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Têm aumentado as críticas à forma como a grande imprensa noticia os fatos. À parte a análise e interpretação oferecidas por profissionais das diferentes especialidades, encontram-se matérias que prejudicam o serviço a ser prestado ao público leitor – as informações, fiéis espera-se sempre, à realidade. Não tem sido assim. Quem perde é o leitor, uma vez que a informação chegada já traz carga ideológica ou preconceituosa que acaba por exercer influência sobre o leitor. Dei-me conta disso com maior clareza, agora, e não por alguma razão de ordem mais profunda. O fato tem a ver com o comportamento do jogador Neymar, a meu juízo um péssimo cidadão, por melhor que seja seu futebol. Os que só o veem como atleta e dispensam algumas das poucas virtudes que todo homem tem dentro de si, pouco caso fazem disso. Talvez se deixem influenciar pela rede de marketing que sustenta a imagem dele, mesmo depois de se saber que não são louváveis as relações por ele mantidas com o Fisco Nacional. Isso me faz lembrar de um dos melhores jogadores do futebol brasileiro, Zico. Excepcional no seu mister, o jogador do Flamengo também tinha seus dias aziagos. Quando a bola se recusava à alegre e apreciável cumplicidade com os seus pés. Perder pênalti, dar passes errados, aplicar algumas botinadas nos adversários, irritar-se, tudo isso aconteceu com ele, em sua brilhante trajetória desportiva. Assisti a alguns desses maus momentos, diluídos em outros de enorme brilho e inquestionável habilidade que Zico ostentava. Não mudava o tom do noticiário, porém, mesmo se o dia anterior se inscrevia dentre os piores do exercício profissional do Galinho de Quintino. Parecia haver certa máquina de propaganda em franca e livre operação dentro das redações. Quantas foram as vezes em que saí do Maracanã frustrado, porque esperava uma coisa e vira outra. O mau jornalismo a serviço da mentira e todas as distorções que isso determina. Não é outra a conduta de grande parte dos media brasileiros, em relação a Neymar. Como se, dentro das redações, houvesse uma blindagem a qualquer notícia que não satisfizesse o ego de uma criança mimada que não conseguiu se fazer adulto. A ausência desse atleta nos jogos da seleção, que para muitos dos seus incensadores parece decretar a desclassificação da seleção brasileira, no meu entendimento é propícia a resultado contrário. Durante todo o primeiro tempo do jogo contra a Sérvia, ele não chegou a justificar sua escalação. O noticiário do dia seguinte tentou passar a ideia de que ele teve desempenho excepcional. Raros os comentaristas que destoaram do estribilho. No entanto, a pintura produzida por Charlison ficou em segundo plano. Ninguém sequer cogita das consequências do extremado individualismo de Neymar e o que isso pode causar à integração da equipe. No entanto, têm sido vários e multiplicados os momentos em que ele põe à mostra o potencial desagregador, em todo caso prejudicial ao trabalho em grupo. Em todo caso, não há como ignorar a importância de relacionar esse endeusamento imbecil com o chamado mercado. Aqui, o que conta é quanto em moeda se pode ganhar. Afinal, o futebol é o melhor exemplo de globalização que se pode dar: é negócio que enriquece a multinacional chamada FIFA e os que à sombra dela, em estádios ou fora deles, no gramado na maior parte do tempo, fazem fortuna.


 
 
 

Há algumas coisas que ainda estão por esclarecer, diante da recusa do governo moribundo e seus apoiadores em aceitar o resultado das eleições. Também das razões que justificam a prática do crime continuado, a despeito de a autoridade competente já se ter manifestado. O que traz outro aspecto a iluminar: os motivos por que o Poder Judiciário - o único com autoridade atribuída pela Constituição - não age como de seu dever - ou seja, coercitivamente obter a obediência dos delinquentes, ao invés de fingir que esqueceu suas próprias decisões, em sentenças, acórdãos e despachos. Ao que se sabe, a aglomeração à porta dos quartéis continua, tanto quanto o bloqueio de rodovias. Também se sabe da forma como têm sido repelidos movimentos de segmentos sociais representativos da multidão dos excluídos, substancialmente diferente da acolhida e da proteção que vem sendo dada aos agressores do Estado Democrático de Direito. Mesmo se não desejássemos estabelecer comparações, embora elas valham, bastaria atentar para certos pontos merecedores de reflexão. Um deles diz respeito à inscrição mostrada nos muros dos quartéis, onde se lê a proibição de estacionamento de veículos nos locais, tidos como área militar. Cada brasileiro tem uma história para contar, a respeito dos constrangimentos passados, se o veículo por ele conduzido sofreu uma pane e ele não teve como fazer, se não estacioná-lo na dita área de segurança. Logo lhe veio o membro da guarda do estabelecimento, impondo as restrições cabíveis, pelo que representa de ameaça a um bem da União. Qual a motivação dos manifestantes, nenhum dos quais ignorante do crime que vem praticando? O que esperam eles, e quem lhes fornece os bens materiais, inclusive alimentação, que lhes permite a prolongada permanência naquele local ? Certamente, os delinquentes mobilizados contam com apoio de terceiras pessoas ou instituições que ainda não se conseguiu identificar com a clareza necessária. Ou há de fato articulações golpistas destinadas a causar tumulto na passagem da Presidência da República ao qual 60 milhões de brasileiros emprestaram apoio? Nunca será demais lembrar o episódio promovido, patrocinado e desencadeado pelo ex-Presidente Trump, de que resultou a morte de algumas pessoas, além dos danos causados ao patrimônio público norte-americano. Então, o cumprimento da Lei de Transição é mera farsa, frustrada que será, se algo diferente da simples e cerimoniosa passagem de poder ocorrer? É hora de pôr as cartas (eu não disse armas, que estas devem estar ensarilhadas) na mesa e fazer valer o que vale em toda a democracia merecedora dessa classificação.

 
 
 

Pouco a pouco, vai-se voltando à normalidade, ainda que este seja conceito variável segundo quem o formule. Há os que veem normal a violência recorrente, tanto que não se pejam em defender, promover e disseminar o livre comércio, porte e uso de armas de fogo. Ou seja, a normalidade, como tudo o que envolve interesses diversos, enseja significados igualmente diferentes. As previsões do que será o próximo mandato do Tripresidente não fogem a essa regra. Os que a ele se opõem preferem esquecer tudo quanto ele foi nos dois períodos em que governou, e desconfiar do que ele vem prometendo. Nesse caso, preconceitos, todos eles gerados pelo ódio à Vida (dos outros) e pela exacerbação de sentimentos excluídos do que consideramos condição humana. Daí a suposta oposição do mercado, especialmente aquele que mexe só com papéis, quando o segmento correspondente nunca teve ganhos maiores do que os obtidos nos governos Lula. Muitas lideranças evangélicas continuam a disseminar teses apocalípticas, como se não fosse o mesmo o Presidente que assinou pelo menos duas leis que asseguram o respeito a todas as profissões religiosas e o livre funcionamento de seus templos. Até os que se viram privados da terceira refeição e contavam ter definitivamente se libertado da fome acham de engrossar a cantilena mentirosa e, no limite, criminosa dos nossos últimos dias. As Forças Armadas, em cujo seio se abriga boa parte de protetores dos delinquentes de porta de quartel (que Humberto de Alencar Castelo Branco chamava vivandeiras provocadoras dos granadeiros) não têm uma só queixa do tratamento que lhes foi dispensado por Luís Inácio Lula da Silva, ao longo de seus dois mandatos. Terá sido a última vez em que demandas das três forças contaram com a atenção e o respeito de seu então comandante-em-chefe, jamais empenhado em torná-las uma espécie de milícia ou guarda pessoal. Os 87% de aprovação, quando descia - não quando subia - a rampa do Planalto parecem nada dizer a esses círculos, talvez prova mais que provada de que posição social e econômica e escolaridade nem sempre trazem sabedoria e discernimento. Resta, então, olhar atento ao que se chama interesse, nem sempre legítimo, honesto e humanitário. O desavisado prontamente atribuiria a resistência à resposta das urnas de outubro à perversidade que ajudou a covid-19 a matar quase 700.000 pessoas. Ou o desejo de estancar a violência aumentada pela normalização do uso de armas de fogo. Ou, ainda, ao impedimento e repressão da desertificação da Amazônia. Com a habilidade e o talento de que ninguém pode duvidar se o mínimo de bom senso houver e um pouco de honestidade restar, Lula vai vencendo as barreiras que fogem, mais que à realidade, às necessidades do País. A começar pela escolha do vice-Presidente, um homem que, apesar de ser tido - e razões não faltam - como de direita, é também um homem direito. Depois, por ampliar o palanque eleitoral segundo critérios nem sempre aceitos por seus próprios correligionários. Reúne-se em torno de Lula, portanto, o que poderíamos chamar de ecumenismo político, tanta a capacidade do líder que começou no chão de fábrica e ocupa lugar de destaque na sociedade mundial. Aqui, outra particularidade de que não se pode jactar qualquer antecessor de Lula: de pária na sociedade internacional, o Brasil tornou-se protagonista, recuperando a altitude perdida desde que o ex-metalúrgico desocupou o Planalto. Uma metáfora se impõe: o Brasil volta ao planalto, depois de chafurdar em extenso e insensato lodaçal.

 
 
 
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