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Enquanto o pedaço que rejeitava o quase ex-Presidente por motivos diferentes do apego à democracia tentam escalar o Ministério de Lula, núcleos fanáticos de resistentes à realidade das urnas permanecem firmes em seus propósitos golpistas. Por enquanto, a fachada de alguns quartéis continua invisível, perdida atrás de grupelhos defensores da "liberdade" das ditaduras. Lá, tudo é permitido, até a montagem de verdadeiras feiras livres, onde se vende de tudo e se provocam cenas de arraial. Não demora, circulará no local algum dos padres de festa junina, para levar aos manifestantes o recado de seu deus. Quem sabe, uma pistola embutida no chapéu da alegoria. Uma expectativa favorável, no entanto, pode ser gerada, sobretudo pela extrema cordialidade como as autoridades militares vêm acompanhando os fatos, ocorridos literalmente às suas barbas. Refiro-me à possibilidade de grupos de agricultores familiares organizarem-se para, com a mesma segurança, erguerem barracas e tendas em frente aos quartéis e venderem os produtos trazidos dos assentamentos rurais. Aí, então, testemunharemos espetáculo jamais visto na maior nação da América do Sul. Sem faltarem a esses pobres produtores a água e a tomada de energia com que satisfarão a sede e o contato com seus familiares em permanência no campo. Tratamento igual ao que se diz vir sendo dispensado aos clamantes pela intervenção extra-urnas. Quem sabe, ainda animarão o ambiente com músicas sertanejas e, se gaúchos houver nos grupos, um churrasquinho regado a mate. As placas e faixas apenas alardearão a qualidade dos produtos agrícolas oferecidos, em congraçamento que ainda estamos por ver. Com a grande probabilidade de passarem, o tempo vendo a banda passar. Veremos tudo isso?....

 
 
 

As manifestações dos partidários do candidato à reeleição derrotado, nas portas dos quartéis, ao mesmo tempo em que gera expectativa preocupante, ameaça toda a população. À primeira vista, os manifestantes estariam desfrutando do legítimo jus sperneandi. Em outras palavras, ninguém é impedido de chorar. Mesmo que nenhuma lágrima tenha rolado pela morte de quase 700.000 mil infectados pela pandemia, o direito ao chororô é irrecusável. O objeto das manifestações e a mensagem que as sustenta, todavia, constitui crime. Além de atentar contra o Estado Democrático de Direito, em flagrante e inadmissível ofensa à Constituição, os atos incidem em infração fácil de identificar. Até onde se sabe, as áreas onde se estabelecem unidades militares têm restrições de uso e tráfego, como os têm os perímetros onde se instalam hospitais. Mesmo assim, o comando das unidades para onde é atraída a turba irresignada mostra tolerância que se duvida fosse a mesma, caso um grupo de sem-terra ou sem-teto fossem os manifestantes. Trata-se, portanto, de tolerância perigosa, quem sabe a porta aberta que estimulará futuras manifestações. Qual a autoridade dos comandos, se amanhã outros grupos de manifestantes convocarem seus integrantes, mobilizarem veículos, auto-falantes e outros equipamentos e os instalarem à porta dos quartéis? Por certo, tais riscos não deixaram de ser avaliados pelos comandos. Afinal, ninguém melhor do que os membros das forças armadas, para tratar do assunto. Seria absurdo, pelo menos por enquanto, admitir a conivência de qualquer dos comandantes com a ocupação dessas áreas por confrontadores da Constituição. Esperar, contudo, que outros grupos de manifestantes se sintam estimulados a repetir as concentrações dos derrotados nas urnas, é ir longe demais. Por isso, a demora em demover os manifestantes de hoje, afastando-os da frente dos quartéis, pode levar à suspeita de que não se trata de tolerância demasiada ou exagerada leniência, mas de simples conivência ou cumplicidade.

 
 
 

Desejássemos todos todo tempo aprender, poucos teriam melhor momento como esse para fazê-lo. O perigo e os desafios que a Vida nos impõe parecem mais propícios ao aprendizado que os momentos de euforia. Mesmo que estes aconteçam e produzam alegria, exatamente porque os outros, cheios de circunstâncias adversas foram superados. Aprende-se, por exemplo, que o barro de que são feitos uns não é o mesmo barro usado na criação de outros. Que bons e maus convivem apenas porque aos bons não ocorre de quererem eliminar os diferentes. Vê-se, como se tem visto, a mensagem de que o olhar e o menor gesto de um fazem contrastar com o gesto e o olhar do outro. A ternura, o amor, a solidariedade extravazando da pupila de um correspondendo ao ódio, à agressividade, à grosseria do outro. Os braços e mãos acolhedores e hospitaleiros em correspondência com a hostilidade, a ameaça e a violência contida no outro. Pode-se encontrar certo tipo de sabedoria nessas diferenças, até o ponto de ver a contradição como princípio fundador da sociedade que se diz humana. Não fossem aqueles indivíduos avaros das condiçôes de que trata Hannah Arendt, como elaborar razoável conceito de humanidade? Como saber do dia, se não conhecemos a noite? Esta a lição aprendida, ao longo desses quatro anos brasileiros. Um período em que a dor foi maior, construída com o tecido de um vírus e os ingredientes extraídos de vermes com aparência que alguns ainda não perceberam nada ter de humana. Em todo caso, aprendemos. Porque aprendemos, mais aumenta nossa responsabilidade. Mais que ela, o compromisso de não cometer os mesmos erros. Além dele, o de pôr a lição aprendida a serviço da paz, da tolerância, do respeito ao outro, enfim - da Vida. Sem esquecer do dever e do amor com que nos conduziremos, enquanto os vermes se dissolvem no caldo de cultura que lhes é próprio.

 
 
 
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