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Donald Trump é o mordomo da vez

Pode crer. O Trump é só o mensageiro. Os mandachuvas continuam aqueles, desde quando a América relançou a democracia, no séc. XVIII: magnatas do petróleo e carvão, bancos, fábricas de armas e, dessa vez, as big techs. Quando proclamaram a independência, os EUA deram uma mão de pintura no mercantilismo colonial do séc. XVI, que havia embarcado nas caravelas da monarquia europeia. Instalada a república moderna, os norte-americanos notaram rapidamente que nem tudo no imperialismo europeu era uma má ideia para os lucros. Pelo contrário, ainda daria pra ganhar uma boa grana mantendo os negros na escravidão e entrando no mercado global da colonização. O ‘berço democrático’ tornou-se logo na largada candidato ao ranking de maior império da história.

O cineasta Oliver Stone revela os bastidores desse roteiro em seu surpreendente livro “A história não contada dos Estados Unidos”. Ele percorre a construção geopolítica do país, confrontando o mito do “destino manifesto americano” com uma expansão imperialista obsessiva nesses 200 anos de existência. Stone demonstra como a ‘América’ partiu a galope para a conquista do mundo, sob o mantra de que o Tio Sam era o mocinho que batizaria a humanidade com a água benta da liberdade (e do mercado, é claro).

Nessa toada, a Casa Branca – habitada por republicanos ou democratas – ganhou alvará de balcão do ideário capitalista liberal. O que é bom para as grandes empresas é bom para o país. A depender do partido e das circunstâncias, a balança pende um pouquinho mais para os ricos ou para a plebe. O livro de Stone detona a lenda da Pax Americana com o desabafo do General Fuzileiro Smedley Butler, herói condecorado das principais investidas imperialistas dos EUA na América Latina, Pacífico e Ásia já no comecinho do séc. XX: “Passei 33 anos da minha carreira militar servindo como capanga de luxo das grandes empresas, Wall Street e banqueiros […] eu era um gângster a serviço do capitalismo”.

Servindo sob a presidência de William McKinley (eleito em 1900) e do seu sucessor Theodore Roosevelt, o General Butler descreve como os EUA haviam tomado o controle das Filipinas, Porto Rico, Cuba, Guam, Pago Pago, Midway, Honduras, Nicarágua, Panamá, Guatemala, República Dominicana, Haiti, tendo ainda anexado o Havaí e metade do território do México, e atacado até mesmo a China e a Colômbia. O General relatava que “a guerra era um negócio ilícito”, em benefício de corporações conhecidas, como City Bank, Standard Oil, Ford, Winchester Arms, Brown Brothers, J P Morgan, Rockefeller, Du Pont, Remington, Rotchild, entre outras.

Oliver Stone prossegue, acrescentando que a I Guerra Mundial foi a virada de chave para o protagonismo militar e econômico dos EUA, saindo do conflito como o maior credor de empréstimos do mundo e principal potência bélica. A II Guerra consolidou o País como império global e a Guerra Fria arrematou, ressignificando o mercado numa globalização alinhavada pelo multilateralismo obediente, pelas cadeias de comércio e finanças, a onipresença da US Navy e o arsenal nuclear. Continuou assim nas recentes Guerras do Golfo, Iraque, Líbia e Síria, apesar do susto no Vietnam e Afeganistão.

É bem verdade que Trump é devoto de Pedro Malasartes, salpicando mundo afora suas mirabolâncias, enquanto, em casa, desmonta políticas sociais e legislações incômodas. Embolou o Tio Sam na Ucrânia, Gaza, Venezuela e Irã sem planejamento nem explicação. Sejamos justos, ele ouviu dizer que Wall Street e o Vale do Silício toleram quem peca por excesso, desde que o caixa feche no azul.


Felipe Sampaio

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