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Virada histórica

Nos primeiros anos da década dos 1980, anunciava-se a distensão lenta, gradual e segura, como a qualificou o ditador Ernesto Geisel. Antes da metade desse período, a palavra de ordem ganhava o País e aproveitava o esgotamento das possibilidades da ditadura resultante do golpe de 1964: diretas já! Era o grito que ganhava as ruas e punha em risco o sonho dos autoritários. Fazer o que seu objeto de admiração não conseguira, depois que a Constituição de Weimar, na Alemanha, foi rompida, tornava-se cada dia mais improvável. Nas universidades, incluídas dentre os alvos preferenciais dos nazifascistas, não era diferente. Os ideais interrompidos duas décadas antes sentiram-se soprados por novos ventos, que nem a derrota do projeto do deputado Dante de Oliveira fez arrefecer. Ao contrário, crescentes multidões, País adentro, dispunham-se a construir o que se chamou uma nova república. Ela não veio, nem na forma com que Tancredo Neves foi eleito, nem nos resultados do governo que ele não chegou a dirigir. A morte do político mineiro eleito pelo Congresso, contudo, não enfraqueceu o desejo de levar para os covões da História a tragédia experimentada desde 1 de abril de 1964. Antes entregue ao arbítrio (como tudo o mais no Brasil daquele então) de militares, a disciplina Estudo de Problemas Brasileiros, peça importante da doutrinação reacionária, passaria a ser ministrada ou coordenada por profissional dos quadros docentes da universidade. Diretor da Faculdade de Estudos Sociais, assumi a responsabilidade docente que reunia aos sábados os matriculados em EPB. Era preciso substituir o conteúdo e o formato das aulas, escoimando-as do caráter de lavagem cerebral, ao mesmo tempo fazendo mais próximos os estudantes, de fatos relevantes da História do Brasil. Enfim, informando o que o formato anterior impedia, estimulando a curiosidade dos alunos e chamando-os a expressar seus próprios anseios e ideais. O auditório da FES recebia média semanal de quase 200 universitários, matriculados em diversos cursos de graduação. Havia alunos de todas as áreas, dos cursos de saúde aos de tecnologia. Eles assistiam, entre a perplexidade e a curiosidade, a documentários produzidos pelo cineasta fluminense Sílvio Tendler, morto dia 5 de setembro de 2025. Graças a esse profissional comprometido com os mais justos anseios democráticos e os ideais que animam os melhores cidadãos, aquele foi tempo em que a mentira teve pouca probabilidade de se impor. Sirva este texto como homenagem a Sílvio Tendler.

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