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Vejo o que os entendidos em Economia chamam círculo (ciclo, para os outros) vicioso, na experiência e no palavrório que tenta explicá-la. Mesmo admitindo a complexidade dos problemas que afetam as relações entre seres nada simples, muitas vezes a complexidade alegada se vê agravada pelos interesses que a contaminam. Os alunos do primeiro semestre dos cursos de Economia sabem quais os fatores de produção e como funciona o sistema econômico. Toscamente embora, podemos afirmar que sem consumidores de nada valeria mobilizar os fatores de produção, tanto quanto sem renda que possa ser gasta na aquisição dos bens e serviços produzidos e oferecidos, não faria sentido produzir. Consumidores e investidores, portanto, são os termos da equação. um existe para justificar o outro, e vice-versa. Dada esta primeira premissa, é preciso lembrar a exigência imposta pelas relações entre os que produzem (e os que os financiam), relativa ao instrumento mediador, o dinheiro. Qualquer que seja o meio de pagamento, a transferência do dinheiro de um para o outro termo da equação depende do poder aquisitivo de quem consome. Tantas são as repercussões desse fato na Economia, que é preciso superar a análise (?) estreita, intelectual e politicamente desonesta, a que se entrega e se limita expressivo número de supostos especialistas. Discute-se a autonomia - ou, na verdade, soberania? - do Banco Central, sem que questões correlatas sejam igualmente apreciadas. Os números da taxa de juros parecem absorver todas as preocupações, mesmo se é registrado crescente e angustiante endividamento da população. Por si só, este já é indicativo da má saúde do sistema econômico. Quase ninguém diz que o individamento é devido, primeiro, ao fato do salário miserável pago ao trabalhador. Em contraposição ao enriquecimento ascendente do patronato. Depois, a necessidade dos endividados os torna reféns das taxas bancárias que os fazem apertar cada dia mais o próprio cinto. Qual o destino do dinheiro, se não o setor rentista? Também é curioso observar que quanto mais dinheiro eles retêm, mais crescem os juros. Aí, uma contradição à sagrada lei do mercado. Grande a oferta, mais è cobrado pelo dinheiro que endivida as famílias. Alguém acaba de lembrar: a autonomia do BC, tão furiosamente defendida em relação ao Poder Executivo, não o impede de ser refém do setor financeiro.


 
 
 

Afora o malestar que deve ter causado ao ex-Presidente fujão, o encontro do Tripresidente Lula com seu colega norte-americano faz crescerem as esperanças nascidas em 01 de janeiro deste ano. A começar pelo tempo que Joe Biden dedicou à conversa com Lula, cerca de uma hora, até a pauta dos assuntos tratados, tudo anuncia uma nova forma de aproximação entre os dois governos. Sem subserviência ou alinhamento automático, mas relações atentas às mais graves ameaças que pesam sobre o Planeta, não apenas a cada uma das nações e Estados reunidos dia 10 no salão oval da Casa Branca. Destaco, em primeiro lugar, os itens referentes à defesa intransigente da democracia mundo afora e às ameaças do aquecimento global. No primeiro caso, algo muito diferente do passado, remoto e recente. Para derrubar João Goulart em 1964, os patriotas à brasileira seguiram a ferro e fogo os conselhos do coronel Vernon Walter e do embaixador Lincoln Gordon. Mais recente é a reverência de um Presidente brasileiro ao Pavilhão nacional dos Estados Unidos da América do Norte. Acrescida da imitação grotesca do ataque em Brasília, às sedes dos poderes republicanos, dia 8 de janeiro último. Foi outro o clima do encontro Lula-Biden, do qual também merece destaque a forma como o Presidente brasileiro se conduziu. Mesmo sabendo da disposição do governo do anfitrião de conceder 200 milhões de dólares para o Fundo da Amazônia, Lula reivindicou auxílio mais vultoso e significativo para combater o aquecimento global, onde quer que a ameaça se revele. Isso significa dizer, os países mais pobres. Por isso, penso plausível de que Lula falou não apenas para os norte-americanos e brasileiros, mas para a comunidade internacional. Afinal, chegar ao assento efetivo do Conselho de Segurança da ONU é antigo desejo do Brasil. Sem esquecer que o ex-Presidente fujão já foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional. Lula, como se sabe, desfruta de enorme prestígio no exterior.

 
 
 

Há algo de semelhança entre os arruaceiros que se reuniram à porta dos quartéis do Exército, desde 30 de outubro do ano passado, e os garimpeiros que agora tentam obter ajuda dos órgãos que desrespeitaram e das autoridades que, por leniência ou cumplicidade os deixaram invadir as terras reservadas aos povos originários. Se é facilmente datada a ação cujo desfecho foi o terrorismo praticado contra as sedes dos poderes republicanos, no outro caso torna-se mais difícil a datação. Vem de tão longe (dizer de 1500 até aqui não seria despropósito) e envolve tantos interesses lesivos à maioria da população, que ano, dia e hora tornam-se quase impossíveis de fixar com bom grau de certeza. Por enquanto, os que praticaram crimes contra a democracia e o Estado de Direito desfrutam de tratamento digno que eles mesmos negariam àqueles de quem divergem, julgando-se hóspedes das Penitenciárias mantidas com o imposto de todos os cidadãos não-sonegadores. Ainda assim, tais presidiários desejam participar de chás das cinco e happies-hours, além de banho quente e comodidades de que alguns não dispõem em suas próprias residências. Os outros, invasores de terras indígenas, estupradores e praticantes de crimes contra o meio ambiente envolvidos no genocídio dos Yanomami tentam fazer exigências descabidas, como se a condição de delinquentes desse a eles o direito de extorquir das autoridades o que por justiça não lhes pode ser dispensado. Os casos, vê-se logo, são diferentes primeiro pelo palco em que se desenrola a pantomima. Uns, na praça principal da capital do País; os outros, no interior da floresta amazônica. Há, no entanto, certa similitude entre os dois grupos, dadas a motivação delinquente de que ambas se fazem veículo, e os vínculos sociais mantidos com os que financiam e protegem suas atividade criminosas. No primeiro caso, os maiores interessados nos resultados felizmente frustrados deixaram-nos sob o sol e a chuva, durante prolongado período, enquanto desfrutavam das delícias oferecidas em outras cidades, inclusive no exterior. No segundo, os patrocinadores do crime ou os que a eles se acumpliciaram, por ação ou omissão, fazem conhecer o propósito no mínimo extorsivo. O porta-voz dos interesses dos invasores e seus financiadores não é menos que o governador de Roraima. Dele o Presidente do Senado recebeu a proposta de promover, com dinheiro público, a remoção dos delinquentes, agora esquecidos e abandonados por seus financiadores. Esta, a conduta copiada dos interessados no golpe de estado. Invasores de terras e terroristas, da porta dos quartéis e da praça dos três poderes, todos meras buchas de canhão. De um pedaço de madeira nunca se fará um anel de ouro. Tanto quanto um monte de esterco jamais produzirá um gostoso pudim.

 
 
 
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