal a partir de seu abrigo campesino. Enquanto viveu afirmou o que é essencial ao bom viver. Por isso, proclamava: "Meu luxo é ter tempo para fazer as coisas que importam na vida". Existências separadas por mais de dois mil e setecentos anos, Amós e Mujica se encontraram hoje na Casa Memorial reservada às figuras humanas que jamais morrerão, porque enquanto viveram se fizeram maiores do que os limites de uma vida terrena. Grande será a festa no ceu socialista, com vinho uruguaio oferecido por Mujica, na presença de gente da estatura sábia e militante de Amós, Jesus de Nazaré, Marx, Engels, Che, Rosa Vermelha, Oscar Romero, Francisco de Assis e da Argentina, com Maria Madalena, Dercy Goncalves e Elza do Canto Negro.


Pepe Mujica, Presente!

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*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA - Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (AM) e Jaguaribe (CE). Em Manaus, AM, aos 13 de maio de 2025.

 
 
 
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