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É possível conviverem em paz raposas e galinhas? Essa resposta poderá ser dada, se as palavras do senador Francisco Rodrigues (PSB-RR) forem levadas a sério. Não no que repetem o que dissera o Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a respeito da esdrúxula Comissão Externa de Acompanhamento dos Garimpeiros. Se apenas repetirá o resultado de tantas outras comissões ou órgãos coletivos ou se, ao contrário, puser fim à exploração das terras demarcadas e ao povo que as habita, terá desfeito as suspeitas até agora justificadas. Não porque o representante do Estado de Roraima tornou-se notório por prática no mínimo criativa e malsã, qual seja esconder dinheiro vivo nas próprias cuecas, mas pela conduta em relação à tragédia que atinge os yanomami. Conduta incapaz de ser desfeita, mesmo depois de guindado à posição de Presidente da esdrúxula Comissão. A entrevista prestada por Chico Rodrigues, como é conhecido, pressionado pela bancada de jornalistas da Globo News (Edição das 17:00, dia 16-02-2023) apenas acrescentou à má - certa ou errada - imagem que se tornou notória, a tentativa de inverter a realidade. Para ele, os mais primitivos (como ele mesmo, sem rodeio afirmou) indígenas do País merecem menos atenção que os garimpeiros, vítimas, não executores de crime financiado por terceiros. Estes, segundo o mesmo senador, exploradores dos que em seu nome atuam ilegalmente nas terras que abrigam e alimentam os yanomami. Não se atribui ao Presidente da zombeteira Comissão Externa (externa a que? e a quem?) participação nas denúncias há dezenas de anos feitas a respeito da ameaça de extermínio daquele povo da floresta. Se alguma informação há sobre isso, ela se restringe à suspeita de que os vínculos do parlamentar com a bancada da mineração e seu respectivo lobby há muito deixaram de ser simples simpatia. O bloco de rua fluminense Simpatia é quase amor bem traduziria as relações entre Chico Rodrigues e os defensores das práticas danosas à sobrevivência dos yanomami. De qualquer maneira, e para não fugir à rotina, que ninguém se admire quando algum dos membros do lobby tornado Comissão Externa propuser a troca de nome da Comissão. Enquanto o conteúdo dos interesses nela instalados e as ações por ela iniciadas manterão vivos os propósitos da bancada da mineração. Aí, e só aí então, saberemos da possibilidade ou não de raposas e galinhas conviverem em produtiva fraternidade.

 
 
 

Meio século depois, escancara-se no Chile a causa da morte do poeta Pablo Neruda. Defensor da democracia, o autor de Confesso que vivi foi preso e perseguido pela ditadura de Pinochet. Os beleguins do regime por cinco décadas atribuíram a morte do anfitrião de seu colega poeta e diplomata também Thiago de Melo, ao câncer de próstata. Com essa enfermidade, o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1971 tinha convivência pacífica. Como não podia ter, em relação à ditadura chilena. Aqui, o acobertamento e a louvação da tortura e do assassinato de divergentes não só passaram a objeto de adoraçáo, como ainda produziram fatos e atos mandados para a obscuridade do sigilo centenário. Nesse caso, os alunos dustanciaram-se dos mestres e adestradores de cujos ensinamentos e instrução muito se beneficiou a ditadura chilena. Lá, a duras penas, a sociedade removeu as pedras, talvez não tão pesadas quanto as que fazem do esquecimento um grande cobertor das atrocidades cometidas.

De Pablo Neruda, um poema:


O Pássaro Eu

Chamo-me pássaro Pablo, ave de uma pena só,voador na escuridão clara e claridade confusa,minhas asas não são vistas,os ouvidos me retumbam quando passo entre as árvores ou por debaixo das tumbas qual funesto guarda-chuva ou como espada desnuda, estirado como um arco ou redondo como uma uva, voo e voo sem saber, ferido na noite escura, aqueles que vão me esperar, os que não querem meu canto, os que me querem ver morto, os que não sabem que chego e não virão para vencer-me, a sangrar-me, a retorcer-me ou beijar minha roupa rota pelo sibilante vento.Por isso eu volto e vou, voo mas não voo, mas canto: pássaro furioso sou da tempestade tranquila.

 
 
 

Inquieta-me o noticiário, quando trata da anunciada reforma tributária. Aprendi no curso de Direito, em disciplina chamada Ciência das Finanças, a contribuição dos tributos para reduzir a desigualdade. O que se noticia, sobretudo em relação à PEC-45 e à outra, em tramitação no Senado, é desanimador. Por enquanto, não se pode esperar mais que uma - digamos assim - harmonização facial, para adequar a aparência, sem que o efeito chegue à alma do sistema tributário. E seus fundamentos, por óbvio. Quando se pensa a hora de repetir o fabuloso Robin Hood, a ênfase é dada à simplificação do sistema e, no máximo, à extinção de alguns impostos. Muitos destes, por vocação e visão de Mundo, fartamente sonegados. Da tributação das grandes fortunas e dos lucros extravagantes amealhados em operações nem sempre legais, nada mais se disse. Nem se espera que abandonem a obscuridade em que sempre se mantiveram. É de lembrar, por oportuno, o grupo de pessoas das mais ricas do mundo reivindicando a tributação mais pesada de seus ganhos. Lá fora, é claro! Diferentes de Maria Antonieta, eles sabem que não haverá pão nem brioche, a permanecer a desigualdade duramente por eles conquistada e imposta aos outros. Por eles mesmos e seus cúmplices

 
 
 
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