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Precisamos nos dar conta das farsas a que somos levados, às vezes por pura desatenção. Outras, menos frequentes eu gostaria de dizer com convicção, inspiradas pelos piores sentimentos, valores, interesses e práticas. Por isso, mesmo que se tenham passado três décadas, somos confrontados com situações que nos esforçamos por superar neste período. Quem imaginaria que, depois da Constituição dita cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, nos veríamos diante de novo processo de redemocratização? Pois não é outra a situação enfrentada, desde 2016. A derrubada da Presidente Dilma Rousseff, o abrir de porteiras que deixou passar bois e outros animais, trouxe-nos de volta os riscos de ingressarmos em novo período autoritário. Pior, conquistou certos setores da sociedade, na mais odiosa e criminosa campanha que não poupou qualquer classe social. Mesmo os endinheirados, que construíram fortuna graças aos cofres públicos e ao suor, quando não o sangue, dos trabalhadores, não se percebem em risco. Já nem falo do que se diz, a respeito da pessoa, avessa à política e indiferente, que ao fim e ao cabo acabou não tendo quem a defendesse, quando os algozes chegaram. Tudo lhe era desimportante, enquanto não fosse ela mesma o alvo do ódio dos governantes ou ocupantes do território por ela habitado. Isolou-se e teve o mesmo destino dado às vítimas anteriores. Se levarmos esse comentário pelo caminho da Economia, fica fácil constatar quanto o processo de extraordinária acumulação e concentração da riqueza tem poucas chances de resolver qualquer dos problemas com que convive a maioria da população. O desprezo pela fatia mais pobre, que a condena à fome e, no final, à morte pela desnutrição ou a aquisição de doenças preveníveis é apenas uma das facetas tão bem manejadas pelas elites brasileiras. Sempre será preferível a elas manter a dependência a que a fome obriga crescente massa populacional. Com a abjeta vantagem de demonstrarem generosidade e caridade que não é se não a forma de perversidade mais sofisticada que se conhece. A classe média, de quem se recolhem os impostos destinados à prática malsã indicada, cada dia também se vê punida com a perda do poder aquisitivo. Tudo, para manter a brutal desigualdade social e econômica, como se isso tivesse algum mérito ou o menor grau de humanitarismo. É disso que devemos todos tratar, sob pena de, não demorará muito, chegar o dia em que fábricas terão que fechar, porque não haverá quem compre o que elas produzem. Talvez os livros Diário, Caixa e Razão devessem ser acrescidos nas estantes dos endinheirados, com alguns poucos livros de História.

 
 
 

Nascidos ambos no Nordeste, Graciliano Ramos (conhecido nos meios intelectuais como Graça) e Luís Inácio Lula da Silva, que o amor do povo chamou Lula, têm algo a ver um com o outro, mais que a data de nascimento - 27 de outubro. O escritor alagoano consagrado pelas obras Vidas Secas e Memórias do Cárcere revela em seus escritos enorme sensibilidade social e indiscutível talento ao levar seus sentimentos, impressões e interpretação da realidade humana para as páginas impressas. Já nem se contem as belas peças literárias à guisa de relatórios por ele produzidos, na cidade em que prestou serviços como funcionário público. Foi prefeito de Palmares, em Pernambuco. Lula, em sua trajetória construída dentro de fábricas, também olhou para a comunidade de trabalho de que fez parte, com o olhar aguçado e atento que levou Graça a situar-se e descrever sua província. De lá partiu a resistência à iniquidade reinante em sua época, que a sucessão dos anos e décadas não eliminou. Muito por causa da persistência dos males com que a região Nordeste convive há séculos, Luís Inácio emigrou. Pegou um pau-de-arara (que Graça parece não ter conhecido, por menor a quantidade de brilhantes ustras, ou menor a perversidade dos torturadores de então), e tratou de sobreviver em São Paulo. A que se tornou conhecida como a locomotiva do Brasil. Não era outra coisa, realmente. Nem sempre tendo esclarecido esse conceito e identificadas as forças que faziam aquela unidade federativa tornar-se a principal cidade da América Latina. A máquina que empurrava a locomotiva nutria-se não apenas do carvão vegetal, porque a este se misturava - como ainda mistura, em grande medida - o suor (às vezes, o sangue) de muitos emigrados dos Estados mais pobres, a maioria deles situada no litoral nordestino. Os mesmos que, humilhados por certa parte da população bem-posta na vida, foram vingados em 30 de outubro de 2022. Ambos foram afastados do convívio dos familiares, dos colegas de trabalho e da vida mundana, como preço pago pela clarividência e pelo compromisso social de que não abriram mão. Graciliano foi preso pela ditadura em avançado processo de instalação (1936), passando 9 meses preso. Depois, libertado por falta de provas, transferiu-se para o Rio de Janeiro, ainda capital da República ameaçada. Lula foi preso por quase dois anos, em processo parcialmente conduzido, razão pela qual também ganhou a liberdade. Em tempo de cárcere mais extenso que o imposto ao maior ficcionista moderno do Brasil, na prisão o ex-metalúrgico traz à luz proposta de governo capaz de, ao menos, reduzir os males que ele e o outro imigrante nordestino sofreram na pele e viram e veem tantos outros nordestinos sofrer. Estão dentre os que contam a experiência do cárcere, Antônio Gramsci e Mandela. Não sabemos o nome dos que os encarceraram.

 
 
 

Os habitantes das regiões tropicais sabemos quão variada e numerosa a população de insetos com as quais convivemos. Não que eles estejam ausentes em outros continentes e latitudes. Na Amazônia, porém, eles parecem mais abundantes, sendo quase certa a existência dos que a Ciência ainda há de descobrir e identificar. Essa mesma Ciência rejeitada pelos energúmenos, de espécies e variedades igualmente múltiplas. Não faz muito tempo, tive notícia de uma nova disciplina da área jurídica, Entomologia Forense, resultante sobretudo do esforço de biólogos dedicados ao estudo dessa classe de animais. Os conhecimentos acumulados permitiram expressivo avanço na determinação do momento da morte, levando em conta a presença de certa variedade daqueles pequenos animais, na cena do evento. Em geral, refestelando-se com as carnes podres do morto. Certamente, um grande avanço da Biologia, com reflexo direto na Criminologia. A presença de insetos no ambiente dos vivos (até demasiadamente vivos) também tem algo a ensinar. E não só no que pertine aos parasitas, como as pulgas e carrapatos. Ainda que em alguns casos cumpram o mesmo papel social. Olhem-se os protagonistas das cenas políticas, e neles fica fácil identificar algumas dessas variedades de que trata a Entomologia. As mariposas, por exemplo, buscam luz e calor, por isso que se aproximam das lâmpadas e refletores. Os rola-bostas procuram os cadáveres ou os moribundos, campo propício ao cumprimento de seu destino natural. Se o leitor olhar com atenção a coorte dos que atraem os insetos que circulam no ambiente político, sem dificuldade identificará os carrapatos, as mariposas, as traças, os rola-bosta e tantas outras variedades, de voo quase previsível, a cada troca de guarda. Quase esqueço de dizer: saber se o protagonista principal é cadáver (político, moral, físico etc.) ou ser reluzente é tarefa muito fácil para quem tem o mínimo conhecimento - de insetos e seres ditos humanos. Olhe-se em volta deles, o quanto bastará!

 
 
 
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