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Vendem-se serviços de limpeza geral e irrestrita

Marcelo Seráfico*


No dia 16 de setembro, a toque de caixa, como parece ocorrer sempre na Câmara Federal, formou-se uma rede partidária nacional, unindo suas excelências num empreendimento já lucrativo, mas que agora tende a ser ainda mais seguro.

344 empreendedores fecharam esse negócio, frustrando o compromisso público de 133. Dentre os "business men" estão pessoas levadas à Câmara por partidos que vão do centro à extrema direita.

Apenas os partidos identificados com o espectro político da esquerda e da centro-esquerda votaram contra a Emenda Constitucional 03/21, cujo fim é assegurar a suas excelências as condições necessárias a empreenderem sem riscos, sem que seus esforços sejam constrangidos pelas regulações do Estado, uma das quais, quando funciona, é extremamente prejudicial à lucratividade dos negócios: a Justiça.

A Emenda, agora incorporada à Constituição, protege os deputados do Povo, esse personagem incômodo da história nacional e internacional.

O Povo, do qual são extraídos os votos para elevar à condição de deputados pessoas de distintas origens e áreas de atuação, agora pode ter certeza do que já desconfiava: 2/3 dos parlamentares eleitos com seu voto aspiram a paz, tranquilidade e estabilidade sem as quais os empreendimentos, econômicos ou não, ilegais são constantemente assombrados pelo cárcere, o único fantasma que lhes dá algum medo.

A PEC da Bandidagem, como vem sendo furiosamente chamada pelos perplexos cidadãos. Esta, a bandidagem, que que sabe fazer da dificuldade uma oportunidade, que do limão faze limonada, já pode fixar à frente do monumento do Poder Legislativo nacional, a placa em lâmpadas de led verde e amarelas: VENDEM-SE SERVIÇOS DE LIMPEZA GERAL E IRRESTRITA.

Se restava à patuléia alguma dúvida de que os senhores por ela investidos de poder, nada querem para ela e por ela, chegou a hora da certeza.

O voto dos 344 deputados federais liberando a si mesmos para as mais diversas e criativas formas de ilicitude, é uma declaração de libertação do legislativo. Os senhores deputados promulgaram sua própria liberdade, com assinatura firmada em cartório: declaramos para os devidos fins não temos nada a ver com quem nos elegeu!!

Agora, sim, podem ocupar seus CPFs com os CNPJs que lhes garantem uma vida plena e abundante. Poderão, mantida a indecência, dedicar-se aos negócios que os entretém e concentrar-se na defesa dos interesses de quem os paga.

Viva a livre, desregulada e canalha iniciativa!!!

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*Sociólogo, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFAM.

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